Expedição Teto das Américas: 10 cumes andinos em 45 dias.

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A expedição Teto das Américas foi uma das diversas etapas do projeto Mundo Andino do grande montanhista Waldemar Niclevicz (primeiro brasileiro no Everest K2, e outras), um grande projeto que se iniciou há mais de 10 anos que consiste escalar as principais montanhas dos Andes.

Publicado em papel no Jornal da Montanha, edição 11 maio de 2013

A expedição Teto das Américas foi uma das diversas etapas deste projeto, mas foi especial por ter sido a que mais rendeu cumes, 10, mesmo sem termos nenhum apoio financeiro e sermos uma pequena equipe.

Saímos de Curitiba no dia 16 de Dezembro de 2012 a bordo da poderosa Andina, uma caminhonete 4×4 preparada para enfrentar as dificuldades da montanha. Éramos três, pois além de mim e do Waldemar, ainda tínhamos a Silvia Bonora, que nos apoiou bastante.

Atravessamos o norte da Argentina apressados e na terceira noite da viagem já estávamos a 3200 metros de altitude na cidade de San Antonio de Los Cobres, onde começamos nosso processo de aclimatação que teve como objetivo a escalada do vulcão Tuzgle, de 5500 metros, aonde chegamos no quinto dia de viagem. Nunca havia feito um cume tão alto em tão pouco tempo.

Continuando nossa expedição, fomos para a primeira montanha de 6 mil metros da etapa, o Cerro Libertador San Martin com 6300 metros de altitude.  A aproximação nesta montanha foi um pouco longa, durando 2 dias, afinal, nossa experiência na região do Tuzgle foi breve e não estávamos totalmente aclimatados. Fizemos o ataque ao cume no dia 24 de Dezembro, após uma noite de muita nevasca, isso fez com que o caminho até o topo estivesse totalmente coberto, o que dificultou a navegação. Sobe-se até os 6 mil metros rapidamente, mas depois se caminha por volta de 8 quilômetros num planalto com leves sobes e desces, mas com uma puxada grande até o cume no final. Ou seja, é uma montanha bastante desgastante e o físico foi a maior dificuldade, chegamos de volta ao acampamento exaustos!

Ainda na Província de Catamarca, porém muitos quilômetros mais ao Sul, experimentamos o segundo 6 mil da viagem, o Vulcão Antofalla, de 6440 metros. A dificuldade desta montanha foi a exploração da rota. Como se pode imaginar, este vulcão é pouquíssimo frequentado, não há informações sobre ele em nenhum local e a rota é indefinida. Montamos um acampamento base a 4900 metros, até onde a Andina chegou e atacamos o cume dali mesmo, ou seja, 1500 metros de ataque, o que foi bastante cansativo. No cume, tivemos uma surpresa, encontramos uma apacheta, uma espécie de altar de adoração Inca, que está lá há mais de 500 anos!

Após este cume, começamos uma odisséia 4×4 pelo planalto árido da Puna do Atacama, atravessando cerca de 450 quilômetros por trilhas na areia, passando por salares e campos de escória vulcânica, em locais tão ermos que passamos por muita tensão só em imaginar algum problema em nossa caminhonete, como atolar, rasgar um pneu nas rochas afiadas ou ficar sem combustível. Passamos o réveillon neste meio do nada e ao lado de uma lagoa com uma piscina térmica natural e logo no primeiro dia do ano fizemos o que talvez tenha sido a quarta ascensão no belo vulcão Peinado de 5800 metros.

A travessia acabou quando chegamos ao Paso San Francisco onde entramos rapidamente em território chileno e escalamos o Vulcão Incahuasi, de 6600 metros de altitude por sua face Leste. Pegamos um tempo muito seco, mas com muito vento, tanto, que virou uma tortura. Iniciamos o ataque aos 4900 metros de altitude, o que foi uma puxada incrível e cansativa. O vento roubou muito nossa energia e por isso quase desistimos. Apesar do gosto de revanche, pois já havia tentado escalar esta montanha 6 anos antes.

Após este cume, já estávamos novamente nas montanhas, desta vez para escalar o colossal Pissis, terceira montanha mais alta dos Andes, com 6800 metros. O caminho até lá se dá por uma trilha 4×4 que tem 80 quilômetros. É um caminho incrível, que cruza desertos e lagoas cheias de flamingos.

Tanto eu como o Waldemar estávamos sentindo muito bem com a altitude, assim, fizemos uma aproximação rápida até o acampamento alto da montanha, numa altitude de 5700 metros, onde acampamos, derretemos neve e descansamos para empreender mais um ataque ao cume, que se deu num tempo perfeito com a presença de uma lua muito bonita que iluminou nosso caminho pela madrugada, permitindo que chegássemos cedo ao cume e regressássemos no mesmo dia ao acampamento base.

No retorno do Pissis, presenciamos uma cena mágica. Oito condores enormes sobrevoaram nossa cabeça como se estivessem se exibindo para nós. Achei que isso seria um sinal de sorte, mas foi o começo da nossa dificuldade nesta expedição. Após este dia, começaram uma série de tormentas em todos os Andes Centrais, provocando enchentes e deslizamentos nas estradas e cidades e deixando pacotes de neve enormes nas montanhas. Como diz aquele velho ditado de montanha de Mendoza: Cuando el condor vuela bajo, montañero al carajo!

Tentamos escalar o Nevado de Famatina em La Rioja, mas o tempo não deixou. Bivacamos numa casa abandonada centenária numa mina abandonada. Me senti ao lado de fantasmas durante a noite de neblina densa e molhada. Há poucos dias, o amigo da montanha Jamil dos Santos faleceu de maneira chocante. Todos os que trabalharam naquela mina, também estavam mortos, foi um sentimento estranho…

Com a previsão debaixo do bolso, deixamos pra trás outras montanhas em La Rioja  e fomos direto à Barreal, na província de San Juan, para escalar outra montanha enigmática, o Mercedário, de 6770m.

Chegamos com dificuldade na base da montanha por conta dos efeitos da chuva. Fizemos um descanso rápido e antes dos primeiros raios de sol, eu e Waldemar já rumávamos para um acampamento alto, com o objetivo de seguir até o cume pela madrugada, aproveitando a janela de bom tempo da manhã seguinte. Era um plano ambicioso e muito arriscado.
Conseguimos chegar numa altitude de 5100 metros no acampamento Pirca de Incas onde encontramos uma expedição guiada pelo amigo argentino Anibal Maturano. O tempo estava péssimo, não parava de nevar. Vivemos uma experiência agonizante quase chegando ao acampamento, passando por uma tormenta elétrica forte, levava choque ao encostar em qualquer coisa metálica e sentia meu cabelo ficar em pé, fazendo um zumbido parecido com um o barulho de abelhas! Achei que iria levar um choque e isso iria fritar minha cabeça.
Acampamos bem precariamente, derretemos a neve que caia sem parar do céu e acordamos uma hora antes do combinado, para sair da barraca na noite escura e nevada, sem nenhuma visibilidade, seguindo o tracklog do GPS passado pelo Maximo que escalou a montanha alguns anos atrás.

Varamos a madrugada numa navegação literalmente às escuras. O frio consumiu nossas energias e lá pelas 4 da manhã sentia tanto sono que queria dormir. Para vencer o sono e o cansaço, gritávamos muito. Foi uma experiência muito estranha essa luta contra o cansaço e o sono, mas conseguimos vencer ao ponto que o dia foi nascendo, dando esperança de alcançarmos aquele desejado cume.

Mas nossa vida não foi tão fácil. No alto da montanha, a neve acumulada era muito grande, afundávamos até o joelho e eventualmente até a cintura, dependendo se a gente achasse ou não um substrato rochoso embaixo daquela neve. Ou seja, caminhávamos por um terreno oculto, o que nos atrasou, cansou e estressou muito. Para piorar, após horas e mais horas de caminhada, já observando o subir das nuvens anunciando uma tarde chuvosa, chegamos num falso cume de onde observamos distante o cume verdadeiro. Foi um desanimo total. O Waldemar chegou a querer desistir, tanto pelo cansaço, quanto pela hora avançada (13 da tarde!). Vi o ele baixar a cabeça, pensar, olhar pro cume, pensar e depois decidir:

_ Vai na frente que eu te sigo!

Sai rápido como um cachorro que fugiu da carrocinha e driblando outros dois falsos cumes, cheguei junto com o Waldemar no topo do Mercedário, onde pudemos ver o enorme precipício de sua face Sul e os adjacentes cumes do Ramada e do Cerro Negro, que eu já experimentei quatro anos antes, além do mais distante Aconcagua, totalmente branco de neve, que escalei naquele longínquo 2002! Acho que estou ficando velho…

Descemos até a base no mesmo dia, conseguindo escalar aquele gigante em apenas dois dias. Foi extremamente cansativo!

Nossos dias de Argentina estavam contados. Após escalarmos todas estas montanhas, começou nosso caminho de volta, mas do lado de lá da fronteira, no Chile.
Encontramos um Chile livre das nuvens negras e aberto para subirmos o que foi o 6 mil mais tranquilo da viagem, o Cerro Las Tórtolas, de 6100 metros, primeiro cume de 6 mil da Silvinha e nosso oitavo cume na viagem.

Avançamos rumo ao norte para chegar de volta ao Passo San Francisco onde pretendíamos fechar com chave de outro nossa expedição. Chegando lá, encontramos as montanhas da Puna novamente cobertas por neve, num visual raro de ver. Era tanta neve, que os Carabineros fizeram a gente dormir uma noite na aduana, com medo que algo ruim acontecesse conosco. Para isso eles já tinham uma experiência recente. Havia um argentino desaparecido no Nevado Três Cruces, a quinta montanha mais alta da cordilheira, que pretendíamos subir. Para não atrapalhar as buscas, decidimos ir primeiro ao Ojos Del Salado, a segunda montanha mais alta dos Andes e o cume mais elevado do Chile com 6883 metros.

Após uma aventura 4×4 no meio da neve, achando o caminho no faro e na coragem, conseguimos chegar ao Refúgio Atacama, a 5200 metros, ponto máximo onde se consegue chegar numa boa 4×4 naquelas condições. A paisagem em nada se parecia com a que Waldemar encontrou 24 anos atrás, quando ele se tornou o primeiro brasileiro a escalar aquela montanha. Havia muita neve e tudo estava pintado de branco! Deixamos a Silvinha com a Andina no refúgio e rapidamente avançamos até o Refúgio Tejos, a 5900 metros, percorrendo em poucas horas o restante daquele caminho que outrora foi uma estrada, que naquele dia era um deserto branco e gelado. Chegar ao refúgio foi um presente diante de tanta dificuldade, mas foi fichinha para o que viria a seguir.

Saímos para o cume às 2 da madrugada, em outra noite sem lua e com muito frio. As condições eram totalmente anormais, pois o Ojos nunca tem neve e desta vez nosso corpo afundava nela. Como no Mercedário, quase congelamos durante a madrugada e tivemos nossa energia sugada pela noite.

A pendente até a cratera do vulcão é bem íngreme e havia muito gelo ruim e até penitentes. Chegando na cratera, pegamos muita neve concentrada e um terreno com muitas rochas grandes encobertas. Tínhamos que adivinhar onde estavam estas rochas para pisar. Às vezes pisávamos entre os blocos e afundávamos muito, fazendo que nosso esforço fosse enorme e exaustivo. Desta forma terrível, chegamos até a base da pequena parede que leva ao cume, que é uma escalada de terceiro grau, cheia de neve e com um vento de derrubar no chão. Havia uma corda fixa, com a alma exposta, não tive opção, como já tinha emagrecido uns 8 kg, me arrisquei subindo por ali mesmo e assim chegamos ao topo daquela enigmática montanha, que é o maior estratovulcão do mundo, extremamente tenso!

Ainda havia mais uma montanha para fechar a expedição, o Três Cruces Sul onde havia desaparecido o montanhista argentino Ricardo Córdoba. Nas condições da montanha, era impossível encontrar ele com vida. Seu corpo até hoje não foi encontrado, mas sua barraca havia sido achada um dia antes de chegarmos à montanha.

Estando extremamente aclimatados, Waldemar e eu não perdemos tempo em acampamentos intermediários, saímos da base da montanha e batemos direto até os 6150 metros, no local onde Ricardo acampou pela ultima vez. Este foi o acampamento mais alto da minha vida e talvez um dos mais pesados, pois foi meio frio ter acampado ao lado daquela barraca vazia. Por outro lado, nunca havia ficado tão próximo de um cume de 6 mil, apenas 600 metros verticais. Achei que a montanha estava no papo!

Após uma noite lazarenta na pequena barraca, contando o tempo para terminar aquele sofrimento, saímos para o lance final sob uma noite belíssima e iluminada pela lua cheia. Vencemos os primeiros 300 metros com facilidade, mas depois dali, começou um terreno cheio de blocos rochosos ocultos pela neve funda, infinitamente pior do que aquele que enfrentamos no Ojos. A escalada virou uma tortura!

Eu não consiga progredir, e em cada dois passos me afundava até a cintura, quase sempre prendendo meu pé nas rochas ocultas pela neve. Neste momento a experiência do Waldemar fez toda a diferença e ele foi muito preciso em se guiar naquele labirinto rochoso e perigoso. Ainda tivemos que vencer um lance de escalão, para chegar num planalto coalhado de torres vulcânicas, separadas por fendas profundas preenchidas por neve. Era um labirinto absurdo, onde erramos o caminho diversas vezes, mesmo estando 50 metros em linha reta do cume, tivemos uma enorme dificuldade em achar o caminho, que de tanto errar, acabou saindo.
Chegamos no topo num dia lindo, tendo uma vista privilegiada de outras montanhas que escalamos antes, como o Incahuasi, Pissis, Ojos, além dos outros 3 Cruces, o Walther Penck, Cerro Condor, Fraile, San Francisco, 3 Quebradas, El Muerto e muitos outros 6 mil, nesta que é a região que mais tem 6 mil nos Andes.

Descemos da montanha rapidamente naquele mesmo dia, nos reencontramos com a Silvia, carimbamos o passaporte e ainda socorremos um casal de argentinos que se acidentaram na estrada. Chegando na aduana argentina, ainda encontrei com os filhos de Ricardo Córdoba, que estavam ansiosos para saber se a assinatura do pai estava no livro de cume, um livro que achamos afundado na neve quase sem querer, mas que não tinha assinatura nenhuma, ou seja, sem pistas de onde Ricardo foi parar.

Nunca numa expedição consegui escalar tantas montanhas, nunca também encontrei tantas dificuldades. Se conseguimos ter sucesso nesta viagem, isso se deu por nossa experiência e tenacidade. Tivemos um inicio de 2013 muito intenso. Dizem que quando você passa o réveillon fazendo uma coisa, esta coisa se repetira muitas vezes ao longo do ano. De fato isso está acontecendo comigo. Escalo uma montanha todos os dias, mas tenho saudades daquelas escaladas mais fáceis nos Andes.
 

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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