Expedição ao Nevado del Tolima

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Na Colômbia a Cordilheira dos Andes se divide em três porções: Ocidental, Central e Oriental. Em seu braço central encontra-se o Parque Nacional dos Nevados, um complexo ecossistema onde surgem três grandes vulcões: Nevado del Ruiz, Nevado del Tolima, Nevado Santa Isabel, além do paramillos de Cisne, Santa Rosa e Quindío, Cerro Bravo e Machín.

Cordilheira dos Andes na Colômbia.

Foi assim, sem conhecer muito da geografia da região, que eu aceitei o convite do meu amigo colombiano José Vélez, para escalar o Nevado del Tolima.

Em nove de Março de 2019, sai de São Paulo rumo a Medellín, em uma viajem com escala em Lima no Peru. Voo diurno, penoso. Constata-se facilmente que estamos mal servidos de voos na América Latina…

Medellín é sensacional, uma cidade que inspira montanha. Toda reestruturada e urbanizada após seu período insólito de dominação dos narcotraficantes e das guerrilhas (talvez o mesmo que vivemos, hoje, em nossa cidade maravilhosa).

Partimos de carro para Salento, a 2400 metros de altitude, cidade no sopé do Parque de los Nevados, em uma viajem sinuosa, entre montanhas e cafezais. Em 6 horas já estávamos prontos para conhecer nosso grupo.

Nevado Tolima

Medellin

Optamos por contratar uma empresa local, Montañas Colombianas, a qual formou um time até que bem homogêneo: dois colombianos, um hermano argentino, um belga, um suíço, um americano e eu.

Refúgio em La Argentina

O primeiro dia de caminhada percorremos o Vale do Rio Cárdenas, cerca de 12 km, onde subimos pouco mais de 1200m de elevação por de 6 horas, chegando na Finca La Argentina, a 3400 metros de altitude,  local da nossa primeira noite. Essa pequena propriedade rural de uma família está longe de ser um refúgio de montanha, mas se presta para descansar, comer e dar muitas risadas…

O segundo dia começou cedo e após um delicioso café da manhã com Arepa (uma espécie da panqueca feita de milho) e algumas xícaras de café colombiano (um dos melhores do mundo), saímos por terrenos úmidos com muita vegetação. Subimos até uma área mais aberta a cerca de 4200m onde paramos para almoçar.

A essa altura o que mais impressionava era a umidade da região, que apesar da altitude, trazia uma riqueza de espécies vegetais ímpar. Bem diferente de que já conhecia nessa mesma altitude, por exemplo, na Puna do Atacama ou nos altiplanos Bolivianos. Não podia imaginar que havia tanta vida na cordilheira dos Andes a quase 4000 metros de altitude.

Ao final daquele dia dormimos na Finca Primavera, a 3750 metros de altitude, e pra quem havia chegado da cidade de São Paulo há dois dias, já podia sentir os efeitos da altitude.

Devido a experiências desastrosas no trekking do Everest Base Camp que fiz com o Pedro Hauck e Max Kausch em Abril 2017, segurei meu passo e fui praticamente rastejando nesses primeiros dois dias, a fim de minimizar os efeitos da montanha.

Caminho pro Campo Base

Naquela experiência himaláica, quando estávamos no Monastério de Tengboche, a 3867 metros de altitude, ocorreu-me a brilhante ideia de jogar futebol com os monges… O resultado, apesar do placar 1×1, foi uma goleada da montanha sobre minha cabeça! Dois dias depois estava cambaleando, completamente confuso, voltando pra casa com um sherpa guiando meus passos, literalmente. Pedro Hauck insistiu comigo que foi uma maldição devido a uma entrada mais forte que dei no monge… Enfim…

No terceiro dia rumávamos para o Campo Base, a 4500 metros de altitude, por uma região conhecida de Páramos. Essa complexa área é de suma importância para o equilíbrio da umidade dessas montanhas além de ser nascente de grandes rios colombianos. A vegetação da região encontrada somente na Venezuela, Colômbia, Equador e Peru, é um espetáculo de beleza e força! Somente bem próximo ao Campo Base o terreno torna-se arenoso e mais alpino.

Após instruções sobre equipamentos de glaciar, um espaguete com funghi e um chá de coca, deitamos cedo com despertador ajustado para meia noite, para o ataque ao cume.

A noite foi clara com muitos flashes, resultados de raios e relâmpagos que ocorriam em regiões mais baixas ao nosso redor. Havia três tempestades que podíamos observar, cada vez que precisássemos sair das barracas para nos aliviar, resultados dos muitos litros de água ingeridos para melhorar a aclimatação.

Campo base do Tolima

Dormi cerca de uma hora e meia. Excelente. Já me sentia novo. Não imaginava que iria conseguir dormir, minha ansiedade era grande. Tomamos um pouco de chá e começamos o ataque ao cume.

Nessa altura, três dos sete estavam com dor de cabeça e nauseados. Após um trecho arenoso onde serpenteamos por uns 90 minutos, colocamos capacete e cadeirinha para, encordados, vencêssemos uma morena íngreme, que a escuridão não deixava ver sua face exposta! Com a segurança das cordas subimos uns 80 metros em uma escalda pouco técnica.

O frio era suportável, uns -2ºC, exceto por curtas rajadas de lento úmido que nos fazia lembrar o quanto a unidade pode esfriar rapidamente o corpo. E era justamente isso que ocorria a cada parada para hidratar-se ou quando finalmente atingimos a borda do glaciar e tivemos que colocar equipamento apropriado.

O suíço, um policial de 34 anos, que mostrava estar em ótima forma e aclimatado, tremia de frio! Fez-me pensar que fosse talvez, o mais friorento membro de seu gelado país. Antes mesmo de colocar os crampons Emiliano, nosso hermano porteño, forçou o vômito pois estava muito nauseado.

Durante o ataque ao cume

O tremor no suíço, o som inconfundível do vomitar e a respiração ofegante de todos fizeram lembrar-me de olhar para o altímetro: já estávamos há 5000m.

Divididas as cordadas, iniciamos a subida do glaciar ziguezagueando por gretas profundas. Já estava clareando e com isso o ânimo da galera foi aumentando. Dava pra ver agora o pescoço do Tolima, um trecho íngreme que levava diretamente ao platô largo do cume!

Esse passo final foi como um estalo, nem vi o tempo passar, nem aquela percepção da respiração, que acompanha os montanhistas, e faz soar muitas vezes como um mantra… Já se ouvia gritos de satisfação dos primeiros passos no cume do Nevado del Tolima a 5235 metros de altitude.

Estávamos sozinhos, aliás, como em quase todo percurso até lá. Infelizmente a nebulosidade era grande e a visibilidade não passava de umas dezenas de metros. Tiramos umas fotos, comemos um lanche. Eu particularmente estava com muita fome.

Ainda tivemos tempo para algumas risadas antes de um casal austríaco chegar.

O caminho da volta seria longo, voltaríamos naquele mesmo dia para a Finca Primavera a 3750m. Totalizando 14 horas de caminhada, que apesar de longo, a sensação de ter alcançado o cume fez o caminho parecer leve. Na chegada, a visão do Tolima no horizonte foi impressionante.

A geografia sem igual da Cordilheira dos Andes em sua porção mais tropical é surpreendente.  Os páramos, como esponjas absorvem a umidade tropical e filtram nascentes importantes trazendo vida as montanhas. As poucas famílias locais que vivem de maneira bastante primitiva são de uma riqueza cultura intocada.

Dizem os moradores locais que a cada ano, o glaciar dos nevados regride um pouco. Uma pena… Talvez um dia eu tenha que voltar para conhecer a cratera do Tolima, quando essa não estiver mais coberta de neve…

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Sobre o autor

Bruno Mancinelli

Bruno Mancinelli é médico mastologista de São Paulo e montanhista.

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