Faliram os clubes de montanhismo?

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A internet opera uma revolução sem precedentes e encurta as distâncias. Pode nela estar a semente de uma nova era para o montanhismo? O clube de montanhismo faliu como instituição? Foi derrotado pelo “ambientalismo” do papel e da gaveta?


Em todas as listas de discussão, fóruns e principalmente em conversas informais sempre ouço a reclamação de que não há patrocínio para os esportes de aventura. Não se pode negar que no Brasil existam montanhistas e escaladores de qualidade, aliás, em época nenhuma houve tantos e de tão elevada qualidade. Esportistas de valor internacional que se financiam a duras penas e não encontram apoio nem mesmo dentro da própria categoria. Não convém citar nomes para evitar cometer injustiça com alguém.

Conquistar patrocínio para esportes de público é relativamente fácil, mas o montanhismo não tem platéia para aplaudir e também não ajuda a vender sabonete. O montanhismo tem a vender apenas a aventura, a superação, a organização e o destemor. Vocês acham pouco? Em que outra categoria o esportista coloca em risco a própria vida para ganhar apenas 30 minutos de solidão?

O montanhismo é um esporte solitário que ironicamente não pode e nem deve ser praticado sozinho, exige colaboração e companheirismo. Não aceita competição e todos os praticantes recebem a medalha de ouro porque superam a si mesmos na mais ínfima aventura. No montanhismo e na escalada o risco também é companheiro de corda.

Os clubes nasceram no final do sec. XIX para unirem as forças dispersas e promover este espírito de cooperação. Deste movimento resultou a conquista do Himalaia, dos Pólos e o nascimento de uma indústria de tecnologia e equipamentos voltada às necessidades destes intrépidos e gloriosos aventureiros.

É dever primeiro dos clubes defender a união e os interesses dos filiados então é de suma importância saber qual são estes interesses por ordem de grandeza. No país do papel as coisas sempre ficam na boa intenção sem jamais terminar em resultados práticos. Vejo uma grande distância entre o interesse do montanhista e a atuação do clube de montanhismo, tanto que os expoentes do montanhismo nacional não participam destas agremiações, com as honrosas exceções, quando muito são apenas membros honorários e ausentes de suas atividades.

Culpa do montanhista que abandonou o clube ou vice-versa, pouco importa, o fato é que o vazio foi preenchido por outros interesses. Alguns escusos e outros nem tanto. Defender a natureza faz parte do espírito dos montanhistas, mas ao implantar degraus nas pedras, calçar trilhas e construir escadas como prega o programa “Adote uma Montanha” está ajudando a sua preservação ou incentivando o turismo desenfreado? Eliminar o risco com artificialismo e controle policial vem ao encontro do espírito da montanha? Em muitos outros países a criação dos parques preservou fatias do meio-ambiente dos ataques da especulação imobiliária, dos pecuaristas, dos agricultores, dos caçadores e de outros invasores daninhos, mas não excluiu o esporte de risco. No Brasil os parques tiveram o mesmo sucesso?

As placas de “proibido escalar” e “trilha interditada” se proliferam sem parar, mas não tenho notícia de que os crimes ambientais tenham realmente sido coibidos em algum parque. É um sinal inequívoco de que, nós montanhistas, tomamos a trilha errada. Hoje todos os montanhistas tem blogs, sites, colunas em sites ou participam de fóruns ou listas eletrônicas, mas não tem representatividade nem união. Os atuais clubes de montanhismo ainda representam os montanhistas de fato?

Não conheço nenhum clube de ambientalista nem de ecologista e não nego a eles o direito de se agremiar em um ou em vários para praticar e defender suas idéias, mas gosto de dar o nome correto aos bois. Aos políticos criaram-se os partidos e neles se negociam os cargos. O clube de montanhismo deve defender primeiro o direito ao risco e a aventura no ambiente de montanha, unir e defender os praticantes nos seus interesses comuns, divulgar e fortalecer o esporte, receber e instruir os iniciantes. Só com união e entrosamento se torna possível captar patrocínio e financiamento para grandes feitos.

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Sobre o autor

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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