Fim de Ano em Ubatuba

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Ubatuba é o maior dos municípios litorâneos paulistas; e, de fato, é um dos maiores do Estado. Além de grande, sua costa é muito recortada. Como resultado, lá existem inúmeras enseadas e mais de meia centena de praias. Dizem alguns, uma centena – mas eu vi recentemente uma relação com quase 80 delas.

Se você leu minha coluna sobre o Corcovado, talvez lembre que comentei sobre a Praia Dura, onde costumava ficar na casa de um amigo. Pois esta história se passa numa dessas ocasiões.

Praia Dura (Rio Escuro), Ubatuba, SP

Durante anos, mantive o hábito de ir nadando até a Ilha do Promirim, fronteira à praia de mesmo nome. Suas águas são especialmente claras, permitem avistar uma variedade de peixes. Combinava com um barqueiro chamado Neco que viesse me encontrar depois, e voltava na sua traineira.

Era o último dia de dezembro e resolvi visitar o Promirim. Não me importei pela ausência do Neco, trouxera nadadeiras para me ajudarem na volta. Ao chegar na ilha, encontrei um caiçara. Ele me contou a história do casal que aportara lá dois dias atrás – o mar virou, não conseguiram voltar a nado, tiveram de passar a noite na ilha.

Praia Grande do Bonete vindo do Cedro, Ubatuba, SP

Fico pensando como eles eram imprudentes, e, quando olho para sudoeste (um lobo do mar como eu sabe que é de lá que vem o mau tempo), vejo uma grande massa escura se aproximando. Claro que, em pouco tempo, quando o vento chegasse, o mar iria se agitar com violência.

O risco de passar o Réveillon ilhado fez com que meu desempenho fosse estupendo: as primeiras gotas de chuva só me alcançaram quando já estava perto das areias do continente. Já era de tarde, retornei então para a Praia Dura para me preparar para as festas.

Logo chega nosso amigo Wilson Souza, que apelidamos de Coleguinha, para se unir a nós. Estava caminhando pela Bocaina e tivera a sorte de pegar uma carona num Fusca até o litoral. Caso contrário, passaria um Réveillon melancólico no mato. Mas o Coleguinha não chegou incólume: estava incrivelmente picado por insetos, as pernas e os braços tomados por manchas vermelhas.

O Coleguinha Descansando em Ubatuba, SP

Mas nada que um bom banho quente não alivie. Bonitos e vestidos de branco, vamos à Praia do Lázaro, de onde é possível ver gente bacana e avistar os fogos de Ubatuba. A noite é agradável, caminhamos até a extremidade da praia e encontramos um sujeito deprimido tomando whisky.

Praia do Lázaro, Ubatuba, SP

Uma das virtudes do Coleguinha era suas amizades instantâneas. Logo estamos íntimos de Aristides, ouvindo sua história de um amor infeliz. Tinha se separado de sua esposa, que a foto nos mostra ser uma morenaça. Sua filha, gorducha como ele, acompanhava o relato e logo vimos ser uma menina divertida, inteligente. Só não me recordo o nome, vou chamá-la de Melissa.

Surge então a ideia de irmos no dia seguinte até a Praia das Sete Fontes. Eu não a conhecia, mas o Coleguinha diz ser uma caminhada tranquila. Convidamos a menina e, na manhã daquele primeiro dia do ano às 10hs, encontramos Aristides curando a ressaca junto com Melissa.

Ele fica curtindo a fossa e nós vamos embora. O dia é quente e o caminho é longo, temos de subir um morro para chegar nas Sete Fontes do outro lado. Claro que a menina não tinha o hábito de caminhar, e agora ela se arrasta na volta. Só chegamos ao Lázaro depois das 15 hs.

Praia do Cedrinho, Ubatuba, SP

Aristides estava desesperado, achou que perdera não só a esposa, mas também a filha, diz que estava prestes a chamar a polícia quando nos viu chegar. Mas tudo termina bem, de sequestradores voltamos a ser amigos. Depois, já em São Paulo, saímos com Aristides, sua filha e sua esposa – vestida de oncinha, um arraso.

Vejo que o Coleguinha demonstra um renovado interesse na Melissa, certamente para impressionar a mãe. Ele me conta depois que conseguiu visitá-la, mas o que ele mais conseguiu, isto ele não me falou. Praia é assim: amizades instantâneas, intenções rápidas, contatos emocionantes, amores fugazes.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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