Fim de ano na Alpha Omega

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Relato de Fernando Celso Ribeiro sobre a Travessia Alpha Ômega na Serra do Marumbi no finalzinho do ano de 2018.

Dia 1: 27/12/2018

Chegamos no Zezinho por volta das 5 hrs, após uma conversa com o tiozinho estávamos prontos para começar a subida do Canal, subida tranquila não fosse a cargueira pesada e o corpo ainda frio se adaptando ao ritmo da caminhada.o mato molhado encharcava as roupas, e logo estávamos ensopados. no meio da subida  o primo pediu para esperar. estava começando a sentir dores e desconfiado que elas aumentariam estava decidido a abandonar a missão. aquilo nos abalou, no momento pensei em desistir também, mas já estávamos ali, foram semanas se programando e se preparando,outra oportunidade não sabíamos quando. após uma breve conversa e incentivados pelo primo decidimos continuar, agora apenas eu e o irmão de tantas trilhas.

Em pouco tempo chegamos ao cume do Canal, tempo fechado, desanimados por não ter o primo ali paramos para decidir o que fazer, a ideia inicial seria atravessar o máximo de montanhas em 4 dias mas com 1 a menos teríamos que tomar mais cuidado com a trilha, e a previsão de tempo bom não estava batendo, decidimos por fazer em 3 dias pegando a freeway no Pelado,e assim tomamos o rumo ao Vigia.

Passamos a via ferrata do paredão, muito úmida e lisa, secamos mais um pouco de mato atravessando o vale entre os cumes e chegamos a pedra no cume do Vigia, paramos o suficiente para retomar o fôlego e começar as descer as pedras até a entrada da trilha para o Ferradura, novo mergulho no mato encharcado e começamos a descer o vale. com a trilha meio batida pelas visitas frequentes aos restos do avião do Carvalho e com os corpos já aquecidos e “acostumados” ao peso das mochilas não demoramos a chegar ao cume do Ferradura.

Rapidamente começamos a descer o vale que o separa do Carvalho, descida tranquila não fosse o excesso de barro, taquaras e algumas descidas que exigem um pouco mais de cuidado ao se pendurar em galhos e degraus de terra não muito confiáveis. logo vencida esta parte do vale chegamos a cachoeira do Carvalho,que ao contrario da vez anterior que estava seca, agora tinha um fluxo continuo de água, lembrei-me quando subi ela a primeira vez, seca, com mochila de ataque e imaginando como seria subir de cargueira. curiosidade saciada, após a escalada vem a trilha ao cume, pegada firme e direta, nem paramos no cume, decididos a parar apenas no próximo vale que leva ao Sem Nome.

Descemos uma trilha, passamos direto pelos destroços do avião, daqui pra frente era caminho desconhecido e todo cuidado era necessário. Derrubamos muita taquara no peito até chegar no fundo do vale onde paramos ao lado de um córrego para preparar o almoço e descansar um pouco, com as energias recuperadas voltamos a trilha, não demorou muito a encontrarmos o lendário acampamento fantasma, algumas fotos, a reflexão do que pode ter ocorrido ali, a imaginação corre solta. após alguns minutos ali voltamos ao nosso caminho, mais taquara, vara mato e um sobe desce em um vale sem fim até chegar ao Sem Nome, subida pesada, trilha fechada, uma perdidinha aqui, outra ali até que galgamos seu cume, parada para fotos e pé na trilha sentido Mesa.

Após um longo sobe desce, algumas escorregadas e muitas enroscadas no mato alcançamos o início da subida do Mesa, subida íngreme e enjoada, o mato fechado em alguns pontos dificultava o avanço e por vezes pareciam querer nos jogar barranco abaixo, depois de muita luta chegamos ao seu cume, que diferente dos anteriores possui menos árvores altas, proporcionando uma bela visão da serra e do caminho percorrido, mas como estávamos dentro de uma nuvem não tivemos a sorte de ter esta visão, quem sabe na próxima. já passava das 16 horas e a ideia era chegar até o Alvorada 4, já sabíamos da fama do Alvorada e tínhamos certeza que aquela montanha nos desgastaria muito mais que o Mesa, as nuvens cada vez mais escuras indicavam chuva forte vindo, após uma breve conversa decidimos que pelo horário e possível mudança no tempo seria mais prudente acamparmos no fundo do vale, juntamos nossas coisas e partimos.

Descemos ligeiros, parados vez ou outra pelas taquaras que insistiam em segurar a mochila, ou em alguma descida mais cuidadosa em meio as raízes e lama, chegando ao fundo do vale uma garoa começou a cair e decidimos parar no primeiro ponto bom que encontrássemos e após alguns minutos chegamos a um córrego com um ponto aberto para as barracas, a garoa virou chuva e assim montamos o acampamento, logo que arrumamos tudo trocamos as roupas molhadas por secas e começamos a providenciar uma janta quente. com a barriga cheia o corpo cansado e a chuva caindo não nos demoramos a ir cada qual para seu aposento recuperar as energias para o próximo dia…

 Dia 2: 28/02/2018

Acordamos cedo após uma boa noite de sono, a pouca visão que as copas das árvores proporcionavam indicavam que o tempo estava melhorando, preparamos o café da manhã, recolocamos as roupas molhadas guardando as secas bem protegidas, juntamos nossas coisas, e partimos rumo as Alvoradas. Mais sobe e desce pela trilha que serpenteia o vale. A subida do Alvorada 4 começou  pesada, e foi assim até o cume, praticamente uma escalada se agarrando em troncos, raízes e pedras em meio a lama da chuva do dia anterior, ficamos agradecidos pela decisão de descansar antes de subir esta montanha. No cume confirmamos que o tempo estava melhorando com nuvens mais espaças permitindo que o sol vez ou outra mostra-se a cara, depois do descanso voltamos a trilha que leva ao Alvorada 3.

Atravessar os cumes dos Alvoradas é uma tarefa relativamente fácil, relativamente porque se desce uma encosta íngreme, e depois sobe outra, com o bom ritmo logo passamos o Alvorada 3 e estávamos no Alvorada 2, pudemos ver o Pelado lá na frente, era o próximo objetivo, mas tínhamos um grande vale pela frente passando passando por varias encostas, se quiséssemos pegar a freeway não poderíamos perder tempo e logo começamos a descer o Alvorada 2.

A descida foi lenta devido aos cuidados na trilha íngreme e úmida, passando por pedras, troncos e grotas, mas a coisa fica pior no vale, se desce muito e sobe muito em um terreno instável de terra e folhas entre emaranhados de raízes sobre grotas profundas, seguíamos assim até pararmos em uma clareira para preparar o almoço, energias repostas e seguimos desviando grotas pedras troncos e vara-matos até o Pelado que nos desgastou na subida pesada e confusa com vários trechos de trilha fechados que nos obrigavam a mudar a rota, no cume a alegria de sentir o sol e  que o tempo estava realmente melhorando, descemos o cume e fomos até a asa do avião.


Após conseguir sinal e avisar o povo em casa que estávamos vivo, comíamos uma barra de cereal e observávamos as montanhas a nossa volta debaixo daquele sol que secava nossas roupas molhadas da trilha, namorávamos dali o Ângelo e o Leão, o Espinhento e os outros cumes que estavam nos esperando para uma próxima investida, aquecidos pelo sol e animados pelo horário decidimos mudar os planos, seguir pro Ângelo, Leão e pegar a freeway no Boa Vista, e assim o fizemos, eram 16 horas.

Cume do Espinhento

Com um espirito renovado e animado começamos a descer o Pelado confiantes que não demoraríamos a chegar ao Ângelo. A descida pela trilha começa tranquila e muda para o tradicional vara mato com muita subida e descida, o Ângelo não chegava nunca o sol desaparecera entre algumas nuvens, e o vale escuro e frio nos consumia muita energia, chegamos na base do Ângelo esgotados decididos a armar acampamento no primeiro lugar que encontrássemos durante a subida que foi lenta, subíamos um pouco, parávamos um pouco, sempre procurando algum lugar para pernoite, e assim, em passos de Everest chegamos ao cume. Sem condições de montar acampamento ali pegamos a trilha para o Leão, logo que passamos um matagal, a trilha ficou mais tranquila em meio ao capim alto e descendo mais alguns metros encontramos um lugar apropriado para as barracas. eram aproximadamente 19:30. montamos acampamento, o sol se pôs, jantamos e nos recolhemos muito cansados…

 

Dia 3: 29/02/2018

Apesar de acordar varias vezes durante a noite levantamos com os primeiros raios de sol, como não estávamos em uma posição muito boa não pudemos assistir o espetáculo, prometia ser um dia lindo então tomamos um cafe despreocupados, arrumamos nossas coisas com calma e começamos a descida sem acreditar que agora faltavam dois cumes. Não demoramos para atravessar o pequeno vale que separa o Ângelo do Leão e isso nos deixou mais animados mas ao ver a distancia até o Boa Vista sabíamos que ia ser mais uma longa caminhada descendo e subindo o vale, e assim foi, primeiro descendo pelas encostas, muitas vezes íngremes, do Leão até o fundo do vale para depois subir o Boa Vista praticamente numa pegada só por uma escadas de galhos, raízes, pedras e barro, tudo isso com as já companheiras inseparáveis taquaras, que a esta altura, pela falta de paciência para desenrosca-las, nos acompanhavam agarradas nas mochilas, no final uma “pedrinha” para subir com auxilio de uma corrente.

Chegamos ao cume perto do meio-dia, fizemos um lanche, ligamos para a família, tiramos algumas fotos e partimos terminar a missão. Pegamos a Freeway e descemos, e como descemos, as vezes pela trilha, as vezes pelo rio, muitas arvores caídas no caminho, a trilha esta bem marcada, mas as vezes as fitas e a trilha somem forçando a procurar a trilha, trilha encontrada e torna a descer, paramos acima da cachoeira dos Marumbinistas, e ali nos limpamos, almoçamos e descansamos para continuar o fim da descida, passamos a cachoeira já com a sensação de missão cumprida, apesar do caminho que ainda tínhamos pela frente.

Caminhamos até a estação do Marumbi onde fomos perguntados de onde estávamos vindo e se tínhamos cadastro, contamos uma história e ficou por isso mesmo, com os celulares sem sinal descemos até Eng. Lange para pegar a estrada até o posto do IAP, onde esperaríamos o resgate. Em Eng. Lange também não conseguimos sinal, sem  ter como avisar o resgate continuamos a descer a estrada temendo ter que descer até a ponte de ferro, chegamos no IAP e nada do sinal, paramos um pouco e como não tinha o que fazer continuamos a descer a estrada, conseguimos sinal quando passamos algumas chácaras e conseguimos avisar o irmão que estávamos na estrada e ele veio nos encontrar. após cumprimentos, entramos no carro, passamos em porto para uma cerveja e pegamos a Graciosa rumo a Curitiba, relembrando a trilha e planejando as próximas…

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