Grandes Travessias

0

Você já deve estar cansado de tanta travessia, pensando se não dá para escrever sobre agradáveis trilhas curtas. Sim, porém antes considere esses caminhos tão especiais- falo a seguir de quatro regiões, mas claro que existem muitas outras.

O Vale do Paty é um delírio mascarado de travessia. Fica dentro do PN da Chapada Diamantina, nosso parque com maior diversidade visual: amplas cavernas, campos rupestres, morros tabulares, rios encachoeirados e quedas d´agua deslumbrantes.   
 
O caminho sai da agitada e pitoresca Vila do Capão Grande e termina na cidadezinha de Andaraí, com duração de 4 dias e extensão de 70 km. O primeiro dia, com quase 30 km e o último, com mais de 20 km, concentrarão grande parte da caminhada. Mas você não precisará acampar, pois pode (na verdade, deve) pousar nas casas dos moradores. 
 
Soube que hoje em dia o trek costuma sair do Guiné e não mais do Capão. Neste caso, você terá de subir de uma só vez até os altos dos Gerais, através da rampa do Beco. Em compensação, andará bem menos, pois, vencido o Beco, estará bem mais perto do ponto onde mergulhará em direção ao vale lá em baixo.
 
Você atravessará os infinitos campos de altitude, aqui chamados de Gerais do Vieira, descerá vertiginosamente até o estreito vale, conhecerá a deslumbrante vista do alto do Morro do Castelo (1.500m), caminhará no interior do Paty até o Cachoeirão, subirá à noite pela parede que o confina e chegará cansado e feliz na sorveteria de Andaraí pela surpreendente e ensolarada Ladeira do Império, que foi calçada durante o garimpo. 
 
A história deste vale é interessante. Embora sem os cobiçados diamantes, o Paty era uma região produtiva nos tempos do garimpo, fornecia a alimentação básica para as vilas da região. Mesmo após o declínio da mineração, continuou habitado por causa das lavouras de café. Entretanto, o programa de erradicação do Instituto Brasileiro do Café levou o vale à ruína. Que eu saiba, há apenas cinco casas de moradores que acolhem os andarilhos e todos eles são hoje bem velhos, fico pensando se ainda estarão vivos.    
 
A Bocaina é uma corcova de 100 km por cima da Serra do Mar, entre as vilas paulistas de São José do Barreiro e Bananal. O antigo caminho da Trilha do Ouro foi usado para escoar o minério mineiro e o café paulista até o porto de Parati. Devido ao tráfego intenso, ela foi calçada com pedras, cujos remanescentes ainda podem ser encontrados – na realidade, este era um longo caminho de 1.200 km, a partir de Diamantina.
 
Por favor, não arrisque esta trilha no verão, os resultados serão provavelmente neblina, barro e cansaço, além de muitas picadas de insetos. É uma jornada longa de 50 km, a ser percorrida em três dias, desde São José do Barreiro no Vale do Paraíba até Mambucaba no litoral fluminense. Você sempre estará em contato com a abundante vegetação, seja nos campos ou nas encostas da Bocaina. Assim, não será um caminho de grande alcance visual. 
 
Se quiser, você pode conhecer o Morro do Tira Chapéu (2.000m), ponto culminante da Serra do Mar – se a Serra dos Órgãos for desconsiderada. A fácil trilha fica à direita antes da entrada do PN da Serra da Bocaina, mas irá acrescentar um dia a seu programa. Depois de visitá-lo, caminhe 18 km em trilha suave a partir da sede do Parque, para conhecer as Cachoeiras de Santo Izidro e das Posses e pousar na Fazenda Barreirinha. No dia seguinte, você visitará após 12 km a impressionante e perigosa queda de 200m da Cachoeira dos Veados, turbulento afluente do Mambucaba. Então, descerá no último dia pela calha sombreada do Rio Mambucaba por mais 18 km, até chegar à praia de mesmo nome. A natureza desta travessia me parece exuberante e acolhedora.
 
A terceira jornada percorre os Lençóis Maranhenses, uma enorme extensão de dunas, onde tudo é forte: a cor, o vento, a luz, o calor. As dunas são formadas a partir da força do vento, capaz de levantar e colidir os grãos de areia, formando cadeias de paredes. Dentro de seus arcos surgem as lagoas durante as chuvas, que suavizam e estabilizam as dunas. Você não imagina o delicado ajuste entre as forças da natureza necessário para a criação de tanta beleza – os matemáticos criaram até equações para explicá-lo.
 
Mas nem tudo é duna, pois nas regiões interiores aparecem os chamados oásis, manchas verdes de vegetação lenhosa, onde até hoje vivem antigas comunidades, que podem lhe oferecer pouso. Existem duas: Queimada dos Britos e Baixa Grande. Duas também são as cidades que lhe servirão de apoio, Barreirinhas e Santo Amaro, cada qual num extremo da região.   
 
Há inúmeras travessias possíveis nos Lençóis, variando talvez de 12 km até 95 km. A mais clássica delas parte de Santo Amaro, passa por cada um dos dois oásis (que distam 12 km entre si) e termina no Canto do Atins. Ela cruza o PN de oeste a leste e pode ser invertida. Prepare-se para acordar no escuro, caminhar descalço por longas horas, dosar seu ritmo nas águas das lagoas e percorrer duros 60 km em três dias de alienação, neste sonho pintado de branco, verde e azul.
 
Existem alternativas mais curtas, por exemplo os 12 km entre a foz do Rio Negro, único que atravessa os Lençóis, e um dos oásis. E entre a Lagoa Bonita ou a Lagoa Azul e o oásis de Baixa Grande, serão 20 km de ida. Mas o mais longo é o percurso desde Santo Amaro até a Lagoa Esperança no sul e, de lá, até o Canto do Atins, passando pelos dois oásis, o que irá lhe tomar 3 a 4 dias para percorrer 90+ km. Na realidade, você pode desenhar o seu percurso, variando o tamanho, as lagoas e a vegetação.
 
Por fim, gostaria de mencionar brevemente a Serra do Cipó, uma região de suaves campos de altitude em Minas Gerais, um pouco ao norte de Belo Horizonte, onde você pode se perder por dias, a partir de vilas como Lapinha, Santana do Riacho, Tabuleiro ou Santa Cruz dos Alves. Você conhecerá as belas cachoeiras do Soberbo, Grande e Tabuleiro, e partirá ou chegará a rios discretos de águas rápidas como o Rio das Pedras, o Ribeirão Congonhas e o Parauninha. Serão travessias de 30 a 65 km, acampando durante 2 a 4 dias. E, na entrada do Cipó, não deixe de visitar o formidável Cânion das Jabuticatubas. Fui várias vezes ao Cipó, sempre cercado de boa amizade e bom clima – a melhor delas aconteceu quando lá ficamos do Natal ao Ano Novo, sem sequer um dia de chuva – quem sabe então o El Niño ainda não existisse.        
  
 
Compartilhar

Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

Comments are closed.