Histórias de uma Mina

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Se você recuar algumas colunas, encontrará menção à Pedra da Mina, quando falei sobre a Travessia da Serra Fina, da qual ela é uma de suas montanhas centrais, além de seu ponto culminante.

A Pedra da Mina foi conquistada no inverno de 1955 por um grupo de alemães chefiados por Henning Bobrik. Com aquelas rústicas cordas e botas de antigamente, ele subiu pela face norte, certamente o melhor caminho. Foi por lá que eu a conheci pela primeira vez. 
 
Até hoje me lembro do impacto meio religioso de subir por seu dorso encontrando os totens de pedra, que pareciam me sinalizar um remoto templo oriental. Fica ao seu lado o precioso Vale do Ruah: seu nome, que significa vento, teria sido cunhado por um Padre, certamente um bravo andarilho da fé. 
 
Quando, tempos depois, atravessei a Serra Fina, nosso grupo chegou no cume dia 6 de julho, um dia depois da primeira ascensão, quase meio século antes. Lá encontramos a tampa de uma panela da primeira conquista. Gravada nela vimos entre outros o nome de Felix Hacker, membro daquela expedição, que voltou à montanha muito tempo depois, em 1992, por certo já idoso.
 
Mas no local desta tampa está também o livro onde os montanhistas deixam seus comentários. E aqui começa uma história curiosa. 
 
Foi afinal desfeita uma antiga suspeita de que a Mina seria mais elevada que o Agulhas. Devem-se a um aluno de Geografia chamado Lorenzo Biagini as medições por GPS geodésicos das duas montanhas. Como resultado, o Agulhas Negras, que se acreditava 17m mais elevado, terminou 8m mais baixo!
 
Na verdade, terminou também 2m mais alto, pois passou a medir 2.789m. Foi uma espécie de prêmio de consolação, ao ter a nobre montanha de conformar-se com os 2.797m da Pedra da Mina. Hoje ela é o ponto culminante da Mantiqueira e a quarta maior montanha nacional. E, como a altitude costuma trazer prestígio, está sendo agora considerada também a maior formação em rocha alcalina da América. 
 
Mas a história de Lorenzo é interessante: ele conheceu a Serra Fina em 1993 e passou a frequentá-la assiduamente, em especial depois que lá passou sozinho duas semanas (periodicamente, seus amigos lhe traziam comida). Lorenzo diz que a região tem mais de uma dúzia picos acima de 2.600m. Desconfiado sobre a altitude oficial do mais alto deles, passou a cogitar num projeto de medição que resolvesse a questão. 
 
Lorenzo deixou registrada sua intenção num bilhete, junto com o livro do cume da Mina. Em 1999, dois produtores de vídeo interessados em montanhismo leram seu recado lá no cume. Eles haviam terminado de produzir o conhecido documentário Terra de Gigantes sobre a Pedra do Sino na Serra dos Órgãos. Nunca conheci Lorenzo, mas pelo menos encontrei um dos produtores, com quem conversei sobre esta história.  
 
Lorenzo conseguiu afinal terminar seu projeto, usando três GPS, um deles no local e outros dois na USP e em Viçosa. Porém, que eu saiba, o vídeo que pretendiam fazer contando todas essas histórias nunca saiu. Foi uma pena, pois provavelmente traria as fotos históricas da primeira e memorável conquista desta Mina tão especial.
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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