Illimani

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Muito tempo atrás, escrevi sobre o Cerro Condoriri na Cordilheira Real no centro da Bolívia e sobre a Cordilheira de Apolobamba no sul. Embora o Sajama seja seu ponto culminante, é o Illimani a montanha mais conhecida do país. E por boas razões, como você saberá neste artigo.

O aspecto desta montanha é espetacular, com sua altura espantosa e seu enorme corpo nevado. Ele como que deprime todo o resto da Cordilheira e parece vigiar os horizontes de La Paz. Possui um lindo perfil, com três cumes nítidos, o Norte, o Central e o Sul, dos quais o último é o mais elevado.
O maciço do Illimani foi conquistado pela primeira vez em 1877 por Charles Wiener, numa dramática ascensão de nove dias. O Pico Sul foi atingido doze anos depois por Martin Conway, um dos grandes andinistas do seu tempo. Esta foi uma época romântica, em que os escaladores eram aristocratas, reuniam-se em clubes decorados com painéis de madeira e morriam de velhice. Conway foi também crítico de arte e viveu mais de 80 anos.
É por sinal entre o fim do século retrasado e o início do passado que os maiores cumes dos Andes foram conquistados: primeiro o Illimani, seguido pelo Chimborazo no Equador, o Huscarán no Peru e o Aconcágua na Argentina. E isso vale para muitos outros lugares, da Europa à Ásia e à África.
Existem várias vias no Illimani, cerca de dez, nas suas faces oeste, sul e norte. A maior parte delas fica nos glaciares da face oeste, protegida da umidade amazônica e de mais fácil acesso. A pirâmide sul é uma escalada difícil e as vias ao norte apresentam inconvenientes subidas mistas em gelo e rocha.
A Via Normal naturalmente sobe pela face oeste. Seu campo-base chama-se Puente Roto, a 80 km de La Paz. O trajeto até lá é impressionante, percorre vales desérticos, desfiladeiros vertiginosos e férteis encostas, com vistas distantes das serras ocres.
Você passará por povoados perdidos no espaço, habitados por campesinos imemoriais. Avistará belos campos, suas plantações parecendo hortas caprichosas, com mosaicos verdes em contraste com a aridez das escarpas. E contemplará os serenos picos nevados, cuja estranha brancura vai lhe parecer imaterial e intangível.
Que eu saiba, há três maneiras de se caminhar até o campo-base, pelas localidades de Unna, Cohoni e Bolsa Negra. Unna é preferida, por ser mais curta e acessível, mas Cohoni pode permitir melhor aclimatação – mais baixa e gradual. O terceiro trajeto é uma antiga estrada de mineração, que pode deixá-lo diretamente perto de Puente Roto, você pode escolhê-la se já estiver aclimatado.
São caminhadas de aproximação fáceis e, após chegar, convém dedicar algum tempo para aclimatar-se em Puente Roto (4.400m). O local é deslumbrante: uma grande bacia plana, circundada de montanhas, povoada com animais de pastoreio e atravessada pelas águas velozes do rio.
À direita da montanha, no rumo do Pico Sul, você perceberá o inconfundível traço da trilha que atravessa a moraina. A ascensão irá se tornando mais penosa, até que 4-5 hs após a partida você chegará a Nido de Condores, a 5.500m. Para quem pretende subir em dois dias, é deste acampamento que você deverá partir para o cume no dia seguinte .
É aqui o limite entre rocha e gelo, onde começa o glaciar e, portanto, o uso do equipamento de neve. De agora em diante, convém caminhar encordado, em grupos de dois ou três. Como já foi dito por Jean Pierre von der Weid, as cordas atando-nos ao parceiro podem ser a salvação de um ou o fim dos dois, dependendo se quem cai e não consegue parar é o da frente ou o de trás.
Nesta altura, a vista é naturalmente muito bonita. Já desde o primeiro acampamento, a porção mais baixa de La Paz será visível, em especial à noite. O enorme altiplano, o risco prateado do Lago Titicaca, o perfil isolado do Sajama e as cristas agitadas da Cordilheira irão se tornando mais nítidos.
O ataque deve ser iniciado de madrugada, para evitar o vento e as nuvens da tarde. Você subirá pelo glaciar à direita, passará por um incômodo trecho de cristas de gelo e chegará 1½ hs depois ao platô do Campo Alto ou Campo Chileno (cerca de 5.850 m). Com mais 2½-3 hs, encontrará duas gretas e uma pequena parede de gelo, eventualmente com alguma escada de metal. Seus esforços serão dificultados pela altitude, agora você estará a quase 6.200 m.
Talvez 2-2½ hs depois, por volta do meio-dia se você saiu bem cedo, poderá descortinar do isolamento do cume o movimentado mar de picos da Cordilheira, em contraste com a placidez do altiplano e do deserto, sobre o qual você sempre verá o desenho desafiador do Sajama. O frio intenso (pode chegar a 20° ou 25° negativos) e o cansaço farão com que você acabe não ficando muito tempo.
Você pode pousar de volta em Nido, se a descida da moraina abaixo estiver perigosa com neve. Entretanto, a Via Normal não é sujeita a avalanches, o que não é o caso das recortadas paredes abaixo do Pico Central. Quando você pousou em Nido, possivelmente pôde ouvir o rugido das avalanches nas encostas centrais.
No dia seguinte ao ataque, você chegará à tarde em Puente Roto, onde voltará a encontrar o verde e o calor. Um dia mais e você descerá provavelmente até Unna, de onde chegará a La Paz, já com saudades da montanha.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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