Serra do Marumbi
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Tangendo o Intangível
Texto e fotos por Rafael R. Völtz Publicado em 13 de setembro de 2009
Vida de estudante tem suas vantagens e desvantagens. Dentre as vantagens é termos, por vezes, um tempo para desfrutarmos as coisas boas da vida. Porém, a desvantagem é não termos grana para fazer essas coisas. Mas alguns, poucos infelizmente, têm a felicidade de estudarem e, ainda por cima, serem contemplados com uma bolsa de estudo. Este é o caso do meu companheiro dessa história Marcelo. Marcelo faz mestrado em Botânica na UFPR para estudar uma família de árvores muito conhecida no nosso dia-a-dia, as Lauráceas ou família das Canelas e Imbuias. Pois bem, foi esse estudo que permitiu que tocássemos o intangível, galgássemos o páramo interdito.
Após um mês de julho chuvoso e frio no qual uma frente fria seguida de outra nos tolhia o brilho do sol, inicia-se o mês de agosto com um tempo limpo e ensolarado digno do inverno curitibano. Ao longe assomavam num verde brilhante os fastígios da Serra do Mar, provocando aos marumbinistas uma inquietação doentia por neles não estarem caminhando. Tomado por este sentimento procuro Marcelo para aproveitarmos este lapso de tempo bom e caminharmos pela região serrana. Discutindo sobre para onde iríamos surge a exclamação “... preciso fazer umas coletas lá no Boa Vista.” Qual não foi a minha surpresa ao ouvir esse nome “Boa Vista”.
O Boa Vista é um dos muitos cumes da Serra do Marumbi. Foi nesse local que Carmeliano e sua turma pernoitaram na noite de 20 de agosto de 1879 antes da tomada do Pico do Marumby (atual Olimpo), até então considerado o mais alto do Paraná. Hoje sua visita é proibida pelo plano de manejo do Parque Estadual do Marumbi. Fica dentro da área conhecida com intangível – que não se pode tanger, tocar, pegar e, principalmente, pisar. Apenas é possível observa-lo e nada mais.
No entanto, com uma autorização em mãos do órgão competente pela administração do parque, eu e Marcelo nos dirigimos numa manhã cinzenta e melancólica para a rodoviária onde pegaríamos o primeiro ônibus em direção a Porto de Cima. Apesar da tristeza que nos acomete estes dias, estávamos felizes e ansiosos por esta empreitada. Um desejo que há anos rondavam nossas mentes altaneiras. Já em Porto de Cima vestimos nossas mochilas e partimos em direção à Estação Marumbi, numa marcha lenta, porém agradabilíssima sob o frescor das frondes das árvores. Ao lado corria impetuoso o rio Nhundiaquara por entre blocos e seixos de pedras das mais variadas matizes. Uma doce manhã pé-de-serra que nos acompanhou até o meio dia, quando alcançamos a sede do parque.
Após feitas as devidas formalidades cadastrais rumamos finalmente ao objetivo almejado por anos. Iniciamos a subida pelo vale do rio Taquaral. Por uma clareira aberta pela queda de uma árvore no meio da floresta pudemos avistar lá no alto o imponente Olimpo com suas grandes paredes avermelhadas a pique, nos indicando que o caminho estava apenas começado (Figura 1 ). Caminhando por entre gigantescas massas verdes que se erguiam eretas em direção ao sol conversávamos alegremente sobre trabalho, estudos, política ambiental e causos marumbinistas. Aqui e ali despontava o palmito (Euterpe edulis), firme protagonista da resistência ambiental. Canelas, cedros, queima-casa, ipês, guamirins, guarapuvus e outras centenas de espécies arbóreas nos acompanhavam em nossa marcha. Delicadas orquídeas pendiam sobre os troncos das árvores e bromélias coloridas enchiam nossos olhos, enquanto éramos observados pelo elegante xaxim de ornamental fronde. Abaixo marulhava o rio Taquaral.
Mas nosso regozijo esvaecia a medida que o cansaço nos tolhia as forças. Cada passo tornava-se uma lamúria, o silêncio acometia nossos pensamentos. Nenhuma risada, nenhum gracejo. Parecíamos dois moribundos a nos arrastar serra acima na ânsia de vislumbrar os campos montanos que indicariam o fim da caminhada. A cada quebrada uma nova esperança se acendia em nossas mentes, que eram logo apagadas pela certeza da floresta continua. Seguíamos cambando por entre pilhas de blocos graníticos cobertos por uma infinidade de formas vegetais. Aqui as arvoretas lançam seus tentáculos radiculares por entre as pedras e fendas, na luta contra a gravidade que insiste em derrubá-las. Um tapete de detritos vegetais forma-se sobre as raízes, escondendo profundas grutas escuras. Os troncos são tortuosos no sentido do aclive como forma de lutar pela luz do sol e ao mesmo tempo permanecerem agarrados ao débil substrato. Envolvendo os troncos densas pelugens de liquens e no alto dos ramos a singela Sophronites coccinea (Figura 2 ) de flores escarlates destaca-se no verdugo da floresta.
Mas a luz no fim do túnel se acendeu. À medida que caminhávamos as árvores foram se tornando cada vez menores e as taquaras agora mais numerosas nos impediam de prosseguir, engatando nas mochilas, braços e pernas. Isso nos causava bastante estorvo, mas ao mesmo tempo indicavam que o cume estava próximo. E de repente, o firmamento azul celeste se abriu sobre nossas cabeças, os panoramas expandiram-se e a flora mudou. De florestas baixas enrediças por taquaras agora caminhávamos por campos naturais altimontanos. Extasiados pela paisagem que se descortinava e exaustos pela fadiga tombamos sobre a relva. Não falávamos nada, apenas observávamos a infinita beleza do lugar.
Do alto do Boa Vista se descortina um vasto panorama. A grande muralha marítima, a Serra do Mar, forma deste ponto de vista um enorme arco voltado para o litoral. Ao longe, para o Norte formando os limites com São Paulo, um mar de serras azuladas rompiam o horizonte, donde sobressai isolado o Pico da Virgem Maria. Antes, porém, dominando as eminências paranaenses erguem-se os blocos isolados da serra do Ibitiraquire, precedidos pelas escarpadas encostas da serra da Graciosa (Figura 3 ). Na direção de onde sopram os gélidos ventos minuanos ascendem as corcovas florestadas da serra do Leão, ponto culminante da serra do Marumbi (Figura 4 ). Uma muralha de serras encarcera o grande arco, separando as baias de Guaratuba e Paranaguá. E por falar na baia de Paranaguá, esta se estende continente adentro formando um grande espelho d’água onde resplandece a tênue luz do luar. E ao centro deste quadro erguido a riste como sentinela vigilante, o garboso Olimpo, a morada dos deuses da mitologia grega, observa austero o planalto e o litoral (Figura 5 ).
O dia veste-se de trevas e traz consigo uma infinidade de pontos brilhantes que cobrem o céu. No alto sobre o horizonte, brilhava áurea a lua cheia. E abaixo, distante para Oeste outros tantos pontos luminosos tremeluziam delineando a Região Metropolitana de Curitiba, a selva de pedra, a babel onde vivem cerca de 3,4 milhões de vivas almas. Fatigados pela extenuante caminhada dormimos tranquilamente, com nosso espírito marumbinista exultante por conquistarmos não apenas mais um cume, mas por alçarmo-nos naquele que tanto encantou os conquistadores e que hoje sobrevive apenas na memória daqueles que um dia lá estiveram.
Permanecemos dois dias na região do Boa Vista fazendo as coletas que o Marcelo necessitava, pudemos vislumbrar a aurora, o poente, a lua erguendo-se sobre o horizonte. Apreciamos um mar de nuvens, antes que estas subissem e turvassem nossos horizontes. Num lampejo, o Olimpo nos agraciou com toda sua imponência pela última vez até que desaparecesse por completo envolto em névoa (Figura 6).
Definitivamente vida de estudante tem suas vantagens. Podemos ganhar mal – alguns além de não ganhar tem que pagar – mas nos permite por meio da pesquisa científica conhecer lugares, pessoas, vivências e, porque não, galgarmos o páramo interdito.

Figura 6. Olimpo visto do Boa vista.
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