John Krakauer: Quando a montanha se torna Best seller

0

Quem nunca leu ou ouviu falar do livro No Ar Rarefeito? O livro de montanha mais conhecido no mundo quando o assunto se trata de tragédias no Everest. Se você já passou raiva lendo sobre a disputa de ego dos guias de montanha Scott Fischer e Rob Hall, com certeza vai lembrar-se de John Krakauer.


John Krakauer nasceu em Brookline, Massachusetts em 12 de Abril, 1954.
Mudou-se para Corvallis, Oregon aos dois anos. Antes de pensar em ser
escritor, John foi jogador tênis e chegou a competir pela Corvallis
High School por alguns anos, mas passava maior parte dos seus momentos
livres nas montanhas do seu estado. Mais tarde, graduou-se em Estudos
Ambientais em 1976 no Hampshire College, em Massachusetts.

A vida de John foi meio conturbada e cheia de mudanças radicais. Um ano
depois de se graduar, em 1977, conheceu a jovem, Linda Mariam Moore,
com quem se casou em 1980. Nos anos que se seguem, a paixão pelo
montanhismo toma conta de John, e em 1983 ele abandona o trabalho de
carpinteiro e pescador de salmão para tornar-se escritor, ou melhor,
escritor de esportes de montanha para ser mais objetivo. Logo depois de
largar seu emprego, John se joga no mundo do montanhismo e tenta se
auto-promover escalando algumas montanhas consideradas difíceis. Em seu
livro Sobre Homens e Montanhas ele relata com emoção e maestria, logo
no primeiro capitulo, a sua investida frustrada na face norte do Eiger,
uma das quatro paredes verticais mais difíceis da Europa ocidental. E
também narra sua perigosa aventura na escalada do Polegar do Diabo
(Devils Thumb, 1977), quando ainda era um garoto de pouco mais de vinte
anos.

Depois de algumas tentativas frustradas de ganhar a vida com o
montanhismo, John pensou em desistir e retomar sua vida como
carpinteiro, movido pela falta de dinheiro. Mesmo retomando em parte
sua vida anterior, não deixou de escalar e passou a escrever sobre suas
aventuras, como sua empreitada de 1992, quando escalou a face ocidental
do Cerro Torre na Patagônia.

Com artigos bem elaborados e textos claros ele chamou a atenção da
comunidade de montanha. John era grande admirador de Truman Capote de
quem recebeu forte influência no estilo jornalístico, logo deixou claro
sua espontaneidade em suas narrativas. John foi vencedor do prêmio do
Clube Alpino Americano de literatura sobre montanhismo, e chegou a ser
finalista no Nacional Magazine Award. Mas John só consegue ganhar o
mundo quando começou a escrever para a revista Outside, da qual também
é editor. Hoje John escreve para importantes revistas entre elas a
National Geographic e a GEO. Escreve também para as publicações da
Playboy, Rolling Stone, Architectural Digest e Smithsonian. Em 1999
recebeu da American Academy Of Arts And Letters, o prêmio pelo conjunto
de sua obra jornalística.

John alcançou seu maior sucesso em maio de 1996 no Everest, não por teu
feito seu cume, mas por ter sobrevivido a uma das piores temporadas da
montanha tibetana. O ano de 1996 marcou a mais trágica temporada de
escaladas do Monte Everest. Doze pessoas de diferentes expedições
pereceram na tentativa de escalar os 8.848 mts da montanha mais alta do
mundo. No início de 1996, Krakauer foi contratado pela revista Outside
para fazer uma matéria sobre a crescente comercialização do Everest. Em
março ele se juntou à expedição do neozelandês Rob Hall, o guia de alta
montanha mais conceituado do mundo, para tentar alcançar com mais
outros sete clientes, que pagaram em média 65 mil dólares pela aventura
o cume do Everest. Hall subira quatro vezes até o pico entre 1990 e
1995, guiando vários clientes. Em 1996 havia nada menos que outras 15
expedições (de solistas a grandes grupos) com o objetivo de chegar lá.
Entre elas estava a de Scott Fischer, um americano de força e
determinação lendárias que escalara o Everest sem oxigênio suplementar
em 1994. Ao mesmo tempo companheiros e competidores, Hall e Fischer
atacaram o cume no mesmo dia 10 de maio e suas equipes acabaram por se
misturar.

Não se sabe bem por que, Hall e Fischer não foram rigorosos com o
horário em que todos deveriam dar meia-volta e começar a descer a
montanha, antes do anoitecer. Foram pegos por uma terrível tempestade a
8000 mts de altitude. No final da temporada, sete pessoas das duas
equipes estavam mortas, inclusive os dois guias. Escalar os 8848 mts da
montanha mais alta do mundo é uma tarefa duríssima: acima dos oito mil
metros o corpo humano quase pára de funcionar. É necessário oxigênio
suplementar para suportar o ar rarefeito; mesmo assim, a falta de ar
pode gerar alucinações, o cérebro e os pulmões podem entrar em colapso
de uma hora para outra e o rosto, as mãos e os pés facilmente se
congelam e necrosam. Neste relato emocionado, Krakauer reconstitui os
fatos da maneira mais precisa possível e faz uma reflexão sobre o
fascínio que uma aventura de tantos riscos exerce sobre as pessoas e o
poder por vezes terrível que os sonhos podem ter sobre nós.

Uma análise do acidente foi o que ele escreveu para a revista. A
matéria que ele deveria escrever para a Outside foi entregue cinco
semanas depois da tragédia, mas “com 17 mil palavras, quatro ou cinco
vezes maior que uma matéria convencional de revista, fora abreviado
demais para fazer justiça à tragédia”. É o que diz o autor na
introdução do livro No ar rarefeito.

Por essa reportagem, John recebeu o prêmio National Magazine. Tão logo
escreveu seu relato em livro com o titulo “No ar rarefeito;” o mesmo se
tornou bestseller em todo mundo. O New York Times o elegeu como melhor
livro do Ano. John teve seu livro traduzido para 24 idiomas e também
foi homenageado como o “Livro do Ano” pela revista “Time”. O livro foi
um dos finalistas em 1997 no National Book Critics Circle Award e um
dos três finalistas 1998 para o Prémio Pulitzer de não-ficção.

Antes do livro ser publicado, a reportagem de John para a Outside não
trouxe só prêmios. Em seu livro, ele admite que o material não foi tão
preciso quanto deveria ser porque, entre outros motivos, altitudes
elevadas causam hipoxia cerebral, provocada pela escassez de oxigênio,
que causa confusão mental, desorientação e falta de coordenação motora.
Um dos montanhistas da expedição chega a afirmar em depoimento que, em
certo ponto, até amarrar os cadarços das botas era uma tarefa muito
complicada. A maioria dos erros publicados por Krakauer era de pouca
importância, como horários ou o tempo gasto em determinada tarefa.

No entanto, o autor escreveu que um dos guias da expedição, Andy
Harris, morreu pouco antes de chegar ao acampamento mais próximo do
cume ao cair de uma geleira, em meio à escuridão da tempestade que
atingia o Everest naqueles 10 de maio de 1996. Duas semanas depois de a
revista ir às bancas, Krakauer, que tinha se tornado amigo do guia
durante a expedição, descobriu que não fora Harris a vítima, mas um
integrante de outra equipe. A revista recebeu uma quantidade imensa de
correspondência relacionada ao artigo, boa parte criticando Krakauer,
pedindo mais explicações. A Outside publicou uma correção de autoria do
próprio Krakauer, pedindo desculpas pelo engano sobre a morte de
Harris. 

Somadas ao trauma, a polêmica em torno de sua narrativa da aventura e a
vontade de obter um relato mais preciso do que aconteceu levaram o
autor a escrever o livro. Se o título indica um relato dramático sobre
as mortes dos alpinistas em 1996, o conteúdo surpreende pela visão
crítica e abrangente do histórico da comercialização das expedições ao
Everest e das condições em que elas são realizadas. Para escalar a
montanha com um serviço guiado de boa qualidade, um montanhista chega a
desembolsar 65 mil dólares, quantia que reduz o perfil dos aventureiros
a milionários que adotam a escalada como hobby e nem sempre têm o
preparo necessário para uma subida exigente como a do Everest. Com
preços assim, as escaladas guiadas também se limitam a duas ou três
empresas que competem constantemente por clientes e publicidade.

A obstinação dos guias em levar todos os integrantes de suas expedições
ao cume é apontada pelo autor como uma das explicações plausíveis da
tragédia. Rob Hall, guia da equipe de John era dono da mais respeitada
empresa de escaladas comerciais ao Everest, a Adventure Consultants,
seguida de perto na preferência dos montanhistas por Scott Fischer,
dono da Mountain Madness. Para Krakauer, só essa febre de competição
comercial, mesmo que amigável, pode explicar a razão pela qual Hall foi
até o cume com um cliente cerca de duas horas depois do horário-limite
estipulado, ao ver todo grupo de Fischer finalizar a escalada com
sucesso, e também com atraso. Nem mesmo as nuvens que se formavam logo
abaixo do cume do Everest, alarme seríssimo que obriga qualquer
montanhista experiente a retornar mesmo a poucos metros do topo,
fizeram com que Hall e Fischer desistissem da escalada. Ambos morreram
durante descida, pegos por uma tempestade que teve início assim que
John Krakauer e alguns outros já voltavam ao acampamento quatro, o
último da escalada, a 7.600 mts de altitude. John questiona seu próprio
papel na jornada. Como jornalista, comenta que, à medida que se
integrava ao grupo, sentia-se cada vez mais desconfortável em relação
aos clientes. Fora enviado para escrever sobre como eram as expedições
guiadas, e escrevia com naturalidade sobre os donos das empresas de
expedições, já que os mesmos vinham buscando agressivamente publicidade
para seus produtos. No entanto, sentia certo desconforto ao escrever
sobre os turistas: “Quando se alistaram nas expedições, nenhum deles
sabia que haveria um repórter na equipe, rabiscando o tempo todo,
registrando em silêncio todas as suas palavras e feitos com o objetivo
de partilhar suas fraquezas com um público potencialmente desprovido de
qualquer simpatia por eles”.

Ao final da expedição, John confirmou que o desconforto era recíproco:
ele ouviu a entrevista de um ex-companheiro à rede de televisão
americana ABC, dizendo que a presença de um repórter aumentou o
estresse do grupo, pois qualquer erro seria descrito para milhões de
pessoas, empurrando os montanhistas para ir mais longe do que deveriam
ou poderiam. Essa fonte, Beck Weathers, afirmou ainda que a presença da
imprensa colocou ainda mais pressão sobre Rob Hall. No início da
escalada, Hall contou a John que havia cobrado da revista Outside cerca
de um sexto do valor normal da viagem; o restante seria pago com
anúncios na revista.

Mas é exatamente no fato de se expor que está o mérito de John. Ele
confessa que, ao chegar ao topo, estava tão exausto e debilitado que
nem conseguia dar conta de que realizava um sonho antigo. Assume que
estava preocupado demais com seu cilindro de oxigênio para perceber que
Andy Harris não estava nada bem, ao encontrá-lo na descida. Afirma que
alguns dos guias foram extremamente irresponsáveis por não ficarem
constantemente com os clientes, ou por não utilizarem oxigênio
complementar na escalada. Mas John se priva de conclusões mais duras
sobre a tragédia. Para ele, a aventura oferece desculpas suficientes
para os acontecimentos de maio de 1996: “Escalar o Everest é um ato
intrinsecamente irracional – um triunfo do desejo sobre a sensatez”.

Todo esse circo montado pela mídia e as contradições dos fatos deixaram
um grande escalador de cabelos brancos, Anatoli Boukreev que acompanhou
tudo de perto desmente alguns fatos narrados no livro de John. Ele foi
um dos responsáveis pelo resgate de algumas das vitimas e também foi um
dos organizadores da expedição. Em seu livro Anatoli fala da
incapacidade dos membros da expedição para estar acima dos 8000 mts. No
livro “A escalada” o montanhista russo/cazaque Anatoli Boukreev,
defende-se das acusações de não ter ajudado como deveria clientes que
pagaram U$ 65 mil para subir ao teto do mundo o Everest, na tragédia de
1996. É um contraponto ao livro No Ar Rarefeito. Outra versão, que se
não diminui a tragédia, exibe uma dos mais ousados resgates na
montanha. A escalada de Anatoli e considerado por muitos a verdadeira
história da tragédia no Everest. (Anatoli Boukreev e G. Weston de Walt,
Editora 34, 2000).

Passando a fase Everest, John Krakauer logo seguiria sua vida como
escritor Outdoor mais lido em todo mundo, nos anos seguintes ele deu
novos frutos e continuou sua maratona de bons livros e artigos. Em
1999, lançou a coletânea de artigos que tenta desvendar as razões que
levam homens e mulheres a se lançarem em busca da aventura e do
desconhecido, sem medo da morte “Sobre Homens e Montanhas” (Companhia
das Letras).  Em 2003 John escreve sobre a Igreja Mórmon no livro “Pela
Bandeira Do Paraíso” (Companhia das Letras). Neste trabalho Krakauer
relatou minuciosamente um episódio policial que gerou muita polemica
nos EUA, em 1984. Membros de uma seita fundamentalista que se separou
da Igreja Mórmon ou “Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias”, os
irmãos Dan e Ron Laffety assassinaram a facadas sua cunhada e a filha
de 15 meses desta, dizendo terem recebido ordens diretas de Deus. Mais
do que um relato sensacionalista o livro é um alerta aos perigos do
fanatismo religioso.

Em 1998 dois anos depois do acidente do Everest, John escreveu a
historia de Christopher McCandles ou Alexander Supertramp. Na Natureza
Selvagem (Into the wild – Companhia das Letras). Krakauer pesquisou
obsessivamente a vida e a morte prematura do jovem Christopher
McCandles, que abandona tudo e parte em uma aventura sem volta. Com o
pseudônimo de “Alexander Supertramp”, começa sua viagem no Oeste dos
E.U.A. e é encontrado morto no Alaska. O artigo para a revista Outside
depois se transformou em livro. Além da pesquisa, Krakauer refez todo o
trajeto da aventura do jovem pelo país e entrevistou todas as pessoas
envolvidas na história. Krakauer analisou todos os detalhes que levaram
este jovem de classe média americana a embarcar nesta aventura
solitária.

O Livro foi vendido para vários países entre eles Itália, França,
Holanda, Dinamarca e Brasil. O livro permaneceu na lista dos mais
vendidos, do New York times por dois anos. Recentemente “Into the
Wild”, foi adaptado para o cinema pelo Diretor Sean Pean e lançado em
2007, tento Emile Hirsch interpretando Christopher McCandles. Um ótimo
filme que não deixa nada a desejar do livro. O filme foi vencedor de
vários prêmios de cinema, Um Globo de Ouro e duas indicações ao Oscar.
Ator coadjuvante para, Hal Hoobook e Melhor Montagem. Indicado também a
dois Festivais de Cinema por melhor canção e várias outras listas
americanas.

John Krakauer nunca foi um grande escalador, e não pode ser considerado
um Masters of Stone. Ele está longe de ser louco como Dean Potter e ser
uma lenda do montanhismo como Reinhold Messner. John é mais um caso
raro de amor pelo esporte, perseverança e jornalismo investigativo
feito com seriedade. Seus relatos motivam novas e antigas gerações a se
lançarem no desconhecido da natureza selvagem.
Meu primeiro livro de montanha não foi nenhum dos escritos por ele, mas
sim pelo lendário Lionel Terray (Que para muitos no Rio de Janeiro é só
nome de via), Os Conquistadores do Inútil Volume 1º e 2 º. Não tínhamos
muitos livros relacionados ao assunto, e os textos de Lionel Terray
eram ótimos, mas estavam longe do nosso tempo. Quando li pela primeira
vez Sobre Homens e Montanhas, pude ver melhor como o mundo lá fora
olhava para o montanhismo.

Ele pode não ter sido meu primeiro contato com a literatura direcionada
ao montanhismo, mas posso afirmar que influenciou bastante quando
iniciei minhas caminhadas pelas montanhas. Masters of Stone ou não, taí
um sujeito que vou aplaudir de pé.

Força sempre e boas escaladas.

Atila Barros

Compartilhar

Sobre o autor

Atila Barros - Colunista

Atila Barros nasceu no Rio de Janeiro, e vive em Minas Gerais, cidade que adotou como sua casa. Escalador (Montanhista) há 12 anos, é apaixonado pelo esporte outdoor. Ele mantem o portal Rocha e Gelo (www.montanha.bio.br)

Comments are closed.