Justiça Social

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Vista da Cordilheira Real, Bolívia (Foto: Divulgação)

Sabemos que o Brasil está longe de ser um país justo, lamentavelmente debruçado entre violência, pobreza e ignorância.

Muitas vezes me surpreendi com a opinião benevolente que europeus e americanos têm da nossa realidade. Parecem ignorar a indiferença, a preguiça e a impunidade com que somos manipulados por governos corruptos e incapazes.

Mas, tendo viajado por outas regiões pobres em três continentes, acabei acho eu entendendo este relativismo moral dos cidadãos chamados (e até com razão) de desenvolvidos.

Lhamas no Altiplano, Bolívia (Foto Divulgação)

Queria contar a você uma história a respeito. Ela se passa na Bolívia, para mim o mais radical dos países andinos e, por esta razão, o meu preferido.

Era inverno, minha esposa e eu tínhamos caminhado acho que por mais de uma semana pelo altiplano andino, uma magnífica extensão plana, mais habitada por animais do que por pessoas.

Os dias eram frios e claros, a luz e o vento eram incessantes, o planalto tinha uma eterna coloração ocre e as montanhas eram distantes massas ameaçadoras, cujos colos às vezes cruzávamos em belas travessias.

Neste mundo parado, fazíamos longas jornadas a pé e acampávamos com apoio de um guia e um cozinheiro. Antes que você me ache preguiçoso, explico que cozinhar é para mim uma abominação: detesto o manuseio atrapalhado de panelas e fogareiros e, mais ainda, o que resulta deste exercício quando sou eu quem o pratica.

Então, chegamos um dia ao ponto terminal e de lá voltamos a La Paz. Achei que devia agradecer a nossos ajudantes, convidando-os para um jantar. Conhecia um bom restaurante, lá sempre havíamos sido bem servidos e atendidos, ficava num bairro convenientemente próximo ao centro.

Na hora combinada, lá estavam os dois, sentados na entrada de forma rígida, incômoda. Logo entendemos a razão: estavam sendo hostilizados pela atitude desdenhosa do maître. Entendi que gente humilde como eles, camponeses de origem quécua ou aymará, não deveria ter direito àquele ambiente sofisticado.

Campos Andinos, Bolívia

O comportamento do maître naturalmente se amenizou quando de nossa chegada. Mas esta conduta tão preconceituosa dificilmente seria encontrada no Brasil – ainda mais numa cidade grande como aquela.

Ao escolher seu prato, um dos rapazes pediu que o acompanhamento fosse mudado. Impossível! falou o maître. Então eu disse que queria o mesmíssimo prato, com o acompanhamento trocado. Ele teve de concordar, de uma forma submissa e aduladora.

Durante todo o jantar, os rapazes tinham um ar triunfal, apesar da postura insolente dos que nos serviam, naquele restaurante vazio. Até mesmo do humilde garçom, tão ameríndio como nossos convidados.

Se você leu minha coluna sobre os efeitos da altitude, não vai estranhar se disser que fui atacado por uma súbita dor de barriga. Tão fulminante que não consegui chegar a tempo ao banheiro no andar de cima.

Altiplano da Bolívia (Foto: Joel Santos)

Meu único recurso foi tirar a cueca, em situação imprestável. Onde a escondo? pensei e mirei jogá-la do outro lado da janela. Mas meu movimento foi desastrado – ela ficou repousando no telhado logo ao lado.

Ao fim do jantar, nosso guia resolveu visitar o banheiro. Nunca iria supor que um rapaz tão educado como eu teria se livrado da cueca. Como não havia outros clientes, depreendeu que tal façanha teria pertencido ao maître. !Que hijo de puta que no sabe ni servir ni cagar! comentou. Achei a noite memorável.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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