Los Hermanos

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É inegável que nós montanhistas brazucas temos mesmo inveja de nossos vizinhos latino americanos, afinal todos eles tem seu pedaçinho dos Andes enquanto nós – pobres coitados – temos apenas praias quentes de areia fina recheada de mulher bonita.

Vejo o Brasil como aquele garoto grandão e bobão a mendigar a amizade dos vizinhos espertalhões que vem passar o feriado na casa de praia, arrasam a geladeira, fazem xixi na piscina e vão embora sem limpar a bagunça, mas quando o convidam pro churrasco no sítio já avisam pra levar a cerveja, a picanha e também o carvão.

O Brasil é a Patopólis da América do sul. Aqui somos estrangeiros em nossa própria pátria, divididos entre ítalo-descendentes, nipo-descendentes, afro-descendentes, euro-descendentes, mas basta dois passos no quintal dos vizinhos para nos enxergarmos realmente como brasileiros. Desfraldamos nossa bandeira até nos cumes mais insignificantes, circulamos pelas ruas com a horrorosa camiseta verde-amarela da seleção e vibramos com o encontro de algum patrício, qualquer um.

Se em nossa carência afetiva ansiamos um pouco de consideração, na visão deles sempre seremos os brasileiros – habitantes de Patopólis, que entramos na festa sem convite e levamos cascudo sem reclamar. Na teoria reclamam e esbravejam contra os americanos, culpados pelo atraso do mundo andino só por este não resistir à comparação com o progresso daqueles, mas na prática descontam toda sua frustração depenando os brasileiros.

Na Argentina é institucional, existe um preço para os locais e outro para os “estrangeiros”, próximo a fronteira temos até bomba de gasolina exclusiva. Na Bolívia escalamos em companhia de um americano e dois guias locais que para variar não cumpriram todo o contrato. O americano não deixou barato e acabou por receber sua parte enquanto nós brasileiros bonzinhos ficamos a ver navios. No Peru, das 5 maçãs que comprei 3 estavam podres. Comprei uma passagem Cuzco – La Paz e percebi que estavam me abandonando na fronteira em favor a um grupo de franceses, somente depois de erguer no braço o agente de viagem é que este negociou uma passagem em outra companhia para me levar ao destino.

Para comprovar o que digo nem é preciso viajar, basta ver o noticiário. A Argentina é parceira enquanto sustentam saldo comercial positivo, mas bastam 2 meses de inversão para gritarem exigindo salvaguardas. Do Paraguai recebemos muamba e maconha, construímos  Itaipu praticamente sozinhos e ainda pagamos aluguel, mas agora exigem reajuste antecipado do contrato e avançam com a reforma agrária sobre as terras dos brasiguaios que investiram suas vidas daquele lado da fronteira.

A Petrobrás depois de investir fortunas para o progresso da Bolívia foi humilhantemente enxotada e os brasileiros que fazem a riqueza de Santa Cruz estão prestes a perder suas terras da mesma forma que os brasiguaios. O Equador acaba de dar o calote no BNDS, emprestou, contratou, está usando a hidroelétrica e diz que não paga. E ainda ameaça a Petrobrás, da Colômbia e das FARCs recebemos cocaína e as armas que fazem da vida nacional um terror. A Venezuela comanda a quadrilha com seu ridículo ditador fanfarrão, caricatura de Mussolini.

Se o Brasil é Patopólis, nós somos os patos e estamos cercados pela quadrilha dos irmãos Metralhas, João Bafo de Onça, Mancha Negra e Madame Min. Depois da primeira semana pelas ruas de La Paz, Cuzco, Copacabana, já é possível sentir uma imensa simpatia por Cortez e Pizarro.

Não dá para baixar a guarda um minuto, em primeiro lugar precisamos nos reconhecer como brasileiros também aqui dentro do Brasil e isto significa cumprir com nossos deveres e exigir nossos direitos. E temos muito a aprender com os americanos, gostem ou não deles, todos os respeitam. E jamais deixar de escalar nos Andes, a presença brasileira precisa crescer muito mais, tornar-se mais forte a cada temporada, mas vá com força, fique atento e prepare-se pra levar porrada.

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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