Marmolejo: A montanha invisível

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Acabo de regressar de minha expedição ao Cerro Marmolejo, uma montanha de 6108 m localizada na fronteira do Chile com a Argentina. O Marmolejo é o “seis mil” mais austral dos Andes, ou seja, é a última montanha que ultrapassa essa altitude no sul do continente. É carinhosamente apelidada de “Muy muy lejos” pelos montanhistas , devido à longa e exaustiva aproximação necessária para se chegar à sua base.

As rotas mais utilizadas para a ascensão dessa montanha estão do lado chileno, havendo duas possibilidades de acesso que convergem na rota normal: pelo vale do Río del Plomo ou pelo vale do Estero Marmolejo, no Cajón del Maipo. Eu escolhi esta última opção pela maior facilidade logística, já que existe transporte público desde Santiago até as águas termais conhecidas como Baños Morales, que ficam nas proximidades do refúgio Los Valdés, um excelente ponto de apoio para o início da empreitada. A aproximação pelo Estero Marmolejo é a mais longa dessas duas alternativas e bastante exigente fisicamente, principalmente se o trajeto até o acampamento base for feito sem a utilização de mulas. Ambas as rotas se encontram em um passo localizado a 4243 m de altitude, que separa os dois vales, e seguem por uma aresta na direção leste que leva diretamente ao glaciar abaixo do cume. Eu optei por ir sem mulas, tanto pelo preço abusivo cobrado, quanto pela possibilidade de agregar um elemento extra ao desafio proposto de executar essa ascensão no estilo “alpino”, ou seja, montando sucessivos acampamentos sem realizar “porteos” prévios de equipamentos e suprimentos.

O Marmolejo é uma montanha tecnicamente fácil: eu subi até o cume somente com botas duplas e um par de bastões, servindo o piolet e os crampons apenas como peso extra na minha mochila. Mas seu glaciar é bastante perigoso, a despeito das informações contrárias que encontrei em muitas referências na internet, que diziam que o mesmo não continha gretas. Na verdade, o glaciar da face oeste, no lado chileno, encontra-se em nítida regressão, certamente um efeito do aquecimento global, apresentando uma neve instável e quebradiça com muitos penitentes e gretas em formação, sendo preciso bastante cuidado ao atravessá-lo sem corda. Mas, mesmo com as condições atuais do glaciar, o Marmolejo é uma montanha linda e pouco visitada, apesar de se encontrar nas proximidades de Santiago, sendo uma excelente alternativa para quem busca uma ascensão em uma área inóspita e sem a presença de multidões. Também constitui um grande desafio físico, sendo utilizada pelos chilenos no inverno como preparação para suas expedições ao Himalaia.

Relato

1ª parte: Aproximação “Muy muy lejos”
 Eu estava planejando seguir de ônibus para Baños Morales, mas como minha ida coincidiu com o final de semana, combinei com o Alexandre, um amigo meu que mora em Santiago, de irmos juntos para aproveitarmos o sábado no Cajón del Maipo. O tempo estava bom e aparentemente estável, ensolarado e com um céu sem nuvens, apesar da previsão de nevascas na montanha para os próximos dias. À noite, no refúgio Los Valdés, o vento aumentou de intensidade, contrastando com a limpidez estrelada do famoso céu do Cajón.

No domingo pela manhã o Alexandre me levou de 4×4 até o “cabrerío”, um local de criação de cabras situado a cerca de 2200 m de altitude e a uns 5 km do refúgio, ponto de partida para a ascensão do Marmolejo e do vulcão San José. O tempo continuava bom, com um pouco de vento e, às 09:00, me despedi de meu amigo, coloquei a mochila nas costas e busquei o caminho por uma trilha que sobe uma encosta em direção ao vale de La Engorda, uma extensa planície verdejante cortada pelo Estero Marmolejo, cuja travessia constituía o principal obstáculo do dia, além dos 1400 m de desnível a ser vencido.
 
Logo nos primeiros minutos de caminhada a paisagem se mostrava deslumbrante, com a visão do Cerro Morado (4647 m) surgindo à esquerda, no final do vale do Estero Morado e, a oeste, as ladeiras nevadas do vulcão San José (5856 m), cujo cume norte é vizinho ao maciço do Marmolejo. Depois de aproximadamente 2 horas, após cruzar alguns pequenos afluentes, cheguei ao Estero Marmolejo que, na parte da manhã, ainda se encontrava com um baixo volume de água, dividindo-se em vários canais no ponto em que o Cajón de La Engorda se dirige para o sudeste, separando-se do vale principal. Mesmo assim foi preciso tirar as botas e calçar um par de “crocs” para fazer a travessia, tomando muito cuidado com a força da correnteza. Desse ponto em diante a paisagem começa a mudar. O deslocamento, que já era um pouco incômodo devido às muitas pedras existentes no caminho, passa a ser, prioritariamente, por trechos pedregosos e instáveis retardando o ritmo, com o vale se tornando mais estreito e as subidas mais íngremes e fortes. Após passar por uma grande rocha com uma cruz e algumas inscrições o caminho se torna realmente mais exigente e começa-se a ganhar altura com maior rapidez. Nesse ponto a trilha se afasta do rio, apesar de se manter paralela a ele, mas bem acima de seu nível. Ou seja, é a última oportunidade de se reabastecer de água antes de atingir o local conhecido como Aguas Blancas.

Quando eu estava deixando o verde do Cajón de La Engorda observei que o vale do Estero Marmolejo terminava em uma cachoeira, logo acima da pedra com a cruz. Seria esse o fim do vale? Estranho, porque sabia que a aproximação pelo vale era bastante longa. Ao subir esse trecho descobri que o vale, na verdade, possuía vários “níveis”, abrindo-se novamente acima do trecho encachoeirado. Devo ter gasto mais umas duas horas para chegar às Aguas Blancas, que marca o fim deste outro patamar. Esse é um local bastante interessante, marcado pelo encontro do Estero Marmolejo de águas esbranquiçadas, devido à quantidade de sedimentos que carrega, com outro curso de água mais pura e azulada, que surge repentinamente por debaixo de umas rochas, uma versão em miniatura do famoso encontro das águas amazônicas dos rios Negro e Solimões. Observando esse segundo córrego mais de perto, fiquei na dúvida se se tratava de uma nova nascente, como estava na carta topográfica, ou se era o próprio Estero Marmolejo que se bifurcava e corria por debaixo das pedras, tendo seus sedimentos purificados pelo filtro natural formado pelas rochas.

 
Aproveitei para me reabastecer de água naquele riacho cristalino e encarei a nova e forte subida que se anunciava, e que me levou para o terceiro “nível” do vale, o último e mais longo de todos. Ao fundo, dois detalhes preocupantes: um circo de montanhas que não deixava entrever nenhum passo natural para onde subir e uma espessa camada de nuvens encobrindo esses cumes elevados, mostrando que o clima lá encima não estava nada bom. O vento também já era mais forte e o céu ficava cada vez mais escuro. Eu tinha a meta de chegar ao fundo do vale, onde fica o acampamento base, aproveitando-me do fato de que a luz do dia, nessa época do ano, prolonga-se até umas 21:30. Mas com o tempo ficando cada vez mais feio, achei melhor parar no lugar mais adequado que encontrasse.
Pouco antes das 18:00 a trilha se reaproximou do Estero Marmolejo, em um ponto onde o vale é bem extenso e o rio se desdobra em vários canais. Para cruzar alguns desses canais seria preciso tirar a bota e resolvi, então, montar a barraca em sua margem, em um lugar utilizado como acampamento intermediário pelos vestígios de pedras empilhadas ali existentes. Certamente seria mais fácil atravessar o rio pela manhã, pois o volume de água aumenta progressivamente durante o dia com o calor que provoca o degelo no alto da montanha, de onde vem toda essa água. Foi uma decisão acertada, pois cerca de uma hora e meia depois começou a chover. Havia sido um dia bem pesado, carregando todo o peso pelo vale desde o “cabrerío”. Eu estava a 3300 m de altitude e havia subido uns 1100 m. Dormi tranquilo ouvindo os pingos da chuva no teto da barraca.
 
O dia seguinte amanheceu tão feio como o final da tarde anterior, com as nuvens mais baixas e ameaçadoras. Antes das 09:00 já estava com a mochila nas costas e com os “crocs” nos pés, para atravessar novamente o Estero Marmolejo que, a essa hora, estava bem mais tranquilo. Somente um dos canais apresentava um volume de água maior, me fazendo molhar os pés. Após essa travessia, o caminho se afasta novamente do Estero Marmolejo e segue paralelo a um grande depósito de sedimentos, junto a um pequeno córrego. A orientação é visual, mirando-se o fundo do vale e buscando os pequenos totens que indicam o melhor caminho entre as pedras. Duas horas depois observei um totem imenso no alto desse depósito de sedimentos, indício de que estava chegando a algum lugar. O acampamento base surgiu em seguida, com uma ampla área plana em meio aos escombros.
Eu continuava sem saber por onde deveria subir, no fundo do vale, em direção à aresta que me conduziria para o glaciar do Marmolejo. As nuvens espessas realçavam, ainda mais, a verticalidade daquelas paredes, formadas por grandes montanhas como o Cerro Loma Larga (5404 m) e o Cerro Cortaderas (5197 m). Continuei caminhando seguindo os totens, agora longe de qualquer curso de água e cercado por pedras desmoronadas. Uma hora mais e cheguei a outra área plana com sinais de ser utilizada, frequentemente, como acampamento. Estranho, porque, apesar de ser bem abrigado e limpo, não vi água em nenhum lugar. Nesse ponto saquei a mochila e fui buscar o caminho, pois desconfiava que estava me aproximando da tão esperada subida que me tiraria do vale do Estero Marmolejo. Finalmente localizei dois totens apontando em direção a uma grande pedra, mais acima. Olhando para o alto e percebi uma aresta bastante aérea e exposta, que supostamente me conduziria até o passo, nesse momento escondido pelas nuvens escuras que tomaram conta daquelas paragens. Eu estava saindo do acampamento base de um “seis mil”, mas até agora não tinha visto nem sinal da montanha que iria escalar. Apenas podia pressentir que havia um gigante à espreita.
 
Aguardem a continuação e um forte abraço!
 

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Sobre o autor

Marcelo Delvaux - Colunista

Marcelo Delvaux é montanhista e guia profissional de montanha pela EPGAMT de Mendoza, Argentina, onde vive atualmente. Praticante de escalada em rocha desde a década de 90 e de escalada em altitude desde 2001, já participou de diversas expedições na Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Guatemala e Tibete, virando adepto de um estilo rápido e leve. Acredita que a multidisciplinaridade é o caminho para o crescimento pessoal e sucesso profissional e busca a integração de áreas como montanhismo, filosofia e gestão de projetos em seus treinamentos de liderança, motivação e desenvolvimento humano.

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