Marrocos, uma agradável surpresa

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No Marrocos de minha imaginação havia duas coisas, as dunas de areia e os vendedores de tapetes que transformavam a viagem em um pesadelo. Por muito tempo relutei em vir para cá, mas conversando com outros guias acabei me rendendo a atração de fazer um trek pelas montanhas Atlas. A idéia de montanhas nevadas no norte da África era por demais poderosa para eu ignorar e após guiar dois grupos ao campo base do Everest embarcamos, eu e a Lisete, para Paris e para lá de Marrakesh.


Chegamos a Marrakesh no final de uma agradável tarde zonzos de sono após um vôo de Katmandu a Doha, de lá a Paris e finalmente ao Marrocos com as cansativas paradas em cada um dos aeroportos. Mesmo assim fomos para a lendária praça Djemaa El-Fna, lugar recentemente declarado pela UNESCO com patrimônio da Humanidade por sua rica transmissão oral de histórias que acontece todos os finais de tarde onde contadores de história, músicos encantadores de serpentes disputam a atenção dos locais e dos turistas. Mais uma vez minha grande frustração em não entender a língua local para saber o que os ávidos ouvintes escutavam com tanta atenção. Em um país onde apenas 50% da população é alfabetizada os contadores de história mantém a cultura berber viva. Mas, após uma hora perambulando pela imensa praça o sono foi mais forte e voltamos para o hotel para uma boa longa noite de sono.

Na manhã seguinte saímos para perambular pela imensa Medina, a grande área de mercado da cidade com suas ruelas labirínticas cobertas em sua maioria por finos troncos de árvores dando uma bem vinda sombra e temperatura agradável. Do lado de fora da Medina os termômetros marcavam 40 graus… Mas, chamar esta Medina de mercado não traduz o que realmente ela é. Claro que é um lugar turístico afinal hoje turismo com quase 10 milhões de visitantes é uma das principais fontes de renda deste país relativamente pobre. Mas, a Medina também é o mercado local e para ver este lado menos turístico basta ter vontade de se perder o que não é nada difícil. Basta a cada bifurcação buscar a ruela menos, mais vazia, com menos lojas de tapetes e de prata e em breve você estará cercado de locais com suas longas túnicas com gorros pontudos como se fossem monges medievais.
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Mas, vale a pena perambular pelas ruas turísticas já que o artesanato local é lindíssimo. Os tapetes merecem a fama que tem e em poucos lugares do mundo vi artesanato em prata tão bonito. Mais uma vez agradeci minha opção de não ter casa de modo que posso apreciar as coisas bonitas de cada país sem ter vontade (nem poder) comprar. Mas, ficamos surpresos com a delicadeza dos vendedores. Esperava algo pior do que na Índia e o que encontrei foram vendedores que te convidam para entrar em suas lojas, mas não forçam de maneira alguma e quando você entra para olhar e perguntar o preço de algo não são “grudentos” como os da Índia com quem convivi por tantos anos. Conversando depois com nossa operadora local, uma simpática francesa que mora aqui há muitos anos ela nos disse que com exceção de Fez os vendedores são bastante tranqüilos. Por alguma razão apenas na antiga cidade imperial de Fez isso é diferente. No final de nossa viagem vamos para lá e poderei comprovar ou não a fama deles.

Na manhã seguinte tivemos uma reunião com nosso guia de trekking Hassan e com a Magui, nossa operadora local. Após decidirmos os detalhes de nossa viagem partimos em um veículo 4×4 para o início do trekking. Nossa equipe era bem pequena, eu, a Lisete, o Hassan, e dois muleiros, o Mahamed e o Abdula, alem de duas pequenas e fortes mulas. Os muleiros também eram nossos cozinheiros e que garantiu que tivéssemos comida local durante todo o trek.
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Nos próximos 7 dias percorremos os vales, gargantas, planaltos e passos do Alto Atlas, a maior cadeia de montanhas da África com quase 1000 km de extensão, cruzando o Marrocos de oeste a leste chegando a ter vários picos com mais de 4000 metros. A paisagem rochosa era constantemente suavizada pelas milhares de pequenas flores que se espalhavam pelas colinas. Apesar de não ser um trekking difícil já que a altitude nunca foi muito elevada, nossos dias foram longos, com ao redor de sete horas de caminhada diárias e com muitas longas subidas e descidas. Mas, o esforço era mais do que compensado pela beleza da natureza e por estar em um lugar completamente remoto. Nesses sete dias não encontramos outros trekkers nenhuma vez, apenas moradores locais da pequenas vilas que cruzamos em nosso caminho. Eles reagiam com um misto de vergonha e curiosidade, principalmente as mulheres. Passamos também por inúmeros pastos de verão que nesta época do ano ainda não estavam habitados, casas de paredes e tetos de pedra que se mimetizavam completamente com a paisagem. Em um desses lugares vimos pinturas rupestres que datavam de 3 mil anos e que mostravam girafas e elefantes mostrando a mudança brutal de clima que esta região sofreu.

Mas, o mais estranho de tudo era percorrer este terreno relativamente árido e de repente se deparar com o cone nevado de alguma montanha.
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Após os sete dias de linda caminhada chegamos ao campo base do Tupkal, a mais alta montanha do norte da África com 4167 metros. O tempo tinha virado e o céu estava da cor da paisagem ao nosso redor deixando tudo monocromático. Acampamos ao lado do enorme refúgio sob uma chuva gelada e um vento assustador. Combinamos de acordar as 4 da manhã para sair as 5, mas a chuva e o vento constante durante toda a noite não nos deixou dormir muito e quando levantamos o céu estava ainda mais ameaçador e o vento fortíssimo. Se ali, a 3300 metros estava este vento, como estaria lá em cima no cume? Junto com as outras 30 pessoas que se preparavam para subir ficamos olhando o céu na esperança de que com o amanhecer clareasse, mas os minutos passavam e o vento só se intensificava. Todos os guias comentavam o quanto estavam surpresos com este clima nesta época do ano quando o céu azul é a norma. Nunca tinham visto uma noite tão ruim. Finalmente as 6 da manhã o vento amainou um pouco embora a visibilidade continuasse zero. Decidimos sair assim mesmo preparados para voltar caso o vento piorasse novamente. Colocamos nossos crampons, toda as roupas que havíamos trazido e iniciamos a subida de 1000 metros que nos levaria ao topo. A neve estava razoavelmente boa, consistente de modo que nosso progresso era razoável. Apenas o vento que por horas quase nos jogava no chão fazia com que demorássemos mais do que o planejado, mas após 4 horas de subida chegamos ao topo. Não vimos absolutamente nada mas para mim esta subida tinha um sabor especial, cheguei ao cume exatamente um ano e duas horas após ter chegado ao cume do Everest. Era o aniversário de uma escalada que em muitos aspectos mudou minha vida!
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Descemos sem maiores problemas e resolvemos no mesmo dia caminhar as 5 horas até o vilarejo onde nosso carro nos esperava. Que sensação estranha chegar no hotel em Marrakesh a 36 graus apos apenas algumas horas de estar no cume de uma montanha de mais de 4000 metros nevada, fria e com muito vento. Após um merecido banho quente dormimos por 12 horas.

Nossa próxima parada foi a agradabilíssima Essaouira, uma cidade na costa atlântica com uma bonita mesquita, bons restaurantes e um clima muito mais relaxado, típico de cidades costeiras ideal para nos recuperarmos dos esforços dos últimos dias. Passamos 3 dias lá caminhando pelas ruelas, vendo o bonito artesanato e dormindo até tarde em nosso charmoso hotel, uma construção do século 18. Lá alugamos um carro e demos uma longa volta pelo país parando em pequenas cidades, checando hotéis para a viagem que vamos oferecer a partir de outubro. Esta viagem foi um misto de férias com viagem de pesquisa, uma das coisas que mais gosto de fazer. O desafio de não conhecer nada de um país e após 30 dias pegar o melhor do que vimos e transformar isso em uma viagem de 15 ou 20 dias é estimulante e delicioso.
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O ponto alto desta nova pare da viagem foi passar uma noite em um acampamento no Sahara cercado de dunas maravilhosas que ao por do sol ficavam douradas. Chegar lá não foi fácil, várias horas em nosso carro e mais duas em um 4×4 pelo deserto sem estradas. Mas, o acampamento era super charmoso com 15 barracas para duas pessoas em circulo ao redor de uma fogueira e com toda a área coberta por tapetes marroquinos. Chegamos no meio da tarde e subimos na duna mais alta e lá ficamos até o por do sol, as 8 da noite. A temperatura muito quente quando começamos a subida foi aos poucos ficando mais agradável, as cores mais suaves, a brisa gostosa e nos deixamos ficar quase até anoitecer. Daí um delicioso jantar a luz de velas e a noite sob um céu de milhões de estrelas. Porque dormir dentro da barraca quando a vista fora era to deslumbrante. Como sempre que durmo sob as estrelas acordei várias vezes, e a cada vez olhava para o céu, me maravilhava com a vista e voltava a dormir. Me lembrou muito de minhas muitas noites ao ar livre no Paquistão..quando ainda dava para viajar por aquele maravilhoso país.

Terminamos nossa viagem em Fez que apesar de realmente como já haviam nos prevenido tem um astral diferente com vendedores muito mais insistentes, tem construções lindas e uma Medina imensa e com muito menos turistas do que Marrakesh.

Saímos do Marrocos com a certeza de que vamos voltar lá muitas vezes e isso me deixa feliz.
Próxima parada: Mongólia, um sonho de anos..&nbsp,

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Sobre o autor

Manoel Morgado - Colunista

Manoel Morgado é médico de formação, mas trabalha como guia de montanha há 20 anos, atuando em vários países ao redor do mundo. Há 15 anos é montanhista, tendo como ápice de sua carreira a conquista do Everest e também a realização do projeto 7 cumes. Ele nasceu no Rio Grande do Sul, se criou em São Paulo e dede 1989 não tem casa.

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