Minha primeira montanha Andina – Parte 1

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Recentemente, atualizei a coluna do AltaMontanha no site da revista Go Outside com um relato de minha primeira ascensão à uma montanha andina, o Cerro Plata. Esta escalada foi feita durante uma viagem de carona que fiz com Maximo Kausch, onde percorremos 10 mil Km à pé e de carona pelo Chile e Argentina, indo até Ushuaia, na Terra do Fogo, numa viagem foi uma das maiores provações de minha vida, pois fizemos tudo isso isso subindo montanhas quase sem dinheiro e sem equipamento. Recuperando as informações que havia esquecido, reli meu diário de bordo e posto aqui em minha coluna o relato, escrita há 11 anos atrás, na íntegra. Esta pode ser uma amostra de um livro que poderá pintar na área.

:: Matéria Go Outside: Meu primeiro cume andino
:: Acompanhe o relato com as trilhas do Cerro Plata no Google Earth pelo site Rumos: Navegação em Montanhas!

Foram várias morgadas que marcaram o inicio de nossa escalada no Plata. Primeiramente foi que nos esquecemos de completar o combustível de nosso fogareiro e tínhamos fogo para poucos dias. Depois, porque havíamos comprado pouca comida que não era suficiente para ficarmos os 10 dias previstos para fazer aclimatação e atacar o cume, seguido que levamos para nossos acampamentos acima tudo o que levávamos para nossa viagem, que era peso desnecessário nas costas.

Tivemos a oportunidade de deixar equipamentos desnecessários no abrigo da UNC, mas não deixamos por besteira. Logo que saímos do abrigo, encontramos um brasileiro que estava descendo, o Gil (Piekarz), amigo dos Catarinenses do Escort que conhecemos na estrada. Por sorte o Gil nos deu o combustível que ele tinha, por sorte não, azar! Pois ele tinha solvente e nós gasolina, na mistura ficou um combustível pouco explosivo, uma chama fraca, pior que o que tínhamos.

Não dá para deixar de citar a sorte que eu e meu amigo temos em pegar uma trilha logo de cara, sempre vamos pelo caminho errado e não foi diferente no Plata. Havia a trilha principal, que subia paralelo a um riacho, que alguns quilômetros mais abaixo se transformava no Rio Blanco. Essa trilha chegava à um ponto que fazia uma curva e ia por uma encosta de moraina, claramente a trilha principal que o cabeça do Maximo ignorou e achou melhor cortar caminho, indo reto por onde era uma zona encharcada pelo córrego. Isso nos rendeu mais fadiga e picões grudados na calça, e um tempo sem ficar conversando…

De volta à trilha principal, paro e encho minha garrafa com água, neste tempo passam por mim 4 caras, dois aparentemente em bom estado físico, e os outros gordos, que se cansaram rapidamente. , Ultrapassamos a expedição dos gordos esbanjando fôlego, já que estávamos próximos de “Las Veguitas”, um pasto onde é feito o primeiro acampamento no Plata, aos 3200 metros de altitude.

A expedição dos gordos veio logo após que nós, morrendo de cansaço. Nós os esnobávamos, mas quando eles armaram seu acampamento, ficamos com vergonha. Eles tinham todos os equipamentos, barraca boa, colchão inflável, botas duplas, roupa térmica, crampons, bastão de trekking… No Plata percebemos que montanhismo é esporte pra quem tem dinheiro.

Estávamos numa altitude maior que qualquer montanha no Brasil e ainda era o primeiro. De Las Veguitas até o cume são 4 lugares onde são feitos acampamentos, além de Las Veguitas, existem “Las Piedras”, “Salto” e “La Hoyada”, 3200, 3800, 4200 e 4600 respectivamente. , Em Las Veguitas ainda haviam arbustos que compunham a vegetação, esses arbustos era a comida das vacas que haviam lá em cima, vacas gigantes de alta altitude.

O que mais incomodava naquele lugar eram os Tábanos, que são moscas gigantes que picam, e dolorido! Às vezes os Tábanos atacavam em massa, as pelo menos eram fáceis de matar, uma vez contei quantos eu matei, foram mais de 60.

Passamos uma noite aos 3200 até não fazia tanto frio quanto esperávamos, dormimos tranqüilos. De manhã, arrumamos nossas coisas e fomos em direção de “Las Piedras”, o segundo acampamento. Pegamos o caminho errado de novo, subimos por um vale de rípio e a cada dois passos que dávamos, descíamos um, me esgotei na subida.

O Maximo honrou seu nome neste percurso, sua mochila estava mais pesada que a minha, mesmo assim ele subiu correndo e depois voltou para me ajudar. Meu estado físico me preocupava, será que eu ia atrapalhar a escalada?

Com um pouco mais de esforço, chegamos em Las Piedras, que como o nome diz, são um monte de pedras. Chegamos lá um pouco depois da expedição dos gordos, mesmo assim eles estavam mais exaustos que eu.

Em Las Piedras havia mais dois andinistas, também bem equipados, eles estavam preocupados, pois não tinham botas duplas e nem crampons. Acho que eles ficaram aliviados em nos ver sem estes equipamentos, um alívio instantâneo, pois depois que eles viram o grande contraste entre o que era a nossa e a expedição dos gordos.

Armamos acampamento logo, apesar de ainda ser cedo. Aproveitando esse fator, e pondo um aditivo poderoso chamado empolgação, Maximo pegou a mochilinha de ataque e foi correndo até o “Salto”, que era o terceiro acampamento. Uma hora e meia depois ele voltou, esbanjando preparo físico, o que chamou a atenção dos andinistas lá presentes. Voltou tão empolgado quanto saiu, contando histórias.

Ele me disse que lá em cima fazia muito frio e que havia uma expedição acampada lá, de uns caras muito gente fina, com quem ele havia tomado mate e compartilhado o único queijo que tínhamos. Ele disse que os caras lá em cima tinham um fogareiro Sigg, igual ao nosso, e que durante o preparo de um mate, começou a soltar fogo por todos os lados.

_ A borracha de teflon que isola o fogareiro queimou. Disse Maximo
_ Mas que nada, eles tinham uma sacolinha cheia de repostos. Isso nunca ai acontecer com o nosso. Finalizou ele. (Ele mal imaginou a dor de cabeça que nosso fogareiro iria nos dar mais tarde. SIC).

Maximo disse também que os caras daquela expedição estavam com olheiras enormes de fome, um deles, quase desaparecendo. Eles haviam trago muito combustível, para ficar semanas derretendo neve, o que ocupou espaço da comida. Eles haviam feito cume no Vallecitos e no Rincón, que são picos vizinhos do Plata, mas esse, o qual nos interessava saber sobre sua rota de acesso e dificuldades, eles não haviam ido, mas pelo menos sabiam que não havia neve lá em cima, até então temida e desconhecida.

Os caras do Salto ficaram admirando a disposição do Maximo e o apelidaram de “animal”. Eles disseram que havia uma expedição guiada por um velho italiano de 77 anos… e ele ia fazer cume pela parede Sul do Plata, que era a rota mais difícil.

No dia seguinte preparamos as coisas para elevar nosso acampamento ao Salto. A expedição dos gordões bem equipados não resistiu à falta de conforto, segundo eles a “altitude”. Na verdade eles não queriam molhar a camisa com suor, mas pelo menos nos deram um pouco de comida.

Subimos com aqueles dois outros caras, que eram irmãos, ser apresentaram como Alê e Leo. Alê, Alejandro, era o mais velho e mais experiente, era professor de educação física em Buenos Aires, tinha cabelo comprido e barca. Seu irmão mais novo, Leonardo, era novato neste tipo de aventura, ainda estava preocupado com o fato de não ter bota dupla, se bem que tinha uma muito boa e bastões de trekking.

Alê estava voltando de uma viagem que havia feito com a namorada pela Península Valdez. Havia prometido a Leo que iria levá-lo escalar uma alta montanha. Quando ele voltou pra casa, todo cansado da viagem da Patagônia, encontrou o irmão todo empolgado e disposto a encarar o Cerro Plata, eles foram assim mesmo.

Quando comentamos com eles que iríamos passar pela Península Valdez e falamos de nossa viagem, eles acharam legal e fizemos amizade imediatamente. No principio, eles achavam que não tínhamos condições de subir a montanha, mas essa concepção foi mudando enquanto íamos nos conhecendo.

O quanto mais subíamos, se aproximando do Salto, mais ia desaparecendo a vegetação. O caminho foi quase que todo percorrido por cristas de morenas, um terreno que desgasta. Os irmãos levavam suas mochilas de ataque com comida na frente. O quanto mais subia, mais ficava cansado, assim como o Alê e Leo, mas diferente do Maximo, que subia como se não tivesse levando nada nas costas. A disposição do Maximo era enorme. Ele chegou no Salto, deixou sua mochila e desceu para nos ajudar, acabou levando as duas mochilas de ataque dos irmãos.

Quando estávamos próximos ao acampamento, encontramos a expedição dos caras de olheiras descendo, eles eram amigos do Alê:

_ Você viu só esse tal de Maximo, que animal!!! Disse um dos andinistas.

Enquanto trocávamos saúdos e dicas, cruzam entre nós a expedição do velho italiano, impondo medo e respeito.

O inexperiente Leo foi conversar com um dos integrantes daquela expedição. Como não podia deixar de ser, estava preocupado com a falta de botas duplas:

_ Olha, essa aqui serve? Disse ele mostrando a bota, que era infinitamente melhor que a minha.

_ Não, é impossível subir sem botas duplas e crampons! Respondeu o experiente andinista botando medo.

Enquanto ainda estávamos em Las Veguitas, encontramos um andinista baixando solitário. Apareceu no meio da neblina, parou um pouco para descansar e depois continuou a descida. Dizia estar vindo do Salto, e que havia tido um edema lá em cima.

_ Tinha vezes que ficava procurando ar lá em cima! Dizia ele, sugando rapidamente o ar, como se estivesse ofegante.

O cara não estava somente bem equipado, como também usava coisas de marca. Ficamos imaginando nós, sem equipamentos e experiência nenhuma lá no Salto. E não é que nos demos bem!

Cheguei a 4200 metros cansado, mas logo depois de um descanso me recuperei e estava 100% de novo. Preparamos um macarrão com molho Tucco, que o italiano havia deixado pra trás. Todos nossos problemas haviam sido resolvidos, pois também deixaram mais combustível lá.

O Alê e o Leo tinham um fogareiro a gás, ineficiente em alta montanha devido sue desempenho fraco, os deixamoseles usarem o nosso. Comemos todos juntos, foi um papo descontraído, falamos sobre futebol, e música, Leo era contra baixista. Neste bate papo aconteceu algo incrível. Até então eu só entendia espanhol e não conseguia me expressar falando. De repente, comecei a falar com fluência, foi algo mágico!

Após o almoço, fomos dar uma volta. Estivemos em contato pela primeira vez com a neve em um glaciar que descia a encosta do Rincón, foi divertido. Lá havia covas de gelo, esculpidas por riachos formados por degelo, era um mundo novo pra nós. Voltamos ao acampamento contando nossas descobertas para os dois irmãos.

Combinamos com Alê e Leo de fazermos ataque ao cume juntos no domingo, dia 6. Mas na noite de sábado fez um vendaval que quase levou nossa barraca embora. Fez menos de zero dentro da barraca e dormimos muito mal, assim não animamos para acordar cedo e atacar o cume, os dois irmãos também.

Naquela noite, no meio do vendaval subiram ao Salto um grupo de amigos de Mendoza, eles haviam saído de casa na sexta à noite e neste mesmo dia acamparam em Las Veguitas. No dia seguinte, haviam chego no Salto. Não fizeram nenhuma aclimatação e o resultado foi imediato, um dos três amigos teve que baixar sentindo ânsia de vômito e muita dor de cabeça.

Pela manhã de domingo, o tempo já havia se normalizado e não desperdiçamos o dia morgando, fomos todos juntos fazer uma caminhada montanha acima. Não havíamos visto os dois malucos, o que significava que eles haviam ido atacar o cume.

Nós quatro chegamos até os 5 mil metros, e não vimos nenhum sinal dos mendocinos. Só fomos ver um deles lá embaixo, de volta ao acampamento, quando preparávamos o jantar, quase ao anoitecer. Ele descia sozinho e devagar:

_Cadê meu companheiro? Perguntou ele.

Os dois haviam se separado durante a descida, o estranho é que o cara que tinha acabado de chegar ao Salto era o que estava atrás, o que significa que o amigo dele havia se perdido no meio do caminho.

Esperamos um tempo, para ver se o rapaz não aparecia, até que o tempo começou a piorar com o anoitecer. O cara já estava se desesperando…

Gritamos em vão, tentando chamar o Mendocino perdido, até Maximo, o “animal”, resolveu ir sozinho procurar o fulano desaparecido.

Voltou meia hora mais tarde, saindo do meio da neblina, guiando o mendocino perdido até o acampamento. Ele foi encontrar o cara no meio do Glaciar do Rincón, totalmente desorientado. Se não fosse por essa atitude heróica, uma tragédia haveria acontecido no Plata. Logo após o cara voltar salvo pela ação do Maximo, eles arrumaram suas coisas e foram embora à noite.

A escalada que esses caras praticaram foi perigosa e imprudente, foi um exemplo daquilo que pode dar errado na montanha. Foi uma grande ironia, nós, que não dispúnhamos de equipamentos adequados e que fomos chamados de irresponsáveis por isso, termos salvado a vida deles.

Para nós, que antes éramos vistos com desconfiança e incapacidade, ter salvado esse rapaz foi uma prova que estávamos prontos e merecíamos respeito. Infelizmente, pelo fato de termos poucos equipamentos, ainda fomos tratados com indiferença por essas mesmas pessoas que um dia salvamos a vida.

Segundo o Mendocino, ele tinha equipamento para bivacar naquela noite. Mas ele nunca iria sobreviver a tempestade que fez, logo após que eles desceram. O vento soprou forte como na noite anterior, uma nuvem encobriu a cidade de Mendoza e os vales lá embaixo ficaram claros com uma tempestade elétrica. Eram raios por toda a parte, transformando nossa visão num grande show pirotécnico natural de grande perigo e beleza.

Continua….
 

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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