Minha primeira montanha Andina – Parte 2

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Recentemente, atualizei a coluna do AltaMontanha no site da revista Go Outside com um relato de minha primeira ascensão à uma montanha andina, o Cerro Plata. Esta escalada foi feita durante uma viagem de carona que fiz com Maximo Kausch, onde percorremos 10 mil Km à pé e de carona pelo Chile e Argentina, indo até Ushuaia, na Terra do Fogo, numa viagem foi uma das maiores provações de minha vida, pois fizemos tudo isso isso subindo montanhas quase sem dinheiro e sem equipamento. Recuperando as informações que havia esquecido, reli meu diário de bordo e posto aqui em minha coluna o relato, escrita há 11 anos atrás, na íntegra. Veja a segunda parte deste relato:


:: Leia a primeira parte do relato
:: Matéria Go Outside: Meu primeiro cume andino
:: Acompanhe o relato com as trilhas do Cerro Plata no Google Earth pelo site Rumos: Navegação em Montanhas!

Ainda ventava às 5 da manhã, quando acordamos. O frio era negativo quando saímos para preparar o café da manhã. Saí com duas meias, minha calça de esqui, uma ciroula, uma camiseta, um moleton, a jaqueta, um cachecol, luvas e minha boina, usada como gorro. As luvas de couro ficaram duras, sentia muito frio nos pés. Acabei voltando para a barraca.

O dia amanheceu, os raios iluminavam a cidade de Mendoza. Prestigiei o nascimento deste dia de dentro da barraca. Porém, foi só o sol mostrar sua cara para os ventos cessarem. Comemos miojo de café de manhã e o Alê e Leo, frutas secas e cereal.

Demoramos para sair, às 8 horas somente já estava tudo pronto para o ataque. Saímos todos juntos do acampamento, mas logo eu e&nbsp, Maximo fomos tomando liderança. Em pouco tempo chegamos em La Hoyada, onde supostamente faríamos o quarto e último acampamento. Paramos lá para encher com água o cantil de Alejandro.

O Cerro Plata era para ser chamado de “Cerro Hierro”, devido a predominância de minério de ferro em seu solo. A água que o Alê pegou não era diferente, tinha gosto de ferrugem, eles acabaram ficando sem o precioso liquido.

Um pouco mais adiante, chegamos ao portesuelo, onde a trilha se dividia, à esquerda ia ao Plata e à direita ao Vallecitos. No Portesuelo paramos para descansar e esperar os dois irmãos. Tomamos um pouco de chá quente, que levávamos dentro da mochila de ataque e camemos bolachas. Depois de meia hora, os irmãos aparececeram, com os olhos gordos pra cima do chá, afinal, eles estavam sem água. Era evidente o desgaste de nossos amigos:

_ O que tinha nesse macarrão que vocês comeram de manhã? Perguntou brincando o irmão mais velho.

_ É miojo, o combustível de nossos acampamentos! Retruquei.

Deixamos a garrafa térmica com os irmãos e seguimos nossa escalada. Quem estiver lendo estas palavras vai achar que chegamos ao cume sem dificuldade, mas as coisas que se passaram após nos separarmos totalmente dos dois irmãos foi completamente diferente.

Continuams a subir correndo até os 5.500 metros, até que diminuímos os passos. Daí pra frente fomos apenas mantendo o ritmo, numa caminhada nem lenta nem rápida. O cume do Plata não é algo bem definido, como é um cume de vulcão. Durante todo o tempo que estivemos nos aclimatando, não vimos a cara da montanha e não sabíamos certo como ia ser estar lá em cima. Tudo o que sabíamos era que no falso cume havia um helicóptero caído, informação dada a nós pelos catarinenses que conhecemos na estrada.

Já passava do meio dia e mal conseguíamos manter o ritmo, várias vezes parávamos para descansar e toda vez que voltávamos a caminhar, estávamos mais cansados ainda e mais lentos. Assim foi o que aconteceu, até que chegou um ponto que nos atirávamos ao chão e dormíamos durante aquilo que chamávamos de descanso.

Meu relógio estava programado para tocar de 10 em 10 minutos, para que não pegássemos no sono profundo, mesmo assim custava em acordar o Maximo, que ficava reclamando, ou melhor, resmungando:

_ Ah, dá um tempo cara, vamos descansar mais!

Já passavam das 2 da tarde, horário que as nuvens começam a subir e a cobrir os vales lá embaixo. Eu estava preocupado e empenhado em subir, custasse o custar. A caminhada começava a se tornar sofrível e angustiante. Olhar para cima era desanimar-se cada vez mais, pois a trilha não terminava, às vezes ela chegava no topo da colina e quando esperávamos estar perto do fim, havia mais trilha e mais caminho a percorrer, eram os falsos cumes.

O que mais me fazia sofrer eram os pensamentos. Queria parar de pensar, meus pensamentos ficavam perturbando minha mente, me perturbando, me confundindo, era impossível parar de pensar.

Neste momento eu já havia tomado a dianteira na ascensão e agora Maximo me seguia com passos lentos como os meus. Minha cabeça doía e parecia que ia explodir, nunca olhava para cima, sempre para baixo, não conversava mais com Maximo e não pude perceber que ele estava pior do que eu.

A trilha subia em zig zag, foi quando eu parei para descansar, Maximo repetiu minha ação e se atirou ao chão pedregoso. O altímetro do meu relógio marcava 5800 metros. Até então, eu achava que o Plata tinha 6300 metros metros, que é a medição oficial absurda do Instituto Geográficao Militar da Argentina. Mal sabia que na verdade a montanha tem 5938 e estava perto. Meu pensamento, no entanto, me dizia que estava longe e queria me fazer desistir.

O relógio despertou, já havia passado 10 minutos, acordei meu amigo, mas logo depois eu mesmo caí no sono profundo. Fui despertado pelo relógio novamente. Os 10 minutos estavam se transformando em segundos…

Mesmo sem vontade, acordei o Maximo de novo. Ele estava conformado com o cansaço e pediu mais tempo. Disse que não e continuei a subida forçando minha vontade. Max veio atrás, sofrendo para levantar.

_ Cara! Disse ao meu amigo. _Vamos nessa, se a gente parar toda hora, nunca vamos chegar lá! Você não quer chegar ao cume? Eu também quero! Vamos nessa!

Minhas palavras não o animou , paramos mais algumas vezes, até que encontramos um neveiro, que me empolgou. Era um pequeno glaciar. Andei poucos metros por aquela geleira, até que me dei de cara com uma surpresa: Destroços…&nbsp, De um helicóptero! Estávamos do lado do cume!

Avisei nossa conquista ao Maximo, que tinha ido ao “banheiro”. Quando ele voltou, chegamos ao cume, 6300 metros de altitude (sic). Lá Havia uma cruz, que simbolizava o ponto mais alto daquela montanha e as pessoas que já morreram tentando vencê-la. De lá havia uma vista linda de todo Cordón Del Plata e da parede Sul do Aconcagua.

Mesmo assim, Maximo não se animou com a conquista e caiu no chão novamente. Estava arrumando o tripé da máquina fotográfica, com a bandeira na mão.

_ Porra meu! Levanta aí caralho! Gritei.

Maximo se negava em fazer tudo, não queria tirar foto, muito menos segurar a bandeira da Argentina. A foto que tiramos no cume do Plata foi meio forçada, ficamos sentados nela, pois meu amigo não queira ficar em pé. Era evidente que ele estava com mal de altitude.

_ Minha cabeça estava explodindo. Disse ele depois.&nbsp, Cada vez que me mexia, mais doía, foi foda!

Eu sei que forcei a barra com ele no cume do Plata, mas depois que ele havia chegado lá, tinha que registrar este feito. Eu sei que devia ter baixado antes, mas chegar lá e depois descer sem tirar um foto sequer poderia soar como se a gente estivesse mentindo sobre as nossas escaladas.

Várias vezes tentei animá-lo, dizendo que se ele colaborasse, tiraríamos as fotos o mais rápido possível e desceríamos o quanto antes. Uma hora ele se levantou, achei que tivesse melhorado, mas pelo contrário, ele vomitou, o que foi um sinal de que o edema estava piorando.

Ele tirou uma foto minha no cume logo após vomitar, saiu apenas o meu pé. Logo após isso começamos a descer. Ele negava ajudava, mas depois aceitou. Foi estranho o fato de meu relógio ter marcado a altitude errada lá em cima, mas é incontestável nossa vitória (Nesta época acreditava que o Plata tinha 6300 metros, o relógio estava certo!).

Continuei descendo com o Maximo, sem entender por que o mal de altitude atacou o “animal” e não a mim, que estava em condições físicas inferiores.

Aos 5500 metros encontrei um bilhete deixado pelos irmãos, diziam que haviam chegado até ali e pediam para marcar a altitude para eles. Aos 5 mil, chegando ao Portesuelo, Maximo já estava voltando em si, ele disse que no cume havia perdido a visão do olho esquerdo, um sinal que o edema já estava forte, um pouco mais se tornaria irreversível (6 anos mais tarde, Maximo perdeu 60% da visão deste mesmo olho nos Pamires do Tadjiquistão e o exame retinal mostrou que ele tinha várias cicatrizes na parte interna do olho).

Com a situação normalizando, voltamos ao acampamento em passos rápidos, voltei destruído, mal tive tempo de falar com o Alê e o Leo sobre a conquista, entrei na barraca e dormi. Enquanto isso, o “animal” havia voltado ao normal. Os irmãos ficaram horrorizados com as histórias que ele mesmo contou naquela noite, eu, esgotado, não participei da conversa.

Foi difícil pegar no sono aquela noite, sentia cheiro de ferrugem cada vez que respirava, estava um inferno aquilo. Novamente fez menos que zero dentro da barraca e eu dormi perturbado, naquele dia quase perdi um amigo.

Este relato foi escrito no dia 27/05/2000, ao lado da Ruta 3, na base do Monte Oliva em Ushuaia – Terra do Fogo, Argentina. Cerca de 4 meses depois que eu e Maximo descemos do Cerro Plata. Isso tudo aconteceu na mesma viagem, que foi realizada quase sem dinheiro e totalmente de carona ou à pé.

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Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

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