Moeses Fiamoncini: A falta de experiência é o que mata no Everest!

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Conversamos com o montanhista paranaense Moeses Fiamoncini, um dos dois brasileiros que fizeram cume no Everest nesta temporada. Ele conta o que viu nesta temporada marcada pelas filas no cume e 11 mortos. Moeses comenta também seus planos futuros e que irá escalar o K2 em Julho e tentar fazer as 14 montanhas acima do 8 mil metros do mundo.

O paranaense Moeses Fiamoncini foi um dos dois brasileiros que escalou o Everest este ano. Ele ficou conhecido no ano passado por ter realizado junto com o espanhol Sergi Mingote, a primeira ascensão do Manaslu daquela temporada. Fiamoncini tentou uma dobradinha no Khumbu, escalar além da montanha mais alta do mundo, também o Lhotse, pico vizinho que aos 8516 metros é a quarta mais alta do planeta.

Sua intenção era fazer ambas montanhas sem oxigênio, porém o Himalaia nem sempre permite que os planos virem realidade. Moeses conta para o colunista do AltaMontanha Pedro Hauck (que também esteve por lá) o que viu nesta conturbada temporada de montanha no Himalaia:

AltaMontanha: Moeses, este ano foi um ano atípico. Com muita neve na primavera do Himalaia. O mau tempo atrapalhou sua aclimatação?

Moeses Fiamoncini: As nevascas que aconteceram nesta primavera não atrapalhou minha expedição. Na verdade estávamos rezando para que nevasse ainda mais para que tivesse mais umidade no ar, pois havia muita gente tossindo e ficando doente por causa do ar muito seco. Eu mesmo tive uma infecção e tomei antibiótico e tive que descer pra Namche Bazaar para me recuperar, desci e subi caminhando e fiquei 8 dias longe do campo base.

Eu cheguei no dia 23 de Abril no Campo Base do Everest e nunca tive nenhum problema com mau tempo. Na verdade o único dia que realmente fez mau tempo foi o dia de cume. Na descida pegamos uma nevasca com ventos fortíssimos e o resto de toda temporada, na base e nos campos altos peguei tempo bom.

AM: Dizem que houve uma epidemia de gripe no Everest, é verdade?

MF: Sim, eu acho que houve muitas pessoas com problema de garganta, tossindo muito com amidalite e com gargante infeccionada. Muita gente tomou antibiótico por causa da gripe. Acabei ficando amigo do médico indiano da 7 Summits (agência nepalesa de montanhismo) e ele disse que realmente este ano muitas pessoas tiveram este problema. Um dos fatores que o pessoal estava me comentando foi devido a falta de nevar, pois o ar ficou seco e acabou atingindo as vias respiratórias e causando muita tosse nas pessoas.

AM: Você esteve com uma equipe forte, formada pelo Sergi Mingote, Juan Pablo Mohr e depois o Ali Sadpara. Nos conte como foi participar desta equipe e quem mais estava contigo na montanha?

MF: Nossa equipe foi formada pelo Sergi Mingote (Espanha) e Juan Pablo (Chile). Depois encontramos o Jorge Salazar Gavia do México, com muita experiência no Himalaia que fez mais de 9 expedições por aqui. Depois tinha também o Carlos espanhol. No final o paquistanês Ali Sadpara acabou se juntando. Ele já conhecia o Sergi e assim formamos este quarteto para escalar o Lhotse juntos. Acabamos dividindo todos os acampamentos para o campo 2, 3 e 4 e acabou ficando mais fácil carregar gás, barraca e todos os equipamentos de montanha pra cima.

Moeses Fiamoncini e Juan Pablo Mohr.

Pra mim que estou começando a escalar montanhas de 8 mil, participar de uma equipe desta com quase todos com muita experiência e muitas expedições nas costas foi um privilégio muito grande. Aprendi muito com eles e sou grato por ter feito parte desta equipe com grandes nomes, como o Ali, que é um dos melhores, senão o melhor montanhista do Paquistão.

Ali Sadpara, Moeses Fiamoncini e Kami Rita Sherpa, recordista de ascensões no Everest.

AM: Como foi seu ataque ao cume no Lhotse?

MF: Nós saímos no dia 12 de Maio do campo base, eu, Ali, Sergi e Juan Pablo. Passamos 2 noites no C2, fomos pro campo 3 e no dia seguinte mudamos a barraca do campo 3 e mudamos pro campo 4. No próximo dia saímos de madrugada rumo ao cume. O Ali saiu umas 3 da manhã, depois saiu o Sergi e o Juan Pablo eu acabei saindo uma 4 da manhã, tarde.

Eu pensei que ia conseguir alcançar as pessoas, mas não e fiquei por ultimo. Quando eu cheguei a 8300 o tempo mudou, começou a ventar muito e começou a nublar. Ali encontrei o Ali descendo com oxigênio. Ele me disse que eu ainda ia ter umas 2 horas de escalada. Como eram umas 3 da tarde eu chegaria no cume às 5 e em condições extremas e ventos fortíssimos. Foi uma decisão difícil, sendo que eu estava sentido forte e consciente.  Porém mais tarde percebi que foi uma decisão certa. Uma hora depois que comecei a descer os ventos ficaram ainda mais fortes e o tempo piorou.

Um pouco antes de descer encontrei o búlgaro, que dias depois acabou falecendo em nossas mãos e tive uma pequena conversa com ele. Deu pra ver que já no Lhotse ele estava mal. Depois o Ali me contou que tinha ajudado ele a pôr os dois crampons que estavam soltos.

O campo 4 do Lhotse está a uns 7740 metros. Ao sair do acampamento é mais ou menos uma reta só no gelo. Depois começa a ter rocha e gelo, aí você acaba saindo deste tramo e encosta na parte rochosa da montanha perto da canaleta. Quando você entra lá, desde a base até o topo há muita queda de rocha. Fui atingido algumas vezes, a maioria pedra pequena. Em uma das vezes que sentei pra descansar, recebi uma pedrada bem grande que só não me machucou pois caiu nas minhas costas e a mochila amparou. No dia que ataquei o cume da montanha haviam 11 pessoas, que não é muita gente. Imagine se houvesse mais gente tentando escalar! Estas pedras caem porque os montanhistas acabam soltando elas sem querer.

Muito perto do cume tem um cadáver sentado. Não cheguei até ele, mas meus amigo que fizeram cume disseram que ele está sorrindo… Ele está lá há alguns anos e ninguém remove, pois é muito difícil chegar lá e mais ainda descer um corpo congelado.

Essa canaleta é muito íngreme em qualquer ponto. Se você escorregar e uma corda arrebentar, você vai parar no campo 2.  Neste ano os sherpas fixaram a corda por lá até 200 metros antes do cume, o trecho final foi feito com cordas velhas, que podem se romper a qualquer momento.

Mesmo não tendo feito cume, pra mim foi uma experiencia incrível tentar fazer o Lhotse. Eu tava sozinho, sem sherpas e se sequer ter uma garrafa de emergência de oxigênio. Pude constatar que tenho uma resistência boa à altitude, pois mesmo não tendo feito a melhor aclimatação, não tive nenhuma dor de cabeça e isso foi uma experiência muito válida. Não é fácil estar nesta altitude e tomar decisões conscientes, por isso foi uma experiencia super válida.

AM: Após esta experiência no Lhotse, no entanto, você acabou decidindo ir pro Everest com oxigênio. Como foi tomar esta decisão?

MF: Desde que saímos do campo base pra fazer ataque cume no Lhotse e Everest, passamos 12 dias entre campo 2, tentativas de cume no Lhotse, cume no Everest e retornar ao campo base. Depois da tentativa do Lhotse, chegamos a pensar em descer ao campo base pra nos recuperar, mas acabamos passando mais 3 noites no campo 2 nos recuperando por lá mesmo. A cascata de gelo do Khumbu estava ficando perigosa por conta do calor, que provocava avalanches, isso sustentou nossa decisão em não descer. Não estava me sentindo 100% recuperado, o Sergi também não e por isso desistiu de ir pro Everest. Juan Pablo estava com um pouco de dor de garganta. Para não arriscar de perder o cume do Everest, decidi contratar um Sherpa. Ele iria levar minha garrafa de emergência caso eu precisasse, ele me auxiliaria. Queria tentar sem, mas ter este recurso se eu não conseguisse. Saímos do campo 2, fomos até o campo 3, onde estava meu macacão de plumas. Quando cheguei no campo 3 minha barraca estava ocupada e meu macacão não estava lá, estava embaixo no campo 2 e isso nos fez perder 1 dia.

Do campo 3, fomos dormir no campo 4 do Lhotse e de lá, no dia 22, nós subimos do campo 4 do Lhotse para o campo 4 do Everest. Lá descansamos umas 6 horas para depois sair, sem oxigênio rumo ao cume. Eu só fui usar o oxigênio muito perto da plataforma Balcony, a 8340 metros mais ou menos.

Moeses abaixo do escalão Hilary, paranaense não enfrentou fila no Everest.

Foi um ataque ao cume muito longo, visto que eu estava com o Juan Pablo e quando  comecei a usar O2 continuei no ritmo dele. Levamos 15 horas para chegar no cume do Everest. Quando chegamos lá já estava todo fechado o  tempo, tudo nublado, não vimos nada. Ficamos uns 15 minutos no cume e levamos mais 6 horas para descer para o campo 4.

Moeses e Juan Pablo Mohr no cume do Everest.

Descemos em condições extremamente perigosas, com uma nevasca com vento fortíssimo. Toda a corda fixa já estava coberta de neve e não foi fácil. A parte mais difícil foi descendo do Balcony até chegar no campo 4, pois as cordas estavam enterradas uns 15 cm debaixo da neve. Passamos mais uma noite no campo 4, onde dormi toda uma noite sem oxigênio.

No dia seguinte, descemos super carregados com todas as coisas carregadas dos campos 4 do Everest e Lhotse, foram uns 30 kg nas costas. Fizemos tudo sem O2, mas sentindo muito bem.

AM: Na matéria que saiu sobre o Everest no Fantástico, você conta que tentou resgatar aquele búlgaro que encontrou no Lhotse. Como isso aconteceu?

Nastya Runova agradece Moeses Fiamoncini por ele ter resgate ela no Everest

MF: Sim, realizamos um resgate, eu, Juan Pablo e Sergi no campo 4 do Lhotse de um búlgaro, o Ivan Tomov e uma russa, a Nastya Runova. Eu já havia encontrado o búlgaro na descida do Lhotse. No dia seguinte da minha tentativa de cume, quando estávamos nos organizando para descer até o campo 2, encontramos os dois que estavam muito mal. O Ivan quase não conseguia ficar em pé. Fizemos um sistema de rapel, onde eu e o Sergi ficamos ao lado auxiliando ele a descer, quando o Juan Pablo descia ele de baldinho. Ele não aguentava mais, estava muito frio. Como ele estava muito fraco, acabou caindo em cima de mim. O segurei e sustentei o corpo dele em cima dos meus pés. Neste momento, mesmo estando com oxigênio, ele já estava inconsciente, mas respirando. Fizemos uma maca improvisada, tiramos os crampons deles e neste intervalo, uns 15 ou 20 minutos depois ele faleceu em minhas mãos.

Meus pés já estavam congelando embaixo dele. O corpo era pesado, estávamos cansados. Foi uma decisão difícil, mas tivemos que deixar o corpo dele lá e focar na descida da russa e de nós mesmos. Pela exposição, se tentássemos descer o corpo do Ivan é provável que a gente tivesse congelamentos. Descemos a russa até o campo 3, onde os sherpas assumiram a evacuação dela da montanha.

Mesmo não tendo feito cume no Lhotse fique feliz, pois estou aqui agora para contar esta história sem congelamentos e vivo. Foi uma decisão sábia.

AM: Vamos lá. Agora é a polêmica da vez: A fila no Everest. O que você viu nestas filas, por que você acha que elas aconteceram?

MF: Nós já sabemos que estas filas acontecem há alguns anos. Isso não é novidade, mas a mídia escolheu falar sobre isso e tornou este fato um assunto internacional. Eu não peguei muita fila, na verdade peguei só um pouco depois de Balcony, mas dali em diante peguei só contra fluxo, pois como estávamos sem oxigênio, levamos muito mais tempo que as pessoas que estavam com. Como disse antes, usei oxigênio no caminho, mas acompanhei o Juan Pablo e segui o ritmo dele, sem o abandonar.

Sobre o porquê aconteceu estas filas gigantes no Hillary Step. Foram 3 dias apenas de cume, dias 21, 22 e 23. Oitocentas e pouco pessoas fazendo cume numa janela de tempo curta, deu no que deu… Mas olhe, pergunta difícil hein!

AM: Vc acha que a fila matou as pessoas no Everest?

MF: Eu estive conversando com o pessoal do “Rope Fixing Team” e eles estão pensando em fixar as cordas em Abril e no fim do mês estar com a corda até o cume, para deixar as cordas prontas para o mês de Maio ficar livre e assim não ser apenas 2 ou 3 dias para fazer, mas sim todo o mês. Pode ser uma solução.

Porém se foram as filas que mataram, eu acho que não! Acho que houve fatalidades. Sei que tem gente que diz que as filas acarretaram nas fatalidades, mas é fato que tinha gente muito mal preparada. Vi gente sem autonomia nenhuma para estar lá. Precisavam de ajuda para colocar o crampon e na ascensão não conseguiam jumarear nas cordas, desmontando e montando os ascensores quando haviam ancoragens ou nós. Eu vi algumas pessoas que morreram na base quando vivas e eles não tinham experiência.

Eu vi 6 corpos na montanha, além do búlgaro que morreu em nossas mãos! O primeiro foi de um russo que faleceu no ano passado no campo 3. Haviam acabado de descer o corpo dele para o campo 2 para ser evacuado e ajudei um sherpa a cobrir o corpo dele com pedras e uma lona. De acordo com a 7 summits, todos os corpos deste anos foram evacuados e estão em Kathmandu.

AM: Agora falando de futuro, qual é sua próxima expedição?

MF: Minha próxima expedição será no Paquistão, um país que sempre sonhei em conhecer. Sempre sonhei em fazer o trekking ao campo base do K2 e vou escalar a montanha.

É uma montanha muito técnica, estou preparado e confiante, mesmo com o mal tempo e as avalanches. Estamos com uma equipe boa. Será um recorde de brasileiros no K2, eu espero!

Depois do K2 vou escalar mais montanhas de 8 mil metros, aliás aproveito para divulgar que pretendo escalar todas as 14 montanhas do mundo acima dos 8 mil metros.

VEJA MAIS: Everest: Minha opinião sobre a polêmica das filas na montanha mais alta do mundo

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Sobre o autor

Redação - AM

Texto publicado pela própria redação do Portal.

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