Monte Roraima – final

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Contrariando minha otimista previsão feita ontem, o clima não melhorou. E assim saímos do acampamento Sucre debaixo duma chuvinha de molhar bobo que não dá mole durante as 3 horas e ½ de descida até o acampamento base.


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Veja a segunda parte do relato

Enquanto estou baixando, encontro pessoas subindo. Não resisto à curiosidade e faço a indefectível pergunta “where are you from?”. Conheço, assim, um casal de alemães, um irlandês, um belga, um chileno e uma indiana. Legal né?

Nem bem chego ao acampamento-base, às 10 e 45, quando desaba uma chuvarada de respeito, daquelas de encharcar o vivente até os ossos. Graças a deus, estou abrigada no paiol onde fazemos uma pausa pro almoço. Breve, porque a pernada continua até o acampamento Tek onde, então, poderemos descansar já que ali pernoitaremos. E, como sempre, Zartur, Simone e Valeria largam na frente. Estes três parece que têm um bando de onças em seu encalço. Bizarras criaturas que privilegiam a performance física à contemplação da natureza. Mas quem sou eu pra falar deles hein? É o roto falando do esfarrapado, ala putcha!! Quantas e quantas vezes não caminhei em passo acelerado? Tanto é verdade que no ascenso ao topo deste tepuy que acabo de descer, resolvi subi-lo em menos de 3 horas e meia. Portanto, deixa de ser linguaruda, respira fundo e trata de diminuir o passo. Pra que pressa? Vai tirar o pai da forca é?

Às 11 e 30 (essa neura estatística, de registrar horários de partida e chegada, é incontrolável), a caminho do Tek, já vislumbro as ondulações dos campos de savana enquanto desço por uma linda crista de montanha. Ultrapassado o acampamento militar, o aguaceiro retorna furioso, tornando super resvaladiça a descida feita no terreno argiloso. E minha nova bota, com seu solado grip deveras eficiente, segura o tranco que é uma beleza. E olha que desci rápido, tangida pela chuva, sem que ela escorregasse nadica de nada!

Quando chego ao local onde serão feitas as travessias do Kukenan e do Kamaiwa, constato que os dois rios estão bombando! Bem mais cheios que há 4 dias atrás, na passada do Kukenan, é necessário o uso de corda pra atravessá-lo, devido à forte correnteza. E cada rio exibe uma coloração diferente! Verde a do Kukenan e marrom a do Kamaiwa. Chegamos ao Tek, às 14 e 45, debaixo dum toró de respeito. Famintos, molhados e com frio, temos de esperar que a chuva cesse, de modo a permitir que os carregadores possam montar as barracas. Decorridos 45 minutos, a chuva pára, assim, de supetão. Viva o clima tropical!! E nosso acampamento, finalmente, é montado. Nesse meio tempo, somos inteirados de que um grupo está ilhado na outra margem do Kamaiwa. O rio, engrossado por uma cabeça d’água oriunda de sua nascente, subiu rapidinho 3 metros. E quase acontece uma desgraça!

Uma mulher por pouco escapou de ser tragada pela correnteza. A sorte dela foi que pôde ser puxada de dentro d’água pra terra firme porque estava quase próxima à margem. Segundo os indígenas, os rios demorarão de 2 a 3 horas pra baixar. Só então esse grupo conseguirá cruzá-los. Dou um doce se vocês adivinharem o que foi servido na janta!! Hahaha…isso mesmo!! Massa!! Mas com salsichas, dessa vez!! Ahmmm….tudo de bom molho de “salchicha” como diz um amigo meu, hehe. Chico oferece caxiri. Provo e não gosto da tal aguardente feita de mandioca, motivo por que mal molho o bico. O acampamento Tek está cheio de turistas, incluídos aí alemães e poloneses com quem bato um papinho. Os três são jovens e fortes, em especial a mulher que considera o trekking “very easy”. Declara isso soltando sonoras risadas, no que é secundada por seus dois companheiros que lhe fazem coro. Bem alegres os polacos da Cracóvia. Mas qual turista não é alegre, não é mesmo? Tudo é festa quando se está de férias!

Sexta-feira, último dia de pernada, o dia acorda nublada, pra variar. E quando já estamos na trilha, tendo deixado pra trás o acampamento Tek, vemos Barbara e Betina sendo resgatadas de helicóptero!! Siiimmm!! A primeira, já no segundo dia de topo no Roraima, sentiu um incômodo no olho que foi se agravando a cada dia que passava. Vermelhíssimo e inchado, o olho vertia lágrimas que nem aquelas duas cachus do Roraima. Barbara, inicialmente, supôs que fosse um cílio a causa de tanta irritação. Agora, o palpite é que talvez seja seratite. E isso feito por mim!! Que não sou médica, pode? Bárbara, embora médica – infectologista -, se entregou nas mãos dos curandeiros, hehe, de tão baratinada está! Já Betina fez bolhas nos pés e de nada adiantou o quase sempre infalível método de costurá-las. Inflamaram a tal ponto que a pobre coitada mal consegue andar.

Um helicóptero vindo de Santa Elena levará as duas queridas até esta cidade onde uma van as conduzirá a Boa Vista onde já tem até oftalmo aguardando Bárbara. Vou rezar pra Santa Luzia proteger essa guria!! Caminho quase o tempo todo com Brigitte. Alto astral, a alemã, filha duma gaúcha, revela-se uma agradável companhia. Lastimo não ter convivido mais com outros membros da expedição, como os discretos coreanos Chang e Sung Mi. Infelizmente, quando o grupo é grande, impossível curtir bem todo mundo. Há que se escolher. Optei pela companhia dos solteiros ou desacompanhados como eu, deixando um pouco de lado os casados. E não é que São Pedro se condoeu de nós e só largou o chuvaral quando já estávamos bem baixados em Paraytepuy, bebericando a geladésima cerva que Magno, o dono da Roraima Adventure, gentilmente, nos enviou?

Durante a viagem de retorno a Boa Vista, seu Ananias, o motora de nossa van, conta que chove não só na Venezuela, como em todo o Brasil, com inundações no Rio Grande do Sul!! Pobre de meu estado! Em São Francisco, paramos pro almoço. Escolho uma comida típica venezuelana chamada Pabellion. O PF, uma mistura de arroz, feijão, carne desfiada mais banana verde frita, é o tipo da comida que meu pai chamava de engasga-gato. Farta, boa e barata, hehe!! Nova parada em Sta Elena onde compro numa bodega duas garrafas do excelente rum venezuelano, comparável, em qualidade, aos famosos cubanos. Chegamos em Boa Vista às 20 e 30. Após um banho rápido, nós, as solteiras do grupo – Val, Lili, Brigitte e eu – vamos jantar no Peixe Mania. Dourados e tambaquis grelhados, regados a caipirinha, são devidamente saboreados por nós!

No sábado de manhã, Brigite e eu damos uma banda até as margens do rio Branco, onde descobrimos um centro de artesanato. Lá, uma simpática vendedora discorre sobre a utilidade do tipiti, o tubo de cipó usado na extração do tucupi e da goma da mandioca. Dos resíduos sólidos é feita a farinha – aqui no norte – bem amarela cujos grãos duros e graúdos exigem cuidado na mastigação. E fico sabendo pela mesma vendedora que os macuxis, etnia indígena dominante na cidade, são muito temperamentais no trato. Com um traçado urbano planejado, Boa Vista, capital de Roraima, conta com uma população que não alcança 400 mil habitantes. Esteticamente, a capital de Roraima, é desprovida de charme, embora seus moradores – a maioria com sotaque nordestino – afirmem ser tranqüila demais. “Você pode caminhar desassombrada à noite, moça, sem medo de assalto, viu?” Temperatura agradável, impregnada dum calor bom. Por telefone, Bárbara, ainda na cidade – seu avião parte à tarde – conta que seu olho fez uma úlcera, causada não só pela altitude quanto pela recente cirurgia de miopia a que se submeteu. À tarde vou até o mercado do produtor, lugar sujo e sem grandes atrativos. Uma grande feira de hortaliças e frutas. O bom do passeio foi tomar água de côco e lamber um sorvete de banana trigostoso. A tardinha, me despeço de Rio Branco, bebericando uma caipirinha num restaurante ao ar livre. Como meu vôo sai às 2:25 da madrugada de domingo, hay muito tempo pra gastar até lá!

Primeiras impressões sobre a paisagem roraimera

Durante minha permanência no Monte Roraima, está gravado em minha retina um ambiente em preto e branco deveras sombrio. Essa impressão talvez se deva àquela tonalidade acinzentada dum céu pejado de nuvens. E às esculturais formações rochosas cobertas por espessas crostas de escuros líquenes. Suponho que, mesmo com sol, a paisagem se mantenha sóbria. A chuva miúda que caiu, durante os três dias sobre o tepuy, lembrou-me confete, o que conferiu, vá lá, um toque de prateado ao estranho carnaval que desfrutei no alto desse platô descolorido.

Emburrado, o céu permaneceu sem dar pinta de seu azul durante os 6 dos 7 dias que percorri as terras venezuelanas. De volta à casa, sinto ganas de ler Lost World, de Conan Doyle. Temo, porém, a influência da palavra certeira do grande contador de estórias. Vá que tente imitá-lo e resulte solamente una pífia versão da indiada por mim protagonizada. Não suportarei a humilhação de tal comparação. E, procurando músicas que sirvam de trilha sonora a certos vídeos que pretendo editar sobre o trekking, escolho, casualmente (?), Piazzolla. A melodia derramada, dramática, tem tudo a ver com o desolador cenário roraimero, agora, tão distante, geograficamente, pero freqüentador ainda assíduo das minhas recordações. Salvo alguns laivos coloridos de vegetação que brotam parcimoniosos aqui e acolá, sobressai soberana a infindável sobreposição escura de pedra sobre pedra. Suas superfícies duras e ásperas ao toque remetem aos estéreis amores desfeitos e às intermináveis noites insones amargadas por quem foi destratado.

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