Monte Verde, paraíso mental e natural

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Semana passada troquei e-mails com o Pedro e compartilhei que precisava de uma dose do que os norte-americanos chamam de “some time off”, “a break”. É engraçado um desempregado dizer isso, mas eu precisava realmente desligar um pouco a mente de tanta coisa doida que vem acontecendo, escolhi este verdadeiro paraíso brasileiro, Monte Verde.

Tácio e Pedro não podiam ir e no fundo acho que foi até melhor assim, pude refletir bastante sobre a vida e sobre tudo que rolou nas últimas semanas. Monte Verde me pareceu e continua parecendo um lugar singular pra isso, e ainda tem a vantagem de ser bem perto e barato de se ir.&nbsp, Mais um motivo também me arrastava pras montanhas, testar a bota nova. A minha Revo GCS GTX da Salomon tinha um erro de projeto que causou um ponto de fratura na bota e rasgos idênticos nos dois pés. Tácio me deu a idéia de entrar em contato com eles que poderiam trocar. Após muita insistência, 2 meses de troca de telefonemas e e-mails, ajuda pra contatos do Luiz da Ecotrek onde comprei a bota, finalmente consegui uma bota nova por garantia! Na quinta-feira recebi um modelo diferente de cano mais curto, muito bonita e design que lembra um pouco a Nômade Titã. Bota muito boa, e não tem o mesmo erro cometido na que eu tinha. Gostei muito!


Bem, continuando: Peguei um ônibus até Camanducaia sexta dia 10 cedinho, 07:30h. Cheguei lá às 09:50h e já pulei pro segundo ônibus que me deixou em Monte Verde às 10:45h. Comprei uma garrafa de água de 1,5 litros e já comecei a andar. Lentamente, sem pressa. Eu não estava lá pra fazer cumes, estava lá pra desfrutar no ambiente de montanha, buscando solidão e relaxamento. Depois de mais ou menos meia hora cheguei no começo da trilha pro Platô, Pico Chapéu do Bispo e Pico do Selado, na caixa d’água. Dei uma parada, marquei o ponto no gps e comecei a subir.


É incrível como ociosidade e excesso de peso cansam, no ultimo mês ganhei 4 kg por comer muito e ficar em casa, nada de emprego e isso acumula peso. Esses 4kg ganhos tão rapidamente fizeram uma baita diferença e jogaram minha resistência física lá pra baixo, as trilhas de Monte Verde são as mais fáceis que conheço no Brasil e mesmo assim cansei um pouco pra chegar lá, muito, muito calor, acredito que algo em torno de 30 graus. Por agora estava tudo bem porquê não tinha pressa, a previsão do tempo era boa então fui com calma, tranqüilo. No frio meu rendimento é incalculavelmente melhor, então vou começar umas caminhadas urbanas durante a semana e entrar na dieta!


Depois de suar feito garrafa de coca-cola gelada fora da geladeira cheguei ao cume do Platô e fiz uma medição com gps no cume dele pela primeira vez, deu muito a mais que a divulgada na cidade (1.900m), encontrei a altitude de 1.948 metros. O tempo estava péssimo no sentido de muita neblina então abortei a idéia de dormir no Selado, mesmo sem alteração da pressão e sem previsão de chuva, de nada adiantaria ir até lá e não ver nada. Resolvi acampar ali mesmo no Platô já que nunca havia acampado ali, das outras vezes acampei na rua antes da caixa d’água e em outra vez no Selado.


Montei a barraca, fiz foto de uma aranha que resolveu se exibir pra mim, de um gorgulho bem grande, flores como brinco de princesa (a serra está cheia de brinco de princesa!) e bromélias, depois comecei a relaxar. Sentei, tirei a camisa e entrei em sintonia com o ambiente. Pensei, repensei…relaxei…deitei na laje de rocha e dormi quase instantaneamente, acordei com meu próprio ronco quarenta minutos depois!


Subi com bastante peso até pra dar uma acordada nas pernas e pulmões, até meu computador levei pra aumentar o peso em mais 1,5kgs e acho que a carga toda deu uns 25kg, duas mochilas. E já que este “retiro” também tinha gosto de comemoração póstuma solitária de aniversário (dia 1º de dezembro completei 33 anos), achei que não seria demais levar o pc pra ver um filme antes de dormir. Portabilidade traz conforto. Também poderia ver as fotos já em 14” logo depois de tira-las!


Logo depois que acordei um casal passou por lá, ofegantes me perguntaram se estavam no Platô e eu confirmei. Pena que não tiveram visual nenhum, ainda estávamos dentro das nuvens. Bati um rápido papo, dei um adesivo do altamontanha, eles desceram e eu voltei pra barraca. Fiz mais algumas fotos e decidi ir de ataque ao Selado na esperança de o tempo abrir rapidamente ou de estar aberto lá já que ele é mais alto que o Platô cerca de 150 metros.


Dali é bem rápido então fui, quarenta minutos depois estava lá. Nada, não via nem o topo da rocha desde sua base onde acampei quase dois anos atrás. Nem subi a rocha do cume. Voltei, passei pelo Platô e estiquei até o Chapéu do Bispo. Mesma coisa. Subi a chaminé até o cume e também não tinha visão nenhuma, nem dez metros à frente. Desci e voltei pra barraca.


Lá chegando entrei na barraca e dei uma arrumada na bagunça de casa, comi um bolinho que levei e fiz algum suco. Assim que terminei o lanche escutei barulho de passos pesados e saindo da barraca notei um jovem cavalo rodeando o Platô, comendo mato. Saí, em dois minutos um vento veio e limpou tudo. Incrível, o tempo abriu! Pude ver um fantástico mar de nuvens ao sul, e nesse momento outro casal apareceu. Este mais comunicativo, batemos um papo mais longo, fiz duas fotos pra eles e deixei adesivo também. Nos despedimos e eles desceram com intenções de subir a Pedra Partida na manhã seguinte.


Eu comecei um verdadeiro ensaio fotográfico do cavalinho e sua mãe que aparecera também. Depois de alguns minutos mais outra mãe e seu filhote chegaram ao Platô, agora eram quatro cavalos! Fiz minhas fotos de aniversário com o Parofito ao meu lado, eu usando um chapéu de aniversário e com uma língua de sogra na boca hehehe (na foto acabou parecendo um cigarro mas eu não fumo absolutamente nada, sem conclusões por favor! Não sustento indústria de câncer nem traficantes!). Enfim, fiz dezenas de fotos dos cavalos em poses e visuais diferentes. Foi muito legal, só nós na montanha, ninguém mais apareceu por lá. Subir na sexta-feira me deu vantagem estratégica sobre o número de pessoas que passam por lá.


A noite estava chegando e com ela o pôr do sol, de onde eu estava não veria de fato o sol se pondo, mas poderia ver as cores nas poucas nuvens que estavam sobre o Pico do Selado no momento. Saíram fotos bem bonitas até.


A noite caiu, iluminei a barraca e fiz fotos noturnas dela e fui surpreendido com uma quantidade enorme de vaga-lumes pelo Platô! Inclusive, por pura sorte, alguns deles passaram pela frente da foto durante a exposição e foram pegos de relance, parecendo&nbsp, pequenas estrelas junto da barraca. Compreensível já que insetos são atraídos por luz. Agora imagino, se alguns foram pegos com a “bunda brilhando” na foto, quantos estavam com a “bunda apagada”?! Fiz mais algumas fotos e entrei na barraca. Cinco minutos depois novas nuvens chegaram e fui novamente cercado por elas. Liguei o note, preparei um lanche, fiz um vídeo e mais tarde fui dormir já quase onze da noite.



Arquivo X na barraca!


Acordei de madrugada com um sonho bizarro de que mortos-vivos tentavam entrar na barraca, um susto do cacete ahahahahahah….Depois de que me dei conta de que era um sonho em dois ou três segundos comecei a rir…Que comédia. Voltei a dormir e acordei cedinho, seis da manhã. Comecei a arrumar as coisas pra descer. Fiz as últimas fotos na montanha e iniciei a decida 07:40h.


Cheguei a cidade era 08:40h ainda, bem cedo. Assim tive sorte de fazer algumas fotos ainda sem o movimento normal de sábado em Monte Verde que sempre é muito movimentada, depois fui caminhado até a entrada da cidade onde esperei pelo ônibus que passaria uma hora mais tarde. Sentei ali na estrada e observei a cidade ganhar vida à medida que os minutos passavam…


O ônibus veio e eu fui embora, chegando em São Paulo em casa às 16:00h depois de três ônibus e metrô. Foi legal ir pra montanha só pra pernoitar, sem me preocupar com nada, com busca por emprego, com o assalto que sofri semana retrasada, com as entrevistas de emprego infrutíferas, com a maldição desta cidade de pedra de lixo…


Esta provavelmente foi minha última viagem pra montanha do ano. Fiz um balanço e algumas anotações e cheguei a um total de 129 dias de viagem durante este ano e 36 montanhas culminadas. Não acaba por aí, dia 19 eu e lili vamos pra Buenos Aires e de lá vamos dar uma passada no Uruguai pra conhecer um pouquinho, serão mais 7 dias de viagem pra passar o natal com os hermanos e sozinhos pra mudar um pouco a rotina de sempre estar com a família.


Foi um ano muito bom pra mim mesmo depois de toda dificuldade financeira que estou passando depois da decisão que tomei. Colocar em prática os planos de abandonar o emprego em dezembro de 2009 não foi fácil e exigiu de mim frieza em alguns momentos, mais do que nas vezes anteriores que fiz isso de deixar emprego. Reconheço. Também me causou transtornos, insegurança, incerteza e até tristeza. Tive que entregar a casa que tinha alugada aqui em São Paulo por falta de grana. Fiquei muito abalado por causa disso pois gostava muito de lá, quem me visitou em casa conheceu e viu o cuidado que eu tive de preencher as paredes vazias com quase duzentas fotos de montanhas, paisagens, mochiladas e cumes. Sinto muita falta disso, mas nem tudo poderia dar certo. A vida é assim.


Considero o ano de 2010 um marco pra minha vida, um marco de auto-conhecimento, de abrir os olhos e ver coisas erradas, momento de deixar de ser trouxa e dar um basta nestas coisas erradas e o fiz sem titubear, de arrependimento, de conquistas, de dificuldades, problemas de saúde repetidos e um dedão congelado (que ainda está sarando!), muitas coisas boas, o convite pra ter esta coluna, de conseguir evoluir em minhas fotos, como montanhista e como pessoa.


É isso aí, 2011 promete mais. Feliz natal (mesmo não comemorando natal que significa comemorar o nascimento de Jesus Cristo tido como um salvador quando na verdade os Fatos Históricos provam que ele foi um grande agitador político, nada mais que isso, {Este texto não tem como pretensão iniciar discussões religiosas, portanto saibam que eu respeito a fé alheia mas respeitem meu ceticismo certo?} mas não custa nada dizer a expressão “feliz natal” para todos que possuem fé e gostam de escutar, ou ler) e um ótimo ano novo pra todos!


Não se esqueçam, se vocês desejam paz, harmonia com a natureza e a companhia de cavalos (não beba da água que tem em um córrego antes do Platô, levem sua água desde a cidade!) visitem Monte Verde, além de seis montanhas fáceis e de um visual bem bonito, o pôr do sol e o nascer do sol de lá são fantásticos. Durante a semana a tranqüilidade é incomparável. Nos finais de semana e inverno centenas de pessoas passam pelo Platô e Pedra Redonda, dormir na Pedra Partida ou no Selado garantem isolamento e calmaria. Mais um detalhe: montanha é montanha, não importa a altitude.


E mais uma vez, viva a liberdade nas montanhas!


Abraços a todos,


Parofes


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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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