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Entrevista com Walter Bonatti - O alpinismo da minha época está morto

7/4/2008 - 12:06   Bookmark and Share

 

O alpinista italiano Walter Bonatti, que recentemente recebeu o prêmio da Sociedade Geográfica Espanhola, fala de sua polêmica expedição ao K2, do alpinismo de hoje e dos Jogos Olímpicos.

Um alpinista excepcional! É o melhor adjetivo que podemos encontrar para este que foi absolutamente tudo no alpinismo em seu tempo. O melhor, o mais valente e o mais criativo são algumas das frases ainda ouvidas pelos montanhistas.

Walter BonattiConquistou ao menos uma via em cada uma das montanhas mais selvagens e famosas do Mont Blanc (Angle, Brouillard, Freney, Dru e Jorasses). É, ao lado de nomes consagrados como o de Messner, considerado um dos melhores alpinistas de todos os tempos.

Walter Bonatti nasceu no dia 22 de junho de 1930 numa família trabalhadora na elegante cidade italiana de Bérgamo. Cresceu em Monza, onde acabou marcado pela Segunda guerra Mundial e pela fabulosa Alben, uma pequena montanha que durante suas férias alimentava suas ânsias por aventura.

Confira abaixo uma entrevista com este grande nome do montanhismo mundial:

:: Você cresceu nos anos quarenta, em plena Segunda Guerra Mundial, como que durante um tempo tão difícil conseguiu tornar-se um montanhista?

Veja: vivi e sofri a segunda grande guerra em meu próprio corpo. Vi muitas pessoas morrerem, inclusive a execução do Mussolini. Tinha 15 anos e o mundo que se desenhava para mim era terrível, sem expectativas e sem esperanças. Assim, busquei meu refúgio pessoal nas montanhas.

Repare que mina visão das montanhas é bem diferente daquela que muitas pessoas e jornalistas querem impor, como sendo de horror e riscos iminentes.

Em minha época, assumir os riscos era a única maneira possível de conceber o alpinismo com os meios tradicionais, sem ajudas de nenhum tipo.

Walter Bonatti:: E como você vê as expedições comerciais da atualidade? Que créditos elas merecem?

Quem sou eu para julgar o que fazem os outros? Não gosto de falar coisas que outras pessoas possam interpretar como mau julgamento de alguém. Porém creio que o alpinismo tradicional, da minha época, está morto.

Ocorreu uma ruptura no mundo da montanha em algum ponto entre a minha época e a atual.

Antes havia regras que respeitávamos e agora não existe mais um código de honra. Escalar montanha como fazem agora já não me traz sentido... Quiçá podemos dizer que seja radical! Digamos que existam uns 20 % de montanhistas que ainda praticam o verdadeiro alpinismo.

:: E o respeito ao meio ambiente e aos valores naturais da montanha?

Respondo-lhe com uma frase que não é minha: "O homem ou aprende a viver ou será o final de tudo". Infelizmente, o ser humano não é consciente do perigo a que está sendo exposto.

:: E o que te parece à situação no Tibet? E os protestos que estão ocorrendo contra a China e os Jogos Olímpicos?

Me indigna e considero que os países ocidentais estão se submetendo ao poderio econômico da China, deixando de lado os Direitos Humanos. Além disso, o problema se agrava quando se trata de uma competição como a Olimpíada, cujo legado é o "Jogo Limpo".

:: O que a montanha representa para você?

Para mim é um símbolo de vida. Cada um tem sua própria montanha particular e deve tentar superá-la com todas as suas forças, respeitando sempre seus próprios princípios.

:: Você tem alguma montanha predileta?

Já vivi grandes momentos na montanha. Entre estes, guardo com muito carinho as recordações da via que criei em 1955, no Dru (Alpes).

:: E o K2?

Foi também uma grande honra formar parte da primeira expedição ao K2. Apesar de logo ter chegado à polêmica... Porém é uma amostra que no final, quando as coisas são feitas com honestidade e coerência, tudo acaba bem.
(Bonatti foi acusado de usar parte do oxigênio que levava para seus companheiros - Lacedelli e Compagnoni. O tempo, depois, lhe deu razão.)

:: Em 1965 você abandonou a montanha. A que se dedicou?

Decidi mudar minha visão vertical da vida por uma mais ampla, de 360 graus. Dediquei-me a viajar pelo mundo com a ajuda de meu amigo Arnaldo Mondadori, proprietário do Diário Época (italiano). E sempre viajei com a humildade suficiente para aprender muitas coisas com as pessoas dos locais que visitei. E hoje em dia ainda mantenho o sonho por viajar.

 
 
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