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A agonia dos gigantes dos Andes

23/2/2007 - 11:13   Bookmark and Share

 

Em 2020 terão desaparecido todos os glaciares de menos de 5.500 metros de altura. O nevado Pastoruri hoje é somente uma camada de gelo e lhe restam uns 10 anos de vida.

Em 2020 terão desaparecido todos os glaciares de menos de 5.500 metros de altura. O nevado Pastoruri hoje é somente uma camada de gelo e lhe restam uns 10 anos de vida. Se todos os glaciares desaparecerem, se tornará rara a água no território peruano.

Derry Díaz.





Pastoruri. O belo nevado huaracino (da região de Huaraz), se trasforma cada vez mais em uma montanha rochosa. Clique na imagem para ver infografia.

Desde há alguns anos, a maioria dos pesquisadores do mundo coincidiram em responsabilizar o homem por ocasionar a morte dos glaciares, aqueles gigantes de gelo que representam a principal fonte de água doce em estado sólido. Porém os mais obtusos não queriam acreditar embora tivessem diante de seus olhos a grande evidência: a desmedida contaminação produzida pela emissão de gases industriais.

Se negavam a admitir que esta situação era a que causava o aumento da temperatura, produzindo-se assim o degelo ou a morte dos glaciares. Os mais obstinados preferiam acreditar que este fenômeno era parte de seu ciclo natural, quer dizer uma agonia justificada.

O polêmico dilema se manteve até que as Nações Unidas, através do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, deu seu veredito: o aquecimento global é originado pela irresponsável mão do homem.


Testemunho presente

Marco Zapata Luyo, diretor de Glaciologia do Instituto Nacional de Recursos Naturais do Peru (Inrena) estuda os glaciares há 37 anos e tem sido testemunha da agonia das montanhas da Cordilheira Blanca (Áncash), a maior cadeia de nevados tropicais do mundo, que constitui o melhor indicador de medição do efeito do aquecimento global.

Zapata praticamente convive com os glaciares, pois os estuda desde 1970. Precisamente em meados dessa década (1977) já alertava sobre o acelerado processo de descongelamento dos glaciares, que começavam a perder 22% de sua superfície. Mas era uma voz solitária, pois a maioria de seus colegas faziam ouvidos surdos para a advertência. Inclusive o qualificavam de apocalíptico, exagerado.

Os anos e o aumento das temperaturas lhe deram a razão.


As vítimas

O estudo do Inrena é terrível: até 2020 deixarão de existir os glaciares localizados a menos de 5.500 metros de altitude. A primeira vítima da qual se tem registro é o Broggi, desaparecido em 2005. O Quelccaya, o maior nevado tropical do mundo, perde 60 metros por ano e também vai a caminho de extinguir-se. E sem falar da cordilheira Barroso, em Tacna, aonde não resta rastro de nenhum glaciar.

O Pastoruri, o glaciar simbólico da Cordilheira Blanca localizado a 5.240 metros sobre o nível do mar, sobrevivirá somente 10 anos, não mais. Antes nevado emblemático de Callejón de Huaylas, hoje é só uma esquálida camada de gelo bordeada por desérticas áreas rochosas aonde nada floresce.

Lonnie Thompson, um geólogo norte americano que estuda o degelo nos Andes e na cordilheira asiática do Himalaya, também adverte que os glaciares tropicais como os peruanos são os mais suscetíveis a derreter pelo efeito do aquecimento global.


ANÁLISE

"É um processo irreversível"

Marco Zapata Luyo. Diretor de Glaciologia do Inrena

O homem é quem está depredando seu próprio planeta. Os glaciares tropicais (que são os que existem no Peru por encontrar-se próximo à linha do equador) são muito mais sensíveis que o Himalaya (o Everest, com certeza, tem perdido muito gelo). Este processo é, lamentavelmente, irreversível por culpa das irresponsáveis emissões acumuladas há muitos anos. Além de que já foi advertido que o Peru é o terceiro país do mundo mais vulnerável aos efeitos do aquecimento global.

A Presidência de Conselho de Ministros tem pedido informação sobre este tema que deveria ser atendido pelas altas autoridades já que se trata do futuro desta geração. Nos antecipamos há muitos anos ao alertar sobre a situação dos glaciares, muito antes da divulgação do documentário ("A Verdade Incômoda") que alerta sobre o aquecimento global e seus efeitos.


Consequências

O Conselho Nacional do Ambiente (Conam) no Peru alerta que uma das consequências do desenfreado processo de descongelamento é a perda de uma das principais reservas de água doce em estado sólido, em especial nas épocas de seca. Mas este processo também é perigoso porque o degelo origina a formação das denominadas lagunas "colgantes" sem canais, dispersas. Estas originam enchentes que atingem as comunidades rurais situadas nos arredores.

Se a região desértica ficar sem água, haverá um grave problema. É por isso que o Conam prepara ações estratégicas dirigidas a preparar o país para enfrentar os impactos deste problema mundial. Os efeitos do desaparecimento dos gigantes andinos serão sentidos em todos os setores, desde o turístico até o ecológico. Porém acima de tudo terá se perdido a beleza que estas montanhas davam a nossas paisagens. E todos nós somos os culpados.


Matéria publicada no Jornal La República - Peru em 22 de fevereiro de 2007

 
 
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