No cume da Sexta Mais Alta Montanha do Mundo

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Por momentos me senti invencível até que o Victor nos lembrou que escalar uma montanha siginificava chegar no seu topo e voltar a sua base e que só havíamos feito metade do caminho…


No cume da Sexta Mais Alta Montanha do Mundo

22-09-09

Como a caminhada ao campo 1, agora já aclimatados e leves, demoraria apenas 3 ou 4 horas, cada um de nós saiu em horários diferentes. Eu e e a Andrea fomnos os últimos a sair e caminhamos vagarosamente, poupando energia. Chegamos ao campo 1 às 3 da tarde prontos para descansar, mas um trabalho duro nos esperava. Nesses dias que nossa barraca ficou ao sol, o gelo embaixo do piso derreteu e o terreno ficou tão irregular que não era possível dormir. Tiramos a barraca do lugar, cavamos o gelo e preenchemos os buracos com neve até que a plataforma estava novamente habitável. O tempo continuava lindo com céu azul e sem vento. Precisamos de apenas mais 2 dias de tempo bom!

Nos dedicamos então a hidratár-nos e comer o que conseguirmos, pois amanhã já estaremos acima de 7.000 metros e o apetite desaparecerá.

23-09-09

Apesar de eu achar que já tinha levado quase tudo o que precisava para o campo 2 fiquei surpreendido com o peso da mochila. Além disso tem o peso que está no corpo: as botas duplas com 3 quilos, a cadeirinha com mosquetões, os crampons e as roupas pesadas no corpo.

Saimos as 7 e meia da manhã com bastante frio, apesar do céu azul, com planos de chegar ao campo 2 no máximo à uma da tarde. Com isso teria ao redor de 8 horas de de descanso antes de sair para o cume. Após meia hora de escalada encontrei o Lui se queixando de muita dor nas mãos por causa do frio. Tinha saído com luvas finas e a manhã estava realmente gelada. Tirei suas luvas e coloquei suas mãos nas minhas axilas enquanto abria um pacote de hand warmers (pequenos envelopes de substância química que ao reagir com o ar produzem calor) e pegava minhas luvas mais grossas. Após vinte minutos de muita dor suas mãos esquentaram e prosseguimos. Subi o obstáculo entre o campo 1 e o 2, o Ice Cliff. Desta vez, bem mais aclimatado, consegui subir com muito mais facilidade. Cheguei ao campo 2 as duas da tarde e fui imediatamente para a barraca para me hidratar e descansar. Por duas horas eu e a Andrea derretemos litros de neve e comemos um pouco, o máximo que nossos estômagos aceitavam a esta altitude extrema. O plano era sair a meia noite de modo que eu teria 8 horas para descansar antes do grande dia. Quando já estava pronto para dormir o Marco veio de barraca em barraca avisar que o Victor tinha decidido antecipar a saida para as 10 e meia da noite. Já há vários dias que todas as expedições sabiam que o dia 24 era o que a previsão metereológica tinha avaisado ser o melhor dia de cume e todos tinham acertado seus planos para subir nesta mesma noite. Com isso, o Victor achou melhor sair mais cedo para tentar evitar as filas nas cordas fixas da Yellow Band, uma área de rochas um pouco acima do campo 3. Desde a tragédia de 1996 quando 10 escaladores morreram no Everest em parte por causa dos congestionamentos nas cordas fixas próximas do cume que este tipo de situação é temido e evitado.

Com este novo horário de partida, tinha apenas 4 horas para dormir, pois o preparar para sair em alta montanha raramente tarda menos do que duas horas entre derreter neve, tentar comer algo e se vestir e equipar. Apesar da ansiedade crescente, consegui dormir superficialmente por algumas horas e despertei um pouco mais descansado às 8:30 da noite quando tocou o despertador. As próximas duas horas passaram muito rápido, mais do que eu posso recordar. Só sei que às 10:30 da noite metade do grupo já estava do lado de fora das barracas colocando os crampons. Pela primeira vez vesti meu down suit, o traje integral de pena de ganso sobre duas camadas de roupas térmicas, coloquei a máscara de oxigênio com fluxo de 2 litros e saí do calor da barrca para enfrentar o frio de 7100 metros. A noite estava estrelada e sem absolutamente nada de vento, mas mesmo assim fria. Tinha vontade de urinar, mas só de pensar no trabalho com o down suit e a cadeirinha acabei desistindo.

Na confusão da escuridão cortada pelo facho das lanternas de cabeça vi que o Victor já estava saindo acompanhado de 2 ou 3 outros. Acabei de me arrumar, me despedi da Andrea lhe desejando boa sorte e comecei a caminhar. Após 50 metros de plano iniciei a subida que levaria 400 metros mais acima ao campo 3 e me surpreendi com a facilidade com que ganhava os metros verticais por causa do oxigênio. Acima de mim, podia ver uma longa fila de luzes que iam até se misturarem com as estrelas. Mais expedições tinham tido a mesma idéia que nós de sair cedo. Não reconhecia ninguém e não sabia quem era de nosso grupo e quem não era. Tudo se resumia a escuridão com vultos, todos vestidos da mesma maneira, down suits vermelhos cobrindo todo o corpo e o rosto encoberto pelas máscaras de oxigênio.

Conforme fui caminhando, comecei a sentir um desconforto cada vez maior por causa do calor. O que mais temia estava acontecendo. Tinha me vestido com demasiadas camadas e como ainda era razoavelmente cedo, antes da meia noite, não estava frio o suficiente para todas as roupas que estava usando. A sensação de calor foi minando minhas energias e minha velocidade foi caindo assustadoramente. Tirar alguma camada era impensável. Teria de parar, tirar os crampons, as botas, o down suit e isso, além do extremo gasto de energia, me exporia ao frio da noite à quase 7500 metros. Para piorar a situação minha lanterna quase apagou e não conseguia colocar os pés de maneira eficiente nas pegadas deixadas pelos que tinham ido na minha frente e escorregava com frequência. Tinha uma lanterna sobressalente, mas para pegá-la teria de parar, tirar a mochila, buscar a lanterna e nesta altitude onde cada pequeno movimento significa ficar ofegante por alguns minutos o simples fato de pegar uma lanterna era algo que estava além do que eu podia pensar. Mas, além do cansaço, nesta altitude sentia uma espécie de preguiça mental, só de pensar em parar e fazer algo já me dava um desanimo extremo, então continuei mesmo sem enchergar muito. Achei que ia encontrar com Victor e o resto do grupo no campo 3 e concentrei todas minhas energias em ganhar esses 400 metros para dai poder parar junto com o grupo. Fiquei amargamente desapontado ao chegar ao campo 3 e ver que o grupo não estava mais lá. Não sei se tinham parado e já partido ou se nem haviam parado. Sentei na neve e fiquei pensando no porque estava lá. Não estava escalando, estava simplesmente caminhando em uma interminável encosta.

Não estava me divertindo, estava apenas sofrendo com o calor, com a falta de oxigenio, no escuro, sozinho. Veio uma enorme pena de mim mesmo e uma vontade enorme de descer. Escalar em gelo e neve era outra coisa. Quando estava em uma parede de gelo tinha que usar minhas habilidades de escalador, colocar o ice axe de maneira correta, cravar as pontas dos crampons de maneira correta. Aqui não, estava apenas caminando e sofrendo. Para piorar, o Padawa, nosso sherpa principal chegou até onde eu estava para ver o que estava acontecendo e eu lhe perguntei quem estava atrás de mim e ele me disse que eu era o último. Isso acabou de me liquidar psicologicamente. Eu era o último? Como? Eu que sempre sou tão forte? Ainda muito dividido entre continuar e voltar, levantei e recomecei a subir. Daí, quase como por milagre, me senti mais forte e o calor que até agora tinha minado minhas forcas desapareceu e comecei a melhorar meu ritmo e em pouco tempo estava atrás do Lui e o simples fato de ter a compania dele me fez sentir que tudo estava correto. Com o novo ritmo comecei novamente a sentir prazer de estar lá. Olhei para o altimetro e vi que já estava a 7700 metros e pensei no que isso significava. Estava quase na mesma altitude do Nuptse, um dos gigantes do Himalaia que vejo cada vez que guio grupos ao campo base do Everest. Realmente estava lá, tao alto?

Na minha frente, por outro lado, o Lui comecou a diminuir seu passo e com isso fazia paradas cada vez mais longas para recuperar o folego. Perguntei se estava bem e ele disse que sim, apenas cansado. Pedi para ultrapassá-lo já que ele também estava acompanhado por uma sherpa e segui adiante. Após mais meia hora, para minha grande surpresa, encontrei o restante do grupo. A Andrea estava a minha frente e isso me deixou extremamente feliz já que desde que havia saido da barraca sabia com certeza de que não iria vê-la até o final da escalada, pois ela era muito mais rápida do que eu. Havíamos chegado à temida Yellow Band, o trecho de escalada mixta, gelo e rocha, que a esta altitude 7800 metros era um desafio considerável. Uma grande fila havia se formado com um grupo de alemães que tentavam chegar ao cume sem oxigênio, mas que estavam demorando uma eternidade para cruzar este desafio. Quando finalmente chegou minha vez de cruzar os dois trechos de rocha, me deparei com uma parede de rocha saindo do gelo. Apesar da altitude extrema e da grande inclinação fui subindo sem maiores problemas usando as pontas dos crampons contra as paredes de rocha e usando a corda fixa como apoio. Um pouco mais tarde, bastante ofegante, estava acima do obstáculo e com uma longa encosta de neve a minha frente levando ao platô do cume. As primeiras luzes do alvorecer pela primeira vez me permitiam ter uma idéia de onde estava.  Tinha atingido 8.000 metros. Não podia acreditar! Estava a 8000 metros! Acima de mim apenas 14 montanhas no planeta.

Continuei subindo sabendo que eu chegaria no cume. Ao invez de estar mais cansado, me sentia cada vez mais leve, mais energético apesar de já estar escalando a mais de 7 horas sem beber uma gota de água ou comer nada. Acho que o sonho me empurrava para cima. Parte do grupo parou para trocar de cilindros de oxigêwnio e ao checar o meu vi que ainda tinha metade sobrando, o suficiente para chegar de volta ao campo 2. A Andrea seguiu na frente e eu um pouco atrás. O restante do grupo tinha ficado para trás e agora, já com o sol brilhando no horizonte, alcancei o enorme platô do Cho Oyu. Deste ponto era mais meia hora até o cume verdadeiro, meia hora de caminhada quase plana. Eu sabia que só chegaria no cume quando pudesse ver o Nepal com o Everest, Lhotse e Nupse, além de dezenas de outras montanhas que conhecia tão bem dos meus vinte anos de trekkings no Khumbu. E então, de repente, estava lá, de frente ao Everest, no cume da sexta mais alta montanha do planeta. O frio de menos 30 graus tinha se composto com o vento dando uma sensação térmica de menos de 40 graus negativos. Quase mecanicamente tirei as fotos de cume, filmei a Andrea com as suas  bandeiras de patrocinadores e país (ela se tornava na primeira mulher centro americana a escalar um 8.000 metros). Quando acabamos com nossos deveres olhamos um para o outro, nos abraçamos e choramos e nestes segundos liberei toda a emoção que estava no meu coração, todo o cansaço desse mês de esforços, privações, dores e alegrias. Após vinte anos de sonhos estava onde tantas, tantas vezes tinha me imaginado estar. Tentava compor a imagem que tinha das pessoas que tinham escalado um 8.000, meus herois, com estar alí, no cume do Cho Oyu. Será possível que eu agora também fazia parte desse tão seleto clube?

O Everest estava a poucos quilômetros de mim e a poucas centenas de metros acima. Em março eu estaria a caminho do seu cume e agora, visto da perspectiva do Cho Oyu, ele já não era tão intimidante. Eu tinha conseguido chegar no topo do Cho Oyu. Também chegaria no Everest. Por momentos me senti invencível até que o Victor nos lembrou que escalar uma montanha siginificava chegar no seu topo e voltar a sua base e que só havíamos feito metade do caminho. Aos poucos foram chegando o restando do nosso grupo, o Lucas de Zorzi, o Luis Antônio Felber, os três malteses, Greg, Robert e Marco e com muita tristeza soube que o Lui havia voltado 200 metros abaixo do cume por causa de problemas com sua visão. Não estavamos todos os oito companheiros lá em cima. Faltava o Lui.

Quando me preparava para descer, tive um acesso de tosse e por um minuto fiquei com uma terrível ânsia de vômito que passou ao recolocar a máscara de oxigênio. Tinha ficado no cume ao redor de 40 minutos sem oxigênio e os efeitos do ar extremamente rarefeito estavam agindo.

Do caminho de volta ao campo 2 eu me lembro muito pouco. Não é surpreendente dado o estado de exaustão que me encontrava. Lembro da descida da Yellow Band rapelando com as pontas dos crampons raspando nas rochas, e da longa descida do campo 3 vendo o campo 2 lá em baixo e enganadoramente perto. A noite foi um tanto agitada como sempre que se dorme muito cansado.

No dia seguinte, como tinha sido predito pela previsão metereológica, amanheceu com um céu cinza feio e o tempo foi piorando durante o dia e quando chegamos no campo 1 já estava nevando. Chegamos no campo base às 2 da tarde cobertos de neve e fomos recebidos por carinhosos abraços de Pemba, nosso cozinheiro, e uma mesa cheia de petiscos. Sabia que se fosse para a barraca não sairia de lá de modo que fiquei na barraca refeitório até a noite. Quando o grupo todo chegou, o Victor abriu uma caixa com 24 cervejas e o Pemba uma de coca cola e esquecendo o cansaço, trocamos experiencias até às 9 da noite. O Lui nos contou que conforme foi subindo foi percebendo que seu olho esquerdo foi ficando estranho e que ao redor de 8000 metros já não enchergava nada deste olho. Seu sherpa queria que ele seguisse até o cume que estava a não mais do que uma hora de escalada, mas ele decidiu sabiamente que era melhor voltar. Ele também disse que estava com vontade de voltar a tentar após alguns dias de descanso, mas, se ele estava tão cansado como eu, isso só poderia ser possível se parte deste descanso fosse em Tingri ou algum lugar bem mais baixo do que o campo base. No Cho Oyu, o campo base fica a 5700 metros, 400 mais alto do que o do Everest e nós já estamos aqui ou acima desta altitude há 20 dias e sinto que não existe aclimatação verdadeira a esta altitude. Cada vez que vou da minha barraca a barraca refeitório, meros 15 metros, fico ofegante.

Estou felicíssimo de ter conseguido chegar no cume do Cho Oyu, mas agora quero ir embora, quero descer para poder me recuperar do cansaço acumulado deste mês. Aqui, isto não é possível.

Nossa expedição foi abencoada em muitos sentidos. Nunca ouvi falar de um período tão longo de tempo perfeito em uma montanha de 8000 metros. De nós oito sete chegaram no cume e um a 200 metros dalí. Não tivemos nenhuma doença séria entre nos, só as habituais mazelas de montanha, gripes, dores de garganta, diarréias e dores de cabeça. Ninguem se acidentou. Convivemos super bem por mais de um mês e saimos da expedição como amigos que querem e vão se rever em alguma outra montanha deste lindo planeta. Não dá para pedir mais do que isso. Como única mancha na nossa felicidade, no dia seguinte ao nosso cume ficamos sabendo que um americano de 73 anos que estava tentando pela segunda vez o Cho Oyu havia morrido ao descer do cume. Ainda não sabemos de detalhes, mas aparentemente ele morreu ao chegar ao campo 2 de enfarto ou derrame, condições razoavelmente frequentes em alta montanha. Seu corpo será trazido ao campo base amanhã por um grupo de seis sherpas, tarefa ingrata e perigosa. Ele subiu com o auxilio de Martin, um guia californiano que no decorrer deste mês se tornou nosso amigo e nós todos estamos muito tristes por Cliff que morreu e por Martin que tem nos próximos dias várias tarefas difíceis.

Agora é descansar por dois dias enquanto esperamos os yaks que levarão nosso equipamento ao campo intermediário e de lá tomar os jeeps que nos levarão de volta a Katmandu, onde devemos chegar dia 29 de setembro.

Por apenas algumas poucas horas duvidei da validade do que estava fazendo nesta montanha e isto foi nas primeiras horas do dia de cume quando ainda não tinha encontrado meu ritmo. De resto foi um dos meses mais felizes de minha vida e não vejo a hora de repetir esta experiência no Everest no começo do proximo ano. Ainda não sei responder a clássica pergunta de porquê alguém dedica tanto tempo e dinheiro, arriscando a saúde e a própria vida para ficar alguns minutos no topo de alguma montanha. Não sei formular uma resposta lógica para isso, apenas sei dizer que no fundo do meu coração está a resposta e ele me diz para seguir escalando e chegando no topo das montanhas e estou acostumado a seguir o que ele me diz.
 
 

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Sobre o autor

Manoel Morgado - Colunista

Manoel Morgado é médico de formação, mas trabalha como guia de montanha há 20 anos, atuando em vários países ao redor do mundo. Há 15 anos é montanhista, tendo como ápice de sua carreira a conquista do Everest e também a realização do projeto 7 cumes. Ele nasceu no Rio Grande do Sul, se criou em São Paulo e dede 1989 não tem casa.

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