Nômades por natureza!

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Utilizando algumas linhas do artigo “O fator psicológico na escalada de Montanhas” do amigo Maximo Kausch, responsável pelo excelente trabalho que vem realizando com Pedro Hauck no site www.gentedemontanha.com, vou tentar tratar de um tema bem comum entre a comunidade de escaladores e caminhantes, o “porque amo o desafio de subir uma montanha?”


O que é que nos move? De onde vem essa coisa que nos permite passar por tantas adversidades e ainda querer continuar mais e mais? Por que é que escalamos Montanhas? Ou porque simplesmente não desistimos quando estamos prestes a entrar na maior roubada de nossas vidas?

Depois de acompanhar os “montonaltas” nos debates no portal AltaMontanha.com, está bem claro o que temos aqui, todos defendendo sua tribo, sua ideologia e forma de ver o mundo. Escalar uma montanha ou dobrar uma esquina, não importa como se faz, mas com o que e com quem. Será que estamos perdendo o sentido do esporte quando usamos de tecnologia para fazer agora o que nossos antepassados faziam com poucas ferramentas? A resposta é Não. O que estamos fazendo é se adequar às condições que hoje vivemos. Dentro da ética e das normas cada um pode adaptar sua aventura ao seu espírito de conquista com ou sem GPS, pagando ou não para levar seu equipo montanha acima. Eu prefiro carregar minha mochila, mas quem não pode?

O ego do esportista de montanha não pode ser comparado ao de um atleta de natação ou de um jogador de xadrez, o montanhista carrega o espírito dos desbravadores, a vontade de ir mais longe e obrigação de defender seu território. Temos um esporte complexo, bem diferente de qualquer outro. O montanhismo exige muito de seus esportistas, sendo praticado em solo ou em grupo, escalar ou caminhar requer mais que preparo físico, requer paciência, dedicação e logística.

O amor pelas viagens, a vontade de adquirir novas culturas e ver o que poucos podem ver leva o montanhista a cruzar fronteiras geográficas e psicologias. Esse amor por novos desafios não é novo em nossa espécie. Essa essência que existe em todo montanhista está inconsciente em nossa matriz genética. A grande diferença é que em algumas pessoas esse fator “X” continua inerte, e em outros ele é super ativo (Já que temos a montanha “X” chamaremos assim esse diferencial).

O fator “X” pode levar alguns a vestir um colã azul com o “S” no peito e se jogar de base jump do topo de uma montanha, ou solar uma via de grau elevadíssimo sem equipamentos de segurança, mas será que todos são iguais? O instinto é o mesmo, mas nossas condições cotidianas talvez não permitam ir tão longe. Mesmo com todas as dificuldades de nossa vida corrida, não dá para frear esse instinto de se jogar ao desconhecido.

Para entender o fator “X”, basta olhar para o passado. Colocar a mochila nas costas e atravessar montanhas e florestas está em nossa natureza, é um elo de ligação com o nosso passado nômade. No passado, a falta de alimento e as fortes condições climáticas forçavam o homem a se deslocar. Graças aos adventos naturais, a cultura de povos distantes se misturou a outras fazendo florescer grandes nações. Muito antes do descobrimento ou muito antes da bússola, povos nômades se lançavam ao desconhecido em busca novas chances de sobrevivência. Hunos, Hebreus, Ciganos, Xavantes ou Hippies, cada época e pedaço do globo teve sua tribo e seus estilos de vida. Arte e tradição que influenciaram e modificaram as terras por onde passaram.

Transformando o fator “X” em algo que possamos definir dentro da ciência humana, trocaremos esta letra pelo termo “nomadismo”. O montanhista carrega o nomadismo dentro de si e faz dele a vontade de ir mais longe.

O nomadismo é a prática dos povos nômades, ou seja, que não têm uma habitação fixa, que vivem permanentemente mudando de lugar. Usualmente são os povos do tipo caçadores-coletores, mudando a fim de buscar novas pastagens para o gado quando se esgota aquela em que estavam. Os nômades não se dedicam à agricultura e freqüentemente ignoram fronteiras nacionais na sua busca por melhores pastagens. Há, portanto, uma diferença básica entre este tipo de nomadismo e o nomadismo coincidente com o início da criação de gado. Alguns povos, eventualmente por razões de natureza ambiental ou por, ao longo dos anos, terem se afastado dos agricultores, preferiram um tipo de vida exclusivamente dedicado à criação de ovelhas, cabras, bovinos e outros animais. A pastorícia implica uma freqüente deslocação dos animais criados em função dos recursos naturais existentes ou para possibilitar a renovação da flora. Em conseqüência da sua constante mobilidade, os nômades não produziam, em geral, qualquer espécie de cerâmica, que tinham de obter por troca.

Realizando um salto para os tempos modernos, longe das tribos bárbaras ou dos filmes dos anos 50 em que caravanas atravessam o deserto montados em camelos vemos um movimento nômade bem reconhecido entre nós e que talvez tenha influenciado muitos montanhistas a se arriscarem pelo mundo em busca de novas experiências. Hoje é comum andar nas ruas e olhar a moda inspirada nesses nômades modernos: “os hippies”.

Os “hippies” eram parte do que se convencionou chamar movimento de contracultura dos anos 60. Adotavam um modo de vida comunitário ou estilo de vida nômade, negavam o nacionalismo e a Guerra do Vietnã, abraçavam aspectos de religiões como o budismo, hinduísmo, e/ou as religiões das culturas nativas norte-americanas e estavam em desacordo com valores tradicionais da classe média americana. Eles enxergavam o paternalismo governamental, as corporações industriais e os valores sociais tradicionais como parte de um estabelecimento único, e que não tinha legitimidade.

Por volta de 1970, muito do estilo hippie se tornou parte da cultura principal, porém muito pouco da sua essência. A grande imprensa perdeu seu interesse na sub-cultura hippie como tal, apesar de muitos hippies terem continuado a manter uma profunda ligação com a mesma. Como os hippies tenderam a evitar publicidade após a era do Verão do Amor e de Woodstock, surgiu um mito popular de que o movimento hippie não mais existia. De fato, ele continuou a existir em comunidades mundo afora, como andarilhos que acompanhavam suas bandas preferidas, ou às vezes nos interstícios da economia global. Ainda hoje, muitos se encontram em festivais e encontros para celebrar a vida e o amor. No Brasil essas figuras folclóricas são encontradas em feiras livres, cidades esotéricas (Ex. São Tomé das Letras – MG.) ou mesmo tentando a vida nas grandes cidades vendendo artesanato. Quem nunca comprou um brinco para namorada em uma barraquinha desses residentes dos anos 70? Quem escala em Tomé está até acostumado a dividir a rocha com essas figuras.

Em nosso caso, a busca de alimento não existe, e transformamos essa vontade em filosofia de vida na busca de novos desafios e conhecimento interior.

Para ilustrar um exemplo desta influência podemos citar o livro de John Krakauer, ele escreve em “Na Natureza Selvagem” (Into the wild – Companhia das Letras) a historia de Christopher McCandles ou Alexander Supertramp. Krakauer pesquisou obsessivamente a vida e a morte prematura do jovem Christopher McCandles, que abandona tudo e parte em uma aventura sem volta. Com o pseudônimo de “Alexander Supertramp”, começa sua viagem no Oeste dos E.U.A. e é encontrado morto no Alaska. A vontade de testar seus limites faz Christopher seguir uma viagem ao desconhecido em busca de si mesmo e de algo que pudesse dar sentido sua vida.

A incrível agonia me deixa em pânico. Faço uma careta, urro um belo “porra!” e puxo meu braço três vezes em uma ingênua tentativa de arrancá-lo de baixo da rocha. Mas estou preso. “Ah, merda, merda, merda!” Empurro a pedra com meu braço esquerdo, tentando erguê-la com meus joelhos servindo de calço. Empurro meus quadris por baixo da pedra e faço força para cima, gemendo, “Vamos… se mexe!”. Nada.

Between a Rock and a Hard Place
Aron Ralston

Outro caso que gostaria muito de referenciar é o de Aron Ralston. Essa aventura mostra a vontade de viver de um jovem escalador que como muitos de nós se lança sozinho em caminhos solitários pelas montanhas e se vê sozinho em um acidente que coloca sua vida em risco. Sozinho e sem a possibilidade de pedir ajuda, Aron tem de escolher entre a morte ou perder parte de seu braço, se é que pode se chamar de escolha. Gosto de usar este como exemplo porque evidenciou não só a mídia direcionada a montanhistas pelo mundo. O caso Aron foi notícia em todos os telejornais e fez muita gente pensar até onde ir sozinho ao encontro do desconhecido. Meu falecido pai sempre usava este caso para tentar me convencer a parar de escalar, e como muitos aqui, nem pensei em sequer tentar frear meus instintos. O mesmo Aron continua escalando e desafiando seus próprios limites agora sem um dos braços.

Depois de olhar o passado e entender de onde vem essa vontade de ir mais longe, ou seja, o fator “X”, fica mais claro entender o porquê somos tão apaixonados pelo desafio.  Como dizemos sempre, tá no sangue! E está mesmo.

Esse sentimento faz com que às vezes nos tornemos verdadeiros protetores da geografia de nossas aventuras, ou melhor dizendo defensores de nosso quintal de casa. Impor nossa razão quando o território selvagem está em perigo está locado em nosso ser e devemos fazer deste um dever. Não importa o número de desavenças que temos em nossa comunidade, todos querem o mesmo, defender nosso direito à aventura, defender nosso direito de ser nômade e ainda ter onde exercer esse sentimento, em nosso caso as montanhas. Urca, Marumbi, Patagônia ou Serra do Cipó, todos queremos o melhor para nosso quintal de casa e o direito de fazer dele nosso maior desafio. Se concentrássemos nossos esforços em progredir criando federações mais unidas, clubes ativos e escaladores independentes atuantes, seria mais sensato que trocar farpas por chats tentando provar quem vai mais longe ou quem é o melhor no que faz. Estamos todos por uma causa, temos todos o mesmo espírito, somos todos montanhistas de alma e nômades por natureza..

Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros

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Sobre o autor

Atila Barros - Colunista

Atila Barros nasceu no Rio de Janeiro, e vive em Minas Gerais, cidade que adotou como sua casa. Escalador (Montanhista) há 12 anos, é apaixonado pelo esporte outdoor. Ele mantem o portal Rocha e Gelo (www.montanha.bio.br)

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