Nossas Ilhas

0

Pensei que seria interessante visitar neste artigo algumas de nossas ilhas. Vou descrever apenas as mais óbvias, evitando as muito grandes como Marajó e Superagüi, as muito pequenas como Anchieta e as muito distantes, como Abrolhos. E, claro, as proibidas, como Alcatrazes e São Pedro e São Paulo. Se você conseguir permissão para estas últimas, faça o favor de me convidar.

Algodoal: Tive a sorte de conhecê-la quando tinha apenas duas pousadas, hoje pelo que soube já são pelo menos seis. Você chega lá rodando de Belém 160 km rumo norte, até o Porto de Marudá. Um pouco mais de ½ hora de traineira e você terá chegado num local paradisíaco, com areias planas, amplas e brancas, num ambiente rústico e simples. Nele não transitam carros ou motos. Embora com quatro vilas, é escassamente povoada (talvez mil pessoas). A ilha tem apenas 2 mil ha e você pode circundá-la, se a maré permitir, caminhando algo como 15 km. Apenas evite o retorno à tardinha, quando a maré enchente poderá dificultar a travessia dos rios. As maiores extensões serão as lindas praias da Princesa e da Fortalezinha. Você encontrará principalmente areias, dunas e mangues. Na realidade, a ilha chama-se Maiandeua, que quer dizer Mãe da Terra. Já algodoal se refere à planta nativa de algodão de seda, cuja exploração antecedeu a pesca – que hoje divide com o turismo as atenções da população.  
 
Noronha: Você só chegará aqui de avião, em um dos três voos diários, pois o arquipélago está a 550 km da costa. A única ilha habitada é a de Fernando de Noronha, onde a população é controlada, para que não ultrapasse 4 mil habitantes. Ela se distribui em quatro vilas, das quais a principal é N. Sa. Remédios, com direito aos antigos palácio, forte e igreja. É uma ilha pequena de origem vulcânica, com menos de 2 mil ha. Há locais belíssimos, como os mirantes (dos Golfinhos e do Leão) e as praias (em especial do Sancho, do Leão, da Cacimba e da Atalaia). Naturalmente, é local turístico e badalado, mas ainda assim você poderá fazer bonitas caminhadas no seu clima estável e quente – e, sobretudo, mergulhos espetaculares nas suas águas límpidas, talvez acompanhados pelos curiosos golfinhos. Seu isolamento no mar imenso causa uma forte impressão. Antes que você me pergunte, aviso que é proibido escalar o Morro do Pico, mas o seu pôr do sol é inesquecível. São 75 mil os turistas que podem a cada ano apreciá-lo – e sua visitação é espalhada pelo ano todo.        
 
Morro de São Paulo: Fica 60 km ao sul de Salvador, sendo seu nome advindo do belo forte cujas ruinas você pode visitar.  O melhor acesso por barco é pela vazia Ponta do Curral, não pela barulhenta Valença, com viagem de ½ h. Pertence ao arquipélago de Tinharé, que tem 45 mil ha de área, com um passado de extrativismo e de agricultura. Dentre suas mais de 20 ilhas, a mais conhecida é aquela que abriga o Morro de São Paulo. Suas praias, numeradas de Primeira até Quinta, são deslumbrantes quando vazias, com aquele generoso colorido da natureza baiana. Porém, quando cheias, a muvuca só as torna aproveitáveis a partir da Quarta. As areias claras, as águas límpidas, as piscinas naturais, os extensos coqueirais e a visão dos golfinhos é tudo de que você precisa para ser feliz. Se você tiver disposição e o mangue deixar, pode continuar até as praias ao sul: Garapuá e Pratigi. Mas você pode também conhecer a vizinha Ilha de Boipeba, cercada por rio e por mar, com seus recifes, praias e mangues e seus vilarejos de Velha Boipeba e Moreré. A visitação anual é bem alta, de 100 mil pessoas, principalmente nas férias e no verão.       
Ilha Grande: Ela apresenta uma história remota, tendo sido reduto de piratas, local de dois presídios e centro para salga da sardinha. Tem uma origem ígnea e abriga um inoperante Parque Estadual. Antigamente, sua flora era considerada a mais bela do Novo Mundo, antes que as lavouras de cana e café devastassem as áreas baixas. Mas, ainda hoje, a floresta é exuberante. Seus ambientes naturais são a praia, a restinga, o mangue e a floresta. O centro turístico é a vila do Abraão, a 1½ hs de barco de Angra dos Reis. Se você olhar a ilha em planta, notará que existem dois arcos em forma de meia lua em suas extremidades.  São as enormes paias de Sul e Leste de um lado, e de Lopes Mendes do outro, ambas no bordo sul. Entre elas, existe um perfil muito recortado, com várias enseadas e praias pequenas, especialmente ao norte, que é o litoral mais visitado. Ela é vazia no lado oceânico, com lindas praias (em especial as de Lopes Mendes e Dois Rios), e ocupada no lado oposto, com praias acanhadas e vilas feias. A população é de 10 mil pessoas. É relativamente grande, com 20 mil ha, e você pode percorrer de mochila o seu contorno, numa maravilhosa travessia de 60km, parcialmente sinalizada. Não deixe de usufruir a vista espetacular do cume do Pico do Papagaio, que se debruça sobre o Abraão. A Ilha Grande é visitada por inacreditáveis 400 mil pessoas por ano – no verão, os brasileiros e, no inverno, os estrangeiros. 
 
Ilhabela: O acesso é por balsa, a partir de São Sebastião. Ela começou como um refúgio de piratas, passando pelo ciclo do açúcar e funcionando depois como abrigo de escravos. Experimentou um apogeu com as plantações de café, abrigou importantes salgas de peixe e foi palco de naufrágios espetaculares, até se converter na capital da vela brasileira. Este é um local de contrastes: o lado voltado para o continente tem muita gente (30 mil pessoas), vários locais de consumo e pouca praia; já o lado oceânico é quase deserto, com lugares paradisíacos, como Castelhanos e Bonete. No primeiro, você chegará atravessando o centro da ilha de carro (ou, se tiver coragem, a pé), serão 22 km. No segundo, onde há uma vila caiçara, através de uma caminhada de 12 km numa trilha larga aberta originalmente para ser uma estrada. O alto da serra de Ilhabela contém a mais bela floresta litorânea que jamais vi. A ilha é bem grande, com 35 mil ha, dos quais mais de 80% constituem um Parque Estadual. Sua origem é magmática. Você pode visitar suas cachoeiras e subir aos Picos do Baepi e de São Sebastião, o primeiro com esforço apenas moderado e o segundo, com bastante dificuldade, dentro de um mato íngreme e fechado. Por ano Ilhabela recebe tantos visitantes quanto Foz do Iguaçu, cerca de 1.500 mil, portanto escolha a estação certa para visitá-la: nem pensar no verão, quando haverá tantos borrachudos quanto turistas.        
 
Cardoso: Ela abriga um Parque Estadual mal estruturado, com 23 mil ha. Possui um desenho curioso, com encostas íngremes e mangues no lado do continente e praias com areias acinzentadas e mares calmos no do oceano. O sul da ilha é uma peculiar extensão de terra de 17 km e apenas ½ km de largura, debruçada no sentido da Ilha de Superagüi. (Este é um PN com 34 mil ha e cerca de 1.300 habitantes, que inclui também a Ilha das Peças – suas areias desertas quase não são visitadas.) O ponto culminante do Cardoso é sua montanha central, com o inacessível perfil dos Três Irmãos. Existe trilha para o Pico do Cardoso, aberta para pesquisadores. Possui diferentes ambientes naturais: dunas e praias, mangues e restingas, costões e florestas. Sua origem geológica é magmática. É habitada por 450 pessoas, descendentes de índios e caiçaras, em meia dúzia de vilas, das quais as principais são Marujá e Perequê. O acesso é feito de Cananeia por balsa. A principal trilha é a das Piscinas da Lage, um percurso de 24 km que vai e volta pelo costão do Morro de Marujá, pela Praia da Lage e pela trilha de mata. Mais cênicas me pareceram as praias a seguir, em especial Foles e Cambriú. Você pode conhecer duas belas cachoeiras, Grande e Ipanema. Mas bem mais cativantes são as pouco visitadas ilhas oceânicas: Bom Abrigo e Castilho. O Cardoso é visitado por 15 mil pessoas/ano, fuja dos feriados se quiser ter alguma paz.
 
Mel: Junto com a planície costeira do Paraná, a Ilha do Mel teve uma origem sedimentar. Seu formato é uma meia lua voltada para o continente, no centro da qual chegam os barcos vindos de Pontal do Sul, em viagens de ½ h. Não tem carros, celulares nem iluminação pública. Ao longo dos anos, seus restaurantes tornaram-se mais sofisticados e suas pousadas, mais acolhedoras. Seus 3 mil ha são ocupados por dunas, restingas e florestas. As duas principais vilas, Encantadas e Nova Brasília, concentram as muitas pousadas, bem como a população de 1.500 pessoas, 80% das quais caiçaras. São muito bacanas as construções do Farol das Conchas e do Forte de Na. Sa. Prazeres. Dentre as praias, a do Miguel é bem vazia (e, atrás dela, a do Saco é selvagem), a Grande e a de Fora são belamente circundadas por morros e a da Fortaleza é a maior e a mais panorâmica. Se o mangue e a maré deixarem, é possível contornar a ilha, num percurso de 20km, usualmente feito de bicicleta. É visitada a cada ano por 90 mil pessoas, quando seus dois centros podem ficar congestionados.
 
Compartilhar

Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

Comments are closed.