Nova Zelândia, o último treino para o Everest

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Por quatro anos, eu venho dizendo para a Andrea como os lugares que revisito e que ela está conhecendo pela primeira vez estão piores do que quando eu vi anos atrás.


Tudo está mais comercial, tem mais gente, perdeu a originalidade e coisas assim. Enquanto voava do Hawaii para Auckland, Nova Zelândia, pensava se também teria essa sensação com este país que me marcou tanto quando lá estive 20 anos atrás em uma deliciosa viagem de bicicleta de seis meses de duração. Era minha segunda viagem de bicicleta e os planos eram ambiciosos, sair de Sydney, percorrer a Ilha do Sul da Nova Zelândia, o Tahiti, Ilha da Páscoa, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil até chegar a São Paulo após quase 3 anos de ausência.

Vinte anos é um longo tempo e muita coisa muda, na minha experiência quase sempre para pior. Agora, voando de volta a Katmandu após seis semanas neste incrível país vejo com felicidade que se algo mudou foi para melhor. As pessoas estão ainda mais simpáticas e receptivas do que me lembrava, as trilhas ainda mais bem mantidas, os abrigos de montanha maiores, mais limpos, mais bem equipados e em maior número do que antes.

Viemos para cá com dois objetivos, conhecer a Nova Zelândia (eu não tinha estado na Ilha do Norte e a Andrea essa era a primeira vez no país) e fazer a última parte de nosso treino para a escalada ao Everest. Ambos objetivos foram plenamente realizados. Por um mês e meio rodamos quase 5000 quilômetros, fizemos inúmeros lindos treks, experimentamos uma viagem de sea kayak por 4 dias e fizemos um retiro budista de 6 dias de duração com a mesma mestra com quem havia feito três cursos em dezembro do ano retrasado na Índia.

Nossa viagem começou em Auckland, de longe a maior cidade da Nova Zelândia com 1,2 milhões de habitantes aonde chegamos após um longo vôo desde Honolulu. Pegamos o carro que havíamos alugado pela internet e seguimos rumo à ponta norte da Ilha do Norte, local de grande significado espiritual para os Maoris, os primeiros habitantes do país.

Lá fizemos um trekking de 4 dias pelo lindo litoral começando na Ninety Mile Beach, passando pelo Cabo Reinga onde o furioso Tasman Sea se encontra com o calmo Pacífico e seguindo por incríveis pequenas baias de areia branca e completamente desabitadas.

Caminhamos pelas praias com areia fofa, ótimo exercício após os dias de não tanta atividade física no Hawaii e subimos montanha após montanha nos deliciando com as vistas de mais uma isolada praia. De lá seguimos para Coromandel Península por uma estrada serpenteante costeando um lindo mar esverdeado. Neste lugar tranqüilo se encontra o centro budista que seria nossa casa por uma semana.

O reencontro com Tenzin Chogkyi foi super emocionante e nesta primeira tarde ficamos conversando e contando o que se passou nestes 13 meses desde a Índia. Mais uma vez senti o quanto sou afortunado de ter encontrado Budismo e pessoas tão especiais como ela que me ensinaram tanto. Por três dias meditamos, tivemos ensinamentos e discussões em grupo. Nos últimos 2 dias tivemos apenas meditação, várias sessões de uma hora de duração, sentados e caminhando e ao final tanto eu como a Andrea sentíamos que, pelo menos a nível intelectual havíamos aprendido um monte. O trabalho fora do centro é transformar este aprendizado intelectual em emocional.

Reenergizados com esses dias, continuamos nossa viagem pela Ilha do Norte intercalando trekkings e passeios de carro. Essa parte do país é pontilhada de vulcões ativos e fontes termais e em nossas caminhadas vimos paisagens incríveis.

Após uma curta e linda viagem de ferry desembarcamos no norte da Ilha do Sul e fomos diretamente para um dos parques nacionais mais famosos da Nova Zelândia, o Abel Tasman para fazer um passeio de 4 dias em sea kayaks.

Desde a Travessia Atlântico ao Pacífico que sonhava em repetir a experiência de uma viagem em kayaks e este parque é o lugar ideal para isso. Pequenas baias de areia branca, ilhotas com colônias de focas, mar calmo e estrutura de camping em muitas praias faz com que muitas pessoas se aventurem, mesmo com pouca experiência.

Decidimos alugar o kayak duplo e seguir por conta sem estar em um dos inúmeros passeios guiados que são oferecidos. A rotina era maravilhosa. Acordar as 7, tomar café da manhã de frente para o mar, remar por algumas horas, parar em alguma praia para o almoço de sandwichs e suco, remar mais um pouco e montar acampamento em outra linda praia. Daí um delicioso jantar acompanhado de um vinho tinto da região e dormir em nossa pequena barraca.

Com os músculos dos braços doendo, afinal não estamos acostumados a exercícios com a parte superior do corpo, seguimos para uma linda seqüência de trekkings de 2 a 4 dias de duração, desta vez por paisagens alpinas que são a grande atração da Ilha do Sul. Nossos planos de escalar o Monte Cook e o Aspiring, duas lindas montanhas nevadas no centro da Ilha do Sul, acabaram sendo canceladas, pois já estava muito tarde na estação e as cravasses já muito abertas tornando qualquer escalada em neve uma aventura um tanto perigosa. Concentramos-nos nas caminhadas que de qualquer forma são nossa forma de treino mais eficiente conforme comprovamos em nosso treino para o Cho Oyu. O parque que mais nos impressionou por sua beleza foi o Aspiring National Park onde fizemos dois trekkings maravilhosos.

Despedi-me desse lindo país com uma caminhada que tinha me marcado muitíssimo em 1990 chamado Cascades Saddle, uma pequena sela entre duas montanhas com vistas deslumbrantes do Dart Glacier com sua cascata de gelo despencando quase verticalmente rumo ao vale de um lado e o triângulo perfeito do Mount Aspiring do outro.

A caminhada do lugar onde acampamos, o Aspiring Hut, até a sela demora em média 5 horas de subida muito íngreme e outras 4 de descida. No dia anterior havíamos conversado com a simpática guarda parques e ela nos recomendou sair cedo, pois havia grande possibilidade de chuvas à tarde. Quando voltamos, tornamos a encontrar com ela e quando lhe contamos que havíamos feito o passeio de ida e volta em apenas cinco horas ela não quis acreditar, disse que era impossível. Só se conformou quando contamos que este era nosso último treino para a escalada ao Everest. Creio que estamos em excelente forma física….

Nossas férias / treino terminaram com agradáveis dois dias em Sydney que a Andrea também não conhecia.

Enquanto escrevo a bordo do vôo de Sydney para Hong Kong mais uma vez penso em quão pouco tempo falta agora para meu grande sonho, escalar o Everest. Em 19 dias estaremos tomando o vôo para Lukla com o maior grupo que já guiei, 24 pessoas, para um trekking de 15 dias ao campo base do Everest.

Assim que terminar este trekking, voltaremos para o campo base para iniciar a escalada. Dentro de mim sinto a cada momento uma variedade de sentimentos. Difícil dizer o que predomina, ansiedade, excitação, um pouco de medo, alegria e de certa maneira ate um pouco de alívio por tudo isto estar finalmente acontecendo.

Por mais divertido que tenham sido estes dois anos de preparo, a carga de viver por tanto tempo focado em um só objetivo não foi leve. Trabalhei muito para este momento, fiz inúmeros treks, escalei 14 montanhas ao redor do mundo, não deixei de treinar por uma só semana. Mas, mais do que isso, não parei de pensar no que virá um só minuto. Tentei focar no presente e viver cada etapa deste projeto e de uma certa maneira consegui isso. Mas, no fundo de minha mente Everest sempre esteve presente, me esperando, me chamando. Chegou o momento!

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Sobre o autor

Manoel Morgado - Colunista

Manoel Morgado é médico de formação, mas trabalha como guia de montanha há 20 anos, atuando em vários países ao redor do mundo. Há 15 anos é montanhista, tendo como ápice de sua carreira a conquista do Everest e também a realização do projeto 7 cumes. Ele nasceu no Rio Grande do Sul, se criou em São Paulo e dede 1989 não tem casa.

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