O Charco

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Entre o Horto Florestal de Campos do Jordão e a região dos Marins fica o Charco, por onde você terá de passar, se quiser percorrer a TransMantiqueira pelos vales, como descrito na coluna anterior.

Existe uma estradinha que deixa o Horto Florestal de Campos do Jordão, subindo gradativamente até a sua divisa. Neste ponto, começa uma bonita descida de uns 4 km, atravessando pastagens, agora com um visual panorâmico. Você está ingressando na grande depressão às costas dos maciços principais da Mantiqueira, por onde correm as águas do Rio Sapucaí.

Horto Florestal de Campos do Jordão, SP

No fim desta descida, você avistará um vilarejo, com uma curiosa sucessão de casinhas de madeira do lado direito e uma bonita moradia do esquerdo, perto da qual existe uma modesta igrejinha sem torre. Este é o Charco, um local antigo cujas terras pertencem desde o século XVII à Família Faria, após mais de cinco gerações. Se você tomar à direita, irá na direção do Onça, onde existe um acampamento do Exército. Se tomar à esquerda, descerá no rumo das vilas no sopé da Serra dos Marins.

O Vilarejo do Charco, MG

Passei por aqui no período em que percorríamos a TransMantiqueira, descrita na coluna anterior. Cheguei um dia à noite com dois rapazes, iríamos nos encontrar na manhã seguinte com o restante do grupo, para mais uma pernada. Nosso plano era acampar no jardim da igrejinha, sendo o carro levado no dia seguinte para Delfim Moreira, onde chegaríamos a pé. De lá, regressaríamos dois dias depois para São Paulo.
Era uma noite fria e escura. Naquele breu, passamos a igrejinha e chegamos numa serraria. A alta chaminé expelia umas fagulhas vermelhas que nos aterrorizaram. Nós só as víamos subindo, sem saber de onde vinham. Nessas horas, a gente até pensa em assombração. Recuamos até a casa bonita e, como eu era o mais velho, coube a mim pedir permissão para acamparmos.

TransMantiqueira na Região dos Marins, MG

Abro o portão e, de repente, escuto um cachorro latindo. Vejo que ele galopa na minha direção, deve ser enorme e vai me engolir vivo. Não dá mais para fugir, portanto avanço ao seu encontro. Acho que agora é ele quem se assusta, vem me lamber. Sou bem recebido, está tudo certo, podemos acampar lá. Os rapazes ficam pasmos com minha coragem. Mal sabem eles que, ao contrário da fábula, esconde-se um cordeiro por dentro da pele de um lobo.
No dia seguinte, encontro uma criatura excepcional naquelas casinhas de madeira: um hermafrodita. Se não me engano, mora com sua tia Rita. É naturalmente delicado, fala com a inocência de uma criança, parece pertencer ao mundo da imaginação. Mas temos uma boa caminhada pela frente e logo nos despedimos. Passamos o resto do dia discutindo, naturalmente sem conclusão, se era um homem efeminado ou uma mulher máscula.
De volta a São Paulo, não consigo esquecer o hermafrodita. Você me conhece, sabe que meu interesse é social ou humano e não sexual. Por coincidência, planejo passar alguns dias com minha namorada na Hospedaria do Gordo, no Horto (acho que hoje em dia não funciona mais) – você me conhece, sabe que ela é uma louraça. Claro que, estando lá, vou rodar pela estradinha até chegar no Charco. Mas o hermafrodita é assustado, e se não aparecer, como faço para atraí-lo?
Concebo então um plano perfeito: compro duas caixas de finos caramelos, vou distribuí-los ao chegar lá. Todos virão receber, inclusive ele, tímido, mas curioso. Apareço de tarde no Charco, não vejo ninguém. Chega uma velha senhora e diz que o vilarejo inteiro foi de caminhão fazer compras na cidade, só ela restou. Então, fico sem os caramelos e sem o hermafrodita. Quem manda o lobo se fantasiar de cordeiro?
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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