O Chorão

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A história dos Três Irmãos que acabei de contar na edição anterior me fez lembrar de outra, em que cheguei a uma montanha querendo conquistar uma outra – e acabei tendo uma surpresa maravilhosa.

 
Estávamos em Alagoa, na região do sul de Minas onde eu tantas vezes fui à busca de novas montanhas. Lá você encontrará o Garrafão (2.400m), que é seu ponto culminante, além de interessantes montanhas como a Pedra do Segredo, a Mitra do Bispo, o Pico dos Nogueira e, sobretudo, o cênico Cangalha.
 
Se você prosseguir, chegará a Aiuruoca. Esta é uma região diferente, que hospeda o Pico do Papagaio. Não discutirei se alguém me disser que ela é a mais bela montanha brasileira. Esses lugares altos compõem as chamadas Terras Altas da Mantiqueira, certamente das mais deslumbrantes do país. Sempre quis fazer uma travessia entre esses dois lugares, ela teria um visual magnífico.   
 
Se não me engano, naquela manhã tentávamos chegar ao Cangalha. Mas não estávamos conseguindo progredir, num mato espinhoso sem trilha definida, sujeitos a um incômodo calor úmido. Meu companheiro sugeriu tentarmos uma proeminente pirâmide a oeste da vila, que eu já tinha enxergado com curiosidade.
 
Chamava-se Pico do Chorão (com algo mais de 1.800m) e tinha uma enganosa forma de uma pirâmide de lados simétricos, que eu pensava resultar num pequeno cume. Mas este não era um ponto e sim um estreito e belo espigão com comprimento de talvez ½ km. Ou seja, a montanha era surpreendentemente comprida e não compacta, como parecia a partir de sua base triangular, que era a que avistávamos. Tinha uma dimensão a mais.
 
Mas o mais incrível foi a vista estupenda lá de cima, pois a gente nem imaginava que o modesto Chorão era na realidade um espigão entre dois vales fundos e enormes, confinados lá longe por grandes paredes. De um lado nós víamos esboçados os topos do Garrafão, tão alto e discreto. Do outro, no limite do horizonte, o desenho recortado do Agulhas Negras e o corpo abaulado do Maromba. Que vista!
 
Entre eles, aquelas simpáticas casinhas dos valeAs, espalhadas ao longo dos pequenos caminhos sinuosos que atravessavam pastagens e plantações. Ao cair daquela tarde morna, suas luzes singelas começavam a brilhar no espaço, como se estivéssemos numa grande nave suspensa no céu. Agradecemos a mansa natureza à nossa volta e retornamos calmos e quietos, dentro da escuridão já agora fria da noite. 
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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