O Condoriri e o Venezuelano de Mérida

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A Cordilheira Real envolve de forma impressionante a cidade de La Paz, até parece que a espreita com um olhar ameaçador. Os acessos relativamente próximos, sua neve normalmente estável, as escaladas em geral seguras e os preços módicos da Bolívia são fatores que atraem os turistas, principalmente no inverno.

A Cordilheira separa a Bolívia em duas metades. A leste estão as terras amazônicas, baixas, quentes e úmidas, com um visual semelhante ao brasileiro. E a oeste, o árido e seco altiplano boliviano, muito alto e muito frio, com enormes extensões às vezes apenas habitadas pelas alpacas e lhamas.

Vista da Cordilheira Real, Bolívia

É impressionante a quantidade de altas montanhas da Cordilheira Real – são 90 picos acima de 5 mil metros! Mas seu ponto culminante, o Illimani, não é o mais alto de país. Este mérito cabe ao Sajama, uma montanha afastada e isolada com mais de 6.500m, meros cem metros acima de seu rival.

Embora não seja tão elevado, com pouco além de 5.600m, o Condoriri é uma das mais procuradas montanhas da Cordilheira. Possui um desenho único, que simula uma ave pétrea alçando um voo impossível. Seu acampamento base é lindo, às margens de um lago de degelo, cuja coloração pastel combina com a aridez sempre pálida das encostas.

Moraina do Condoriri, Cordilheira Real, Bolívia

Numa bela alvorada, saí daquele acampamento com Sebastián, um venezuelano de Mérida, dispostos a fazer o pico e retornar no mesmo dia. Como a trilha não seria longa, eu calçava botas duplas para gelo, que não eram naturalmente as mais seguras para atravessar o terreno desagregado da encosta.

Maciço do Condoriri, Bolívia

Ao subir confiantemente uma crista, já na transição para o trecho nevado, deslizei no rumo do glaciar, onde mergulharam minha piqueta e minha câmera. Não estava encordado e por pouco não lhes fiz companhia. Embora o tombo não tivesse sido tão cruel, só dor sem fratura, me senti de alguma forma inseguro e desmoralizado. Resolvemos retornar.
Mas, naquela noite, só eu dormi – e profundamente o sono dos justos. Quando acordei, soube que Sebastián tinha tomado (ou fumado) todas, enlouquecido e acordado o acampamento com seus gritos. Deve ter sido impressionante, pois era um cara bem grande com uma cabeleira ainda maior.

Agora, era ele quem se sentia encabulado, depois que a ressaca passara. E, de alguma forma, isto quebrou o encanto. Resolvi caminhar por outras paradas, acho que fui fazer o Cerro Ilusión. Nunca mais voltei ao Condoriri, apesar de muitas outras idas à Bolívia. Se ele ainda não alçou voo, pode ainda estar me esperando.

Vista do Cerro Condoriri

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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