O Espinhaço: Os Atrativos do Cipó

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Se você leu a coluna anterior, então já conhece a natureza da Serra do Cipó. Vou agora comentar sobre muitos de seus atrativos.

Eu diria que, fora o seu visual estupendo, o Cipó tem dois tipos de atrativos: travessias e cachoeiras.

O trek mais tradicional são os 30 ou 40 km entre a Lapinha e o Tabuleiro (ou vice-versa), dois locais muito especiais, pelo esplêndido lago da primeira e a enorme cachoeira do segundo. Em dois ou três dias, você cruzará a Serra do Intendente de oeste para leste.

O Parque está iniciando um projeto piloto de travessias, sendo a primeira delas os 40 km entre Alto Palácio e Serra dos Alves. O percurso aproveita estruturas existentes, como as Casas de Tábuas e dos Currais, podendo ser feito em três dias. Aliás, a primeira sede do Parque foi exatamente no Alto Palácio.

Entrada do Vale da Lagoa Dourada, PN Serra do Cipó, MG

A Trilha do Travessão é uma impressionante ascensão do penhasco que divide as bacias do São Francisco e do Doce, percorrendo cerca de 12 km, depois da aproximação de carro. Se você continuar subindo, alcançará em menos de 40 km do início o cânion da inacessível Cachoeira das Braúnas. Ela pode ser conjugada com a travessia anterior.

Serão 12 km mais até a Lagoa Dourada, cercada por paredões e gramíneas, já próxima e acima da entrada do Parque. Este percurso é feito em três a quatro dias. Mas existe também o popular trek de 30 km de Altamira até São José da Serra, com ótimo acampamento no vale da Lagoa Dourada.

Aproximação da Cachoeira Bicame, Serra do Cipó, MG

Outra travessia poderosa parte da Cachoeira Bicame e chega após uma descida vertiginosa ao grande poço do Soberbo, envolto por penhascos, cuja passagem leva a Extrema. Você pode continuar com dois dias a mais por vales e platôs até Fechados, por talvez 60 km. Mas você consegue também atingir por diferentes trilhas localidades como Jaboticatubas, Congonhas do Norte ou São Miguel e Almas. Pois o Cipó é, em boa medida, um território aberto: às vezes você caminhará no PN, outras na APA e muitas fora de ambos.

Poço do Soberbo, Serra do Cipó, MG

Diz-se que existem 60 cachoeiras no Cipó. Portanto, não posso senão fazer uma rápida descrição das principais. Logo à entrada do Parque, você encontrará a Cachoeira Grande, baixa e comprida. O Rio Cipó é formado pela junção dos Córregos Bocaina e Mascates. No vale da Bocaina, você poderá conhecer as Cachoeiras do Gavião, das Andorinhas e do Tombador. No do Mascates, o Circuito das Lagoas, a Cachoeira Capão dos Palmitos, a Lagoa Comprida e, por fim, a Cachoeira da Farofa. As caminhadas variarão de 12 a 22 km ida e volta.

Cachoeira Congonhas, PN Serra do Cipó, MG

De todas as cachoeiras que conheci, a que mais me impressionou foi a de Congonhas. Suas quedas sequenciais percorrem altos campos áridos com uma rústica e mágica delicadeza. Mas talvez a mais estupenda seja a da Capivara, com duas quedas imensas, chegando a 110 m. Está localizada numa propriedade particular, numa situação de litígio que impede a visitação.

Não deixe de conhecer o Cânion das Bandeirinhas, com a apreciável extensão de 5 km, inseridos entre suas paredes fraturadas. Sua trilha é plana, com 12 km até a entrada da garganta, podendo ser percorrida de bicicleta ou a cavalo – assim como outras do Parque, o que foi uma novidade para mim.

Cânion das Bandeirinhas, PN Serra do Cipó, MG (Fonte: Divulgação)

Gostaria de fazer duas observações. Se você for escalador, visite o Morro da Pedreira, antigo local de exploração do mármore, onde existem duas centenas de vias. Elas lá começaram pelo esforço de André Ilha, entre outros. Quase foram interrompidas pela reativação da mineração de mármore. Mas o histórico movimento que abraçou fisicamente a pedreira conseguiu criar lá uma APA. E as escaladas continuaram, principalmente as esportivas.

O Cipó contém 40 sítios rupestres. O principal deles é o Abrigo da Lapinha: seu acesso é feito por barco pelo lago local, quando você poderá conhecer os diferentes vestígios das populações e pinturas antigas, datando de 4 a 8 mil anos. Estas são bastante expressivas, pertencendo à tradição planalto de Lagoa Santa.

Lago da Lapinha, Serra do Cipó, MG

O principal atrativo no PE Serra do Intendente é a Cachoeira do Tabuleiro, cuja queda de 273 m é a maior do Estado. É uma visão frontal e impressionante, com uma rocha ameaçadora, em especial quando aumenta o volume. Nas grandes chuvas, chega a haver 40 cascatas se precipitando parede abaixo. Mas o Tabuleiro é um tanto estranho, sua rocha tão vertical e sempre sombreada parecendo um tanto hostil.

São duas as trilhas até o Tabuleiro: por baixo (4 km) e por cima (17 km), nos dois casos ida e volta. Ambas têm seus méritos: a sensação do jorro d´água, a descida pendente e a presença do enorme poço por um lado, e o visual dos campos altos, dos remansos do rio e da abertura vertiginosa do cânion, por outro.

Cachoeira do Tabuleiro, PE Serra do Intendente, Conceição do Mato Dentro, MG (Fonte: Divulgação)

Existem muitas outras cachoeiras nas proximidades, especialmente a do Rabo de Cavalo (3 km) e de Congonhas (8 km). São quedas grandes, com mais de 100 m. Dois cânions são visitáveis: o do Rio Preto (15 km) e do Peixe Tolo (5 km). Este nome curioso parece oriundo dos peixes do poço que, ao nadarem em círculos, se deixavam facilmente capturar. No vértice do Peixe Tolo há uma formidável cachoeira, mas a progressão no interior da garganta é bem difícil.

Entrada do Cânion do Peixe Tolo, PE Serra do Intendente, MG

Como é comum na região, existem pinturas rupestres da tradição planalto, plena de animais e movimento – você irá encontrá-las na Lapa dos Gentios (5 km). Não deixe de visitar o pequeno Parque Natural Salão de Pedras, com rochas para boulder e o melhor pôr do sol da região. Será um bom momento para se despedir dela, mas não realmente para deixá-la, pois o Cipó continuará habitando sua memória e seu coração.

A cordilheira do Espinhaço tem um aspecto mais ameno na sua vertente leste, como você lerá a seguir, ao conhecer os Parques do Rio Doce

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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