O Garrafão

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Acho que a primeira vez que soube do Garrafão foi ao olhar pela janela dos fundos da extinta Pousada Alsene, nos altos do planalto de Itatiaia. Naquela época, o hoje geógrafo Maury Santos era um dos mais frequentes montanhistas da região. Lembro-me dele me indicando no distante horizonte uma grande massa abaulada à frente de uma corcova. A primeira era o Garrafão e a segunda, o Papagaio – estes relatos falarão destas duas montanhas, cada qual dominante em sua região, bem como de muitas outras, de nomes e aspectos curiosos.

O Garrafão debruça-se sobre o deslumbrante vale do Charco e é a mais elevada das formações do sul de Minas. Assim, sua vista alcança todos os grandes cumes locais, do Agulhas numa direção ao Papagaio na outra. Apesar disto, tem um contorno um tanto regular e discreto, que não sugere sua grande altitude.
 
O Pico do Garrafão, cujo nome oficial é Santo Agostinho, localiza-se na exata divisa entre os municípios mineiros de Itamonte e Alagoa. Isto fica a meio caminho entre importantes regiões serranas na Mantiqueira. Com 2.360m de altitude, ele é o ponto culminante de uma vasta área que compõe o circuito das Terras Altas da Mantiqueira.
 
Seu nome veio do antigo costume de esconder pepitas ou barras de ouro em garrafões de barro, durante o Ciclo da Mineração. Contam que, numa das lagoas do Charco, existe até hoje um rico garrafão submerso. Se você duvidar, pergunte lá onde fica o Túnel dos Escravos – e descubra a impressionante passagem escavada na rocha, para movimentar com as águas do rio uma antiga mineração dos jesuítas. 
 
Essa é uma região bucólica e despovoada, com uma morosa vida interiorana, de limitadas atividades pastoris. Suas paisagens são muito bonitas, em particular os altos da Serra do Papagaio e do Chapadão, os vales do Matutu, da Vargem e do Charco e suas muitas cachoeiras. Algum dia farei, a pé ou a cavalo, alguma longa travessia através de suas magníficas cristas e vales.
 
A vegetação é bastante rica, com aquelas espécies típicas da Mata Atlântica. Os rios são em geral tributários do Aiuruoca, que nasce nas grandes alturas de Itatiaia e corre no sentido do Rio Grande. E as formações rochosas, à medida que caminham para o norte, adquirem algumas feições de transição entre as rochas cristalinas da Mantiqueira e as sedimentares do Espinhaço.   
 
Percorri duas trilhas para o cume do Garrafão. A de ida, partindo de uma pequena pousada local, tem rumo basicamente norte, é um pouco mais longa, com talvez 4½ km e uma ascensão moderada, de 550 metros. É uma bela travessia de crista, onde você encontrará uma sucessão de morros em campos rupestres povoados por bromélias, que você irá contornando até o topo. 
 
Mas a trilha tradicional começa na Fazenda do Odir, onde você será sempre bem recebido e poderá provar do parmesão fresco feito por suas irmãs, um produto típico da região. Lá é uma espécie de enclave, mais distante social do que espacialmente das vilas mais habitadas – se não mudou, você ouvirá sobre lendas, monstros, tesouros e assombrações.   
 
Você estará no Charco, um espetacular planalto alto e plano, cercado de montanhas e coberto por verdes pastagens. Ele é, na realidade, um vale decorado de forma impossível por lagoas de coloração escura e atravessados pelos meandros do rio que as conecta. E quem fecha o vale é precisamente o amplo vulto do Garrafão. 
 
Esta é uma trilha no rumo oeste, menor do que a anterior, pois tem cerca de 4 km – porém é mais íngreme, com um desnível de 650 metros. Não é tão cênica, pois você estará subindo por uma encosta e não por uma crista. O rapaz na foto da aproximação do Garrafão é o saudoso amigo Aventureiro, que nos deixou de surpresa após uma doença fulminante. 
 
O cume do Garrafão é um local privilegiado, por ser uma formação alta e isolada. É por isto que de lá se avista o perfil recortado da Serra Fina e do Agulhas Negras a sul, os grandes maciços do Papagaio e do Canjica a norte e as formações próximas do Nogueira e da Mitra do Bispo a leste. 
 
Todo esse relevo alto e agitado forma um grande panorama que, por mais que você olhe, parece sempre se renovar na sua beleza intangível. Felizes aqueles que podem contemplá-lo sem pressa, necessidade ou ambição. 
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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