O Gigante Adormecido

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Embora tenha escrito nesta coluna sobre reservas no litoral do Sudeste, os textos apareceram ao longo do tempo em diferentes artigos. Gostaria de comentar de uma só vez sobre as imensas áreas de preservação que se interligam desde o Rio de Janeiro até o Paraná.

PE de Cunhambebe, RJ

PE de Cunhambebe: Essa história começa pelo norte em Cunhambebe, um recente Parque no Rio. Abrange as encostas altas dos municípios costeiros de Mangaratiba e Angra dos Reis, bem como as áreas das divisas com o planalto.

A estratégia para sua localização foi evitar as regiões agropastoris já ocupadas. Como resultado, seu desenho é terrivelmente recortado. Nas encostas do planalto, explorados desde os tempos do café, ele ocupa apenas os espigões das serras. Suas matas são portanto bem conservadas, embora secundárias.

Recoberto por densas florestas, possui montanhas com belos formatos e com cênicas vistas para o litoral, junto com rios encachoeirados, piscinas naturais e quedas d´água, além de paredes de escalada e rampas de voo livre. A Serra das Três Orelhas talvez seja sua maior atração, junto com as cachoeiras do Sinfrônio e do Espelho.

PN da Serra da Bocaina: Cunhambebe é adjacente a algumas áreas litorâneas, bem como com os 104 mil ha do PN da Bocaina. Esta é uma unidade antiga, e até hoje praticamente sem estrutura, apesar de ser bem conhecida.

PN da Serra da Bocaina, RJ e SP

A Serra da Bocaina é uma corcova por cima da Serra do Mar, entre São José do Barreiro e Bananal. Possui uma abundante cobertura vegetal, montanhas elevadas (em especial a Pedra do Frade), cachoeiras espetaculares e o badalado litoral de Trindade. É atravessada pela Trilha do Ouro, que desce o vale do Mambucaba até o litoral. Lá em cima, o Vale e a Cachoeira dos Veados são únicos.

Reservas da Joatinga e do Cairuçu: Nesta região litorânea, entre Trindade e Parati, existem duas UCs, o Cairuçu e a Joatinga. O Cairuçu não me parece ser visitado, mas a Joatinga é bem procurada pelos mochileiros. São lugares paradisíacos, com uma vegetação exuberante, um relevo desafiador e deslumbrantes praias desertas.

A travessia da Joatinga, usualmente feita em três dias, cruza a península de mesmo nome, passando por suas vilas caiçaras e chegando ao Saco do Mamanguá. Antes você conhecerá as inesquecíveis Praias do Sono e Martim de Sá. Há também montanhas exigentes, os Picos da Jamanta e do Cairuçu, e o agradável Pão de Açúcar, com uma soberba vista do Mamanguá, um esplêndido saco cujas bordas você pode percorrer a pé.

PE da Serra do Mar: Por sua vez, a Bocaina é contígua em São Paulo aos 332 mil ha do PE da Serra do Mar, que alcança os limites da Juréia. Ele é uma faixa contínua por toda a escarpa da serra, dividido em núcleos ao longo do seu comprimento, que abarca todo o litoral norte paulista, de Ubatuba a Peruíbe.

PE da Serra do Mar e Outras Áreas de Proteção, SP

É um Parque surpreendente, ainda que pouco conhecido. A impressionante muralha da serra, a densa floresta do planalto, as cachoeiras vertiginosas e os cumes montanhosos são suas maiores atrações. O Pico do Corcovado, a Trilha do Corisco, a calha do Rio Paraibuna e a Praia da Fazenda são lugares de especial beleza. São muitos os caminhos, normalmente de descida, com todos tamanhos que você possa imaginar.

EE da Jureia: A estação da Juréia é uma reserva muito antiga, com mais de meio século. Sua atual área é de 84 mil ha (fora outras desmembradas). Estende-se no litoral paulista desde Peruíbe até Iguape. Diferentemente do que se acredita, tem um formato retangular, por incorporar o interior da Serra de Itatins, onde está o abrupto Dedo de Deus Paulista.

Estação Ecológica da Jureia, SP

Esta Estação realmente não se conecta com as reservas próximas, seja o PE da Serra do Mar ou o Mosaico de Jacupiranga. Do seu acesso vigiado, só conheço as praias nas duas extremidades.

Mosaico de Jacupiranga: Teríamos agora uma descontinuidade, pois as áreas dos parques a seguir serão principalmente interioranas e não costeiras. Refiro-me ao Mosaico de Jacupiranga no Vale do Ribeira. Sua origem é uma antiga reserva, que nunca conseguiu funcionar. Isto ocorreu porque ela se sobrepôs a áreas habitadas por antigas comunidades, estimulou conflitos fundiários e foi ocupada por bairros criados a partir da rodovia que a atravessa.

Mosaico de Jacupiranga, SP

Porém, mais recentemente, foi criado o Mosaico Jacupiranga, cujos 244 mil ha passaram a abrigar cinco PEs, além de uma dezena de reservas. Estas foram criadas para acolher as atividades existentes, sejam de quilombolas, caiçaras, caboclos ou indígenas. Os PEs têm um relevo terrivelmente acidentado e incluem como principais pontos de interesse a Ilha do Cardoso e a Caverna do Diabo.

Entretanto, a imensa APA da Serra do Mar (SP) – de 424 mil ha, segundo dados recentes – é responsável pela articulação entre esta serra e a região do Ribeira. Ela abrange basicamente a Serra de Paranapiacaba, que corresponde à escarpa interiorana da Serra do Mar – pois, no sul do Estado, não existe a muralha serrana frontal à costa, por ser recuada.

Corredor de Paranapiacaba: Mas Jacupiranga é também adjacente a outras importantes reservas. Por estarem ao norte do Ribeira, mais longe do litoral, ocupam terras mais altas, sem o benefício da orla marítima. Isto é entretanto compensado pela presença de cavernas estupendas, que fazem delas locais únicos.

Mosaico ou Corredor de Paranapiacaba, SP

O corredor florestal que agrega estas reservas – algumas vezes chamado de Mosaico de Paranapiacaba – atinge 250 mil ha, conforme informação atual. Há a presença de fauna de amplo território e abundante mata atlântica.

A mais conhecida reserva é o PETAR, o parque das cavernas calcárias em Iporanga – com esplêndidas formações como Casa de Pedra, Temimina e Santana. Mas o vizinho Intervales é também precioso e variado. Mais acima está o PE Carlos Botelho, que convive com as bacias do Ribeira e do Paranapanema.

Mapa do PETAR e Intervales, SP

APA de Guaraqueçaba: Estamos agora na divisa com o Paraná, onde existe a área de proteção de Guaraqueçaba, com 282 mil ha. Ficam ao sul Antonina e Paranaguá e, ao norte, Guaraqueçaba. Esta foi uma região duramente afetada no passado pelo extrativismo vegetal e pelos conflitos sociais. Guaraqueçaba é um contínuo de serras e planícies com densa cobertura florestal Lá só conheço o Salto Morato, onde existe estrutura para visitação.

APA de Guaraqueçaba, PR

Nela está incluído o PN de Superagüi, com a ilha de mesmo nome – a rigor nem ilha era, pois foi criada pela abertura do Canal do Varadouro, para facilitar a navegação entre Cananeia e Paranaguá. Superagüi integra o chamado Lagamar de Cananéia, região de restingas, mangues e praias de Iguape até Paranaguá. Repleta de canais e estuários, de planícies e serras, é criatório de variadas espécies, entre as quais os botos e os guarás.

Mais além está o minúsculo PE da Ilha do Mel, de onde você pode ensaiar uma travessia de bike de três dias até o Cardoso. Entre São Paulo e Paraná existe ainda o PE das Lauráceas. Estas são canelas, árvores que nesta região chegam a grande altura e que o Parque visa naturalmente proteger.

APA da Serra do Mar (PR): Nas vizinhanças existem algumas pequenas unidades de conservação, em particular as que envolvem os conhecidos Picos Marumbi e Paraná, bem como a que acompanha a primorosa Estrada da Graciosa. A maior parte destas áreas é circundada pela APA da Serra do Mar do Paraná. A primeira dessas montanhas representa a origem do montanhismo paranaense. E a segunda é o ponto culminante da Serra de Ibitiraquire – ela integra um terrível conjunto de três dezenas de formações, de difícil acesso e travessia.

APA da Serra do Mar, PR

A Importância das Reservas: Acho interessante comentar que estas reservas não são importantes apenas individualmente. Existe um outro fator, ligado à sua conexão. Há hoje uma grande preocupação em uni-las, criando os chamados corredores ecológicos.

Esta conexão permite a dispersão das sementes e o deslocamento dos animais, que contribuem para o fluxo dos genes, aumentando e diversificando a cobertura vegetal e a população animal.

Por exemplo, existem espécies animais, como lobos e onças, que demandam áreas enormes para sua sobrevivência. Uma reserva individual pode ser pequena demais para mantê-las – porém suficiente, se ligada e somada a outra. Ou ainda, há espécies vegetais que se desenvolvem de forma consorciada, beneficiando-se da biodiversidade de duas diferentes regiões conectadas.

A Razão das Reservas: Mas porque ocorrem exatamente aqui, entre Estados populosos do Sudeste, tão grandes extensões preservadas? Não seria de se esperar que estivessem no Nordeste ou na Amazônia? Fiquei pensando sobre quais seriam as razões e acredito que há duas.

Estas regiões protegidas correspondem em geral a locais serranos de difícil acesso, com relevos íngremes, densa cobertura vegetal e solos pobres. Neles nem a pecuária nem a agricultura prosperou, apenas o extrativismo. Isto explica sua reduzida população, composta com frequência por gente despossuída.

A segunda razão seria o movimento de preservação da natureza, que naturalmente se fortaleceu no Sudeste brasileiro antes das demais regiões do País. Muitas das áreas preservadas foram fazendas extrativistas desapropriadas. Lembro ainda os exemplos de André Ilha na demarcação de Cunhambebe, Richard Krone na pesquisa do PETAR, de Paulo Duarte na defesa do Cardoso, Clayton Lino na formação de Jacupiranga e Paulo Nogueira na criação de Guaraqueçaba.

O Gigante Adormecido: Desta forma, algo como 600 km de nosso litoral, de Mangaratiba à Ilha do Mel, estão hoje envolvidos por áreas de conservação permanente. Se não houve dupla contagem, elas atingem 2 milhões de ha, uma extensão amazônica (ver mapa anexo).

Gigante Adormecido: Reservas Litorâneas do Sudeste

Para você ter uma ideia, equivale à metade do Estado do Rio ou da Dinamarca e a todo Israel. É inacreditável que não tenhamos a percepção deste monumental esforço de conservação de nossa natureza. É como se estivéssemos diante de um gigante adormecido.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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