O Gigante Dormente

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Na coluna anterior, comentei sobre um mosaico gigantesco que se estende, sem que tenhamos plena noção, desde o Rio até o Paraná. Chamei-o de Gigante Adormecido. Nas minhas andanças, encontrei uma situação semelhante, como você saberá a seguir.

O São Francisco: Nossa história começa com as compensações ambientais decorrentes do Projeto Jaíba, no norte mineiro. Ele foi concebido na década de 1970 como nosso maior plano de agricultura irrigada. Só iniciou sua operação em fins de 1980, e numa dimensão muito menor. A partir de 1990, foi reformulado, para incluir a iniciativa privada. Até hoje inacabado, ele é uma realidade concreta, embora modesta.

O objetivo de usar as águas do São Francisco e seu afluente Verde Grande para a produção de frutas e hortaliças gerou contrapartidas com a criação de reservas naturais. Uma série de Parques Estaduais e Áreas de Proteção foram estabelecidos, todos eles na margem direita do São Francisco, onde fica o Projeto.

Mapa das Reservas do São Francisco, MG

Foram fundados dois PEs ribeirinhos, Verde Grande e Lagoa do Cajueiro, bem como duas APAs, chamadas de Sabonetal e Lajedão. Ficam entre as vilas de Manga e Itacarambi. Mais tarde, surgiu o PE Mata Seca na margem esquerda. Junto com outras pequenas reservas, estas UCs somam 166 mil ha.

Os principais atrativos são os impressionantes lajedos calcários, que abrigam uma exótica vegetação de cactos rasteiros e árvores barrigudas, embaixo dos quais correm labirínticas cavernas ainda não completamente exploradas. Nas margens do São Francisco ocorrem inúmeras lagoas, algumas das quais muito bonitas, que funcionam como berçários para seus peixes e ninhais para suas aves.

O Peruaçu: No passado, esse rio hoje apenas intermitente foi capaz de forçar sua passagem através dos maciços calcários que o limitavam, esculpindo uma série estupenda de cavernas ao longo de seu cânion. Muitas delas contêm pinturas rupestres ancestrais, em estilos ainda mais variados do que os da Serra da Capivara.

Mapa do PN Cavernas do Peruaçu, MG

A Gruta do Janelão é sua maior atração, com uma dimensão gigantesca, iluminada por três claraboias. O Arco do André, a Lapa do Caboclo, a Gruta Bonita e a Lapa do Rezar têm cada qual uma situação diferente – grutas enormes, inscrições rupestres, mirantes rochosos, decorações calcárias, anfiteatros profundos.

À volta do PN existe uma grande Área de Proteção, bem como o PE Veredas do Peruaçu, que não lhe é adjacente. Este último, recoberto por cerrado e caatinga, tem um desenho estranho, pois só protege a margem direita do rio – existe um projeto para sua ampliação. As três unidades do Peruaçu atingem 236 mil ha, nos municípios de Itacarambi e Januária.

Mapa do PE Veredas do Peruaçu, MG

Esta região era habitada pelos índios xacriabás, a quem foi doado um imenso território, que descia até o São Francisco. Desde o período colonial, foram sendo espoliados, remanescendo com duas reservas de 53 mil ha em São João das Missões, que alegam não serem suficientes para sua subsistência.

O Pandeiros: As APAs de Pandeiros e Cochá-Gibão são gigantescas, atingindo nada menos que 696 mil ha. Estes simpáticos nomes designam três rios de porte médio que atravessam o território a oeste de Januária, todos os três originando-se nele.

Mapa da APA de Pandeiros, MG

Esta é uma região coberta por um cerrado e uma caatinga muito lenhosos e áridos, numa região de solos arenosos de baixa fertilidade. Ocupada tradicionalmente pela agricultura familiar e pela pequena pecuária, sua economia passou por uma ruptura quando o governo mineiro lá introduziu a produção de carvão vegetal, para suprir a siderurgia. A degradação ambiental resultante ocasionou a criação das reservas.

Se o Pandeiros é um curso que quase desaparece na seca, o Cochá e o Gibão são rios mais perenes e caudalosos. As três cachoeiras do Pandeiros e a dupla queda do Gibão são muito apreciadas. Vale lembrar que quando o Pandeiros se espalha pelas várzeas ele forma o chamado Pantanal Mineiro, ao sul da reserva. Lá são encontradas grandes quantidades de peixes e aves.

Lembro que todo este vasto território do norte mineiro, do leste goiano e do sul baiano contém grande diversidade, por ser um encontro de diferentes ambientes naturais. Possui um bioma próprio, a mata seca das barrigudas, umburanas e macambiras. E serve de abrigo para uma de nossas faunas mais diversificadas depois da do Pantanal.

Araras e Acari: O território calcário termina no Rio Pardo, um afluente do São Francisco que não deve ser confundido com a bacia de mesmo nome que chega ao mar na Bahia. A partir dele, começam os terrenos areníticos, na característica coloração avermelhada. Eles formam a radical Serra das Araras, com uma crista que leva a um extenso chapadão. A motivação para o PE foram as denúncias de desmatamentos ilegais. Esta é uma região de longas veredas, ornadas pelas palmeiras buriti, capazes de reter a água durante a seca e de abrigar à sua sombra um consórcio de plantas.

Elas formam um maravilhoso conjunto ao longo do Rio Acari, numa reserva que resultou de uma agressão à natureza – uma empresa reflorestadora adquiriu toda a gleba e começou a retirada do cerrado com uso de correntes. Entretanto, até hoje os limites do PE e da RDS são invadidos por posseiros, que criam gado, extraem madeira e causam incêndios no seu interior. Esta área de 71 mil ha poderá no futuro ser unida num parque único.

Existe na proximidade um cânion surpreendente, escavado pelo Rio Pardo. Não possui paredes altas, próximas ou contínuas, mas é muito extenso, com mais de 40 km, o que o faria o maior do país. Abraça as comunidades de Buracos e Buraquinhos, num belo panorama de muita vegetação ao longo do vau formado por suas paredes avermelhadas e irregulares.

O Grande Sertão: Há cerca de quatro décadas, um projeto de assentamento atraiu gaúchos para terras remotas no noroeste mineiro, antes colonizadas por vaqueiros e bandeirantes. Eles fundaram então a Vila dos Gaúchos que, com um plebiscito quase vinte anos depois, teve o nome mudado para Chapada Gaúcha.

Mapa do PN Grande Sertão Veredas, MG e BA

Nele foi criado um PN para preservar a paisagem dos gerais, longos campos recobertos pela vegetação do cerrado, antes que se transformassem em culturas de soja – que você encontrará em enormes fazendas ao longo dos chapadões da região. Foi chamado de Grande Sertão Veredas em homenagem a Guimarães Rosa, que escreveu sobre a região.

Ele foi mais tarde expandido para incorporar áreas na Bahia, que hoje representam 2/3 de seu enorme tamanho de 231 mil ha. De relevo plano ou ondulado, seu bioma é o cerrado, com muitas veredas cênicas ao longo dos Rios Preto (MG) e Itaguari (BA). Possui duas cachoeiras conhecidas, Mato Grande e Gavião, e uma ascensão interessante ao Morro Três Irmãos. Mas no futuro deverá inclui muitos novos atrativos – pois ainda apresenta quase nenhuma estrutura ou visitação.

Mapa do Mosaico Peruaçu-Grande Sertão, MG e BA

O Mosaico: Se você agregar todas estas áreas, chegará ao inacreditável tamanho de aprox. 1.500 mil ha, como indicado no mapa anexo. Mas qual é o efeito deste aparentemente gigantesco esforço de conservação?

Sinceramente, medíocre. Em todas – repito: todas – as reservas referidas neste artigo as agressões à natureza são toleradas, com uma indiferença que parece negar o propósito de sua criação.

Quer saber? Os quilombolas alojados na Lagoa do Cajueiro degradam a natureza tanto quanto os vazanteiros que invadiram o Verde Grande e a Mata Seca. Há uma serraria que opera dentro do Cavernas do Peruaçu – já pensou qual é a madeira que ela processa?

Gigante Dormente: Mosaico do Peruaçu

A reserva dos xacriabás foi uma das que mais contribuiu para o desmatamento – logo os índios, que sabem conviver em equilíbrio com o meio, que nunca foram extrativistas, certo?

Provavelmente você não acreditou que o próprio Estado tenha fomentado as atividades de extração de carvão vegetal no Pandeiros. Confesso que isto aconteceu comigo. Até que atravessei a região e conheci o horrendo cerrado secundário que resultou da queima da flora original.

Você já leu acima sobre os posseiros invasores na Serra das Araras e na Veredas do Acari. E você imagina que não frequentem os enormes territórios do Grande Sertões, ainda mais as extensões desconhecidas da Bahia? É cruel, mas 15% da área do mosaico foi desmatada nos últimos dez anos.

Deixo você com uma questão. Os recursos do planeta estão subordinados à sobrevivência dos humanos – sua abundância, crescimento, prosperidade. Mas onde quer que esteja, eu vejo a natureza definhar – o solo fraco, as matas vazias, os rios secos, os bichos extintos. O que é hoje mais crítico? O animal escasso e a floresta devastada ou a obesidade e o consumismo humanos?

Parodiando Guimarães Rosa: mire, veja, quando a natureza cair, nós cairemos junto.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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