O Lobisomem de Biritiba-Mirim

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Fazia tempo que não pisava no “Sertãozinho do Tietê”, em Biritiba-Mirim (SP), mas a noticia recente do falecimento do seu personagem mais folclórico me fez lá voltar estes dias. Com seu chapéu surrado, facão na cintura, cigarro na mão e lata de Itaipava na outra, Seu Geraldo era figura carimbada pra quem tivesse o posto da Balança como ponto de partida pra suas aventuras. Também conhecido como “Lobisomem” e entendedor daquelas matas como ninguém, Seu Geraldo foi quem mais me norteou em descortinar aquele pouco conhecido sertão da Serra do Mar. Este relato é dedicado a ele, onde refiz um circuito proposto por esse velho mateiro, indo atrás da “Cascatinha do Grotão” e tentando entender melhor quem realmente ele foi.

O dia estava radiante e limpo naquele dia útil de semana que tirei livre somente pra isso. Sim, tenho evitado a quase dois anos a região de Biritiba-Mirim aos domingos pela desgastante tarefa de levantar cedo e pelos demorados translados envolvidos no processo. Pra piorar, na volta não raramente se pega congestionamento na rodovia, atrasando mais o retorno pra zona de conforto. Pra evitar tudo isso resolvi me programar e ir lá numa quarta-feira bem cedo afim de estar já cedo em casa. Afinal, queria otimizar ao máximo a pernada antes das tradicionais pancadas de tarde, típicas deste inicio de verão. Coisas de quem já tá enxergando fios alvos na barba..

“E ai, gringo! Vai pra onde hoje?”, era como Seu Geraldo sempre me recebia assim que saltava no posto da Balança, no km 77 da Rod. Mogi-Bertioga (SP-98), onde eventualmente vendia hortaliças aos motoristas. Conversando rapidamente com os donos dos dois botecos obtive mais infos do falecimento do velho mateiro que sempre recebia andarilhos e os entupia com deliciosas estórias, conversa furada e algumas lorotas também. Disseram que ele estava no bar, como era costume, e começou a passar mal sentindo fortes dores no peito. O pessoal se ofereceu pra levá-lo pro posto de Mogi mas ele, teimoso feito uma mula, preferiu se recolher em seu casebre. Não foi mais visto. No dia sgte deram sua falta no boteco e foram pra sua casa, onde ainda jazia deitado na cama, sem vida. Tivera um infarto fulminante recorrente de problemas vasculares que não tratara de forma apropriada.

Andei então os kms restantes a margem do asfalto e em menos de meia hora pisava no “Picadão do Geraldo” (ou “Trilha do Lobisomen”), antiga vereda extrativista que homenageia seu morador mais ilustre. Reparei que puseram outra vez a antiga cancela, e de modo a que nenhum veiculo mais adentrasse ali. E não era pra menos, uma vez que o lugar já foi palco de desmanches, dos quais até o Geraldo tirava um “por fora” apenas pra ficar de boca fechada. Mas quando a policia desbaratinou o esquema, o velho danado se safou dando uma de desentendido. Sim, ele tinha lábia impar, embora ela tenha sido insuficiente pra livrá-lo da xilidró por ter matado alguém numa briga, décadas atrás.

Na altura do primeiro casarão que servira ultimamente de residência pro velho nenhuma vivalma, mas com sinais de roçagem de boa parte da mata ao redor. O suor devido ao calor já escorria pelo rosto quando saltei as pedras pelo Córrego do Lobisomem. Ali a antiga casa do Geraldo ainda está de pé, bem mal conservada e com as portas e janelas lacradas. Lembro quando a gente passava ali e o velho nos chamava pra conversar ou tomar café, do lado duma gatinha a qual chamava de “Chaninha”. Este local foi que ele adotou como sua residência por quase 15 anos, após uma sequência de problemas familiares e com a justiça. Sim, ele tinha esposa e filho que moravam na cidade, mas que não queriam vê-lo nem pintado. Dizem que era por seus eventuais surtos recorrentes do uso de “tóchicos”..

O que a maioria sequer conhece é que bem perto dali o velho tinha seu balneário particular. Adentrando uma picada pela esquerda com algum mato alto, mas reconhecivel a olhos treinados, num piscar de olhos se alcança um belo piscinão de cor acobreada. Vestigios de fogueira denunciam que o lugar ainda é frequentado neste que sempre chamei de “Poço do Geraldo” e que não perdi oportunidade em me refrescar. Um tchibum naquele comecinho de pernada não faria mal a ninguém, né? Dureza é sair do poço, uma vez que a enorme laje de pedra a sua volta é inclinada e tremendamente escorregadia de limo, me levando de volta á água toda vez que queria sair de lá.

Voltando a pernada me pirulito picadão adentro, sempre na direção nordeste. As fortes chuvas do dia anterior deixaram não apenas muitas arvores tombadas mas também bastante alagadiço boa parte do caminho, portanto esqueço qualquer idéia de pé-seco. Mas desperta minha atenção as varias ramificações transversais que nascem da principal. Depois tomei conhecimento que o pessoal da Sabesp andou medindo a altimetria local pra passagem de futuras tubulações que canalização do Rio Sertãozinho pra alguma represa próxima. Tomara que isto ainda demore muito a acontecer, do contrário a região estará com seus dias de trilhas contados.

A mata me envolve cada vez mais conforme prossigo picada adentro e vida animal se incomoda com minha presença, uma vez que enormes calangos e galinhas-do-mato fogem a minha passagem. Mas é triste constatar como a picada foi alargada em muitos trechos, onde parece que um trator passou roçando as margens. Será que esse será o destino desta picada, espinha dorsal de tantos atrativos? Ainda lembro a primeira vez que andei aqui, década atrás, orientado pelas dicas do velho. Bom tempo aquele onde a gente se norteava por suas descrições verbais na base da tentativa e erro, aprendendo a se virar e tendo mais intimidade com este sertão a cada investida. Hoje se encontra facilmente pontos plotados da Furada, Sapo, Light, etc.. dando tudo mastigado pra grupos “trilheiros-eco-farofa”, que não raramente são os que emporcalham e aparecem nas manchetes de perdidos do Datena. Aquele naipe de gente que diz defender a natureza, mas pouco sabe de impacto ambiental ao levar trocentas pessoas num lugar que mal comporta 10… Mas já já retomo esse tópico.

Claro que uma maior incidência de visitantes aqui fatalmente afasta os bichos, pois já não encontro as onipresentes pegadas de antas de outrora; e caçadores também, embora tenha visto uma decrépita tocaia a muito não utilizada. Mas isto apenas até pouco depois do segundo pontilhão, onde o terreno se abre mais revelando a silhueta escarpada e proeminente do “Pico Peito de Moça”, ao norte. Aqui o Geraldo afirmava a existência de onças, que o Ibama havia liberado mais um tanto e que tinham devorado um cavalo perto dali. Não duvido disso, mas tenho minhas ressalvas de que elas optem por se deparar com o bicho homem.

Até a bifurcação “Desbravadores/Andes” a trilha felizmente mantém seu traçado original e presumo que até o Sertãozinho idem. Retrocedo então pra adentrar na “Trilha da Água Fina”, onde atualmente tem uma placa que antigamente inexistia. Dali em diante o caminho esta muito bem fitado e repleto de marca de pneu de bike, sinal de que a vereda foi de fato expandida pra essa finalidade. Mas quem fez isso não contava que a passagem de magrelas fosse apenas colaborar com a erosão do caminho nos trechos onde ele ganha aclive. Enormes valas e buracos surgem onde antigamente não havia nada disso. Não bastasse, colocaram pontilhões (desnecessários) de madeira onde antes não havia, justamente pro biker não ter o trabalho de descer da magrela e saltar os vários córregos que descem a encosta. Sem contar nas árvores derrubadas pra facilitar o trânsito, no trecho final.  Um absurdo.

Cruzo a “Toca da Onça” e dou uma rápida bizoiada da “Cascata da Água Fina”, cujo rugido se torna mais óbvio conforme se ganha altitude. Mas reparo que seu acesso final pela encosta ficou dificultado pela queda duma enorme árvore barrando acesso á clareira próximo dela. Mas com jeitinho é possível sentar nos rochedos a frente da cachuzinha. A queda não é lá essas coisas, pois não passa duma laje por onde escorre água, mas naquele dia tinha um aspecto mais interessante pelo volume dágua maior despencando nela. Cachoeiras, aliás, é o que não falta nesta região. O velho dizia que as mais bonitas não estavam no Sertãozinho e sim em seus afluentes, escondidas nas dobras do serrote do Sapo. A Lagarta, do Gavião, do Macaco e do Grotão são algumas delas, sendo que esta última nunca estive embora recordasse vagamente a descrição norteada pelo velho. Quem sabe hoje trombasse com ela?

Retomei novamente a pernada em meio a profusão de enormes rochas e pedras pipocando a encosta que, desnudas ou cobertas de bromélias, se amontoam na encosta formando grutas, lapas e toda sorte de formação geológica. Aliás, estes agrupamentos rochosos são bastante comuns na região e recordo do Geraldo comentar que quando “sua hora chegasse” partiria pruma caverna que só ele conhecia mas não disse sua localização a ninguém. Eu bem que tentei convencê-lo a me contar onde era a troco duma Itaipava (algo que geralmente fazia efeito) mas o velho se manteve irredutível. Mas suspeito que o local seja próximo do Sapo, nas “Grutas de Beltenebros”, grotões enormes mais próximos da picada principal. Independente disso e devido as cirscuntâncias, o desejo do Geraldo não foi atendido e o local do seu suposto repouso descansa junto com ele.

Depois do amplo selado serrano começo a descer por outro lado, onde reparo que a bonita “Pedra do Navio” se encontra pichada e os autores fizeram questão de deixar sua procedência – Suzano. É, isso que dá reabrir, sinalizar trilha ou disponibilizar pontos plotados pra qualquer um. Nem o Sergio Beck disponibilizava tracklogs justamente por isso. “O farofeiro quer tudo de mão beijada, tem preguiça de ler e não sabe interpretar um relato, coisa que só um trilheiro de fato se dá trabalho de fazer..”, dizia ele.

Concordo plenamente. Com Seu Geraldo era a mesma coisa. Havia que saber interpretar o que dizia, de ter sintonia com o que o velho queria realmente dizer. Por sorte anotei várias outras dicas sussurradas por ele, que ainda terei de separar um tempo só pra decifrar e algum dia ir atrás. Ainda bem que a região ainda guarda segredos que dificilmente se tornarão rotas digitais pra baixar no aparelhinho.

Durante a íngreme descida, apesar de toda trilha descaracterizada pela passagem das bikes, fui observando os detalhes na mata e a margem do caminho. O ruído de muito água descendo a encosta em meio a mata e as enormes pedras a minha direita reacende minha atenção, onde encontro um rabicho de picada no mato. Bem descaracterizada mas perceptível a quem tiver farejo de trilha, a discreta via subia a encosta e mergulhava diagonalmente nela, descendo por trás de um enorme rocha coberta de caraguatás, galhos e cipós. Logo me veio a mente a dica do velho anteriormente citada, a tal “Cascata do Grotão”..

Pra minha surpresa, num piscar de olhos tropeço com uma enorme caverna, na verdade uma gruta formada de 4 enormes blocos rochosos, e do lado a água despencava por uma laje de forma similar á “Cachu da Água Fina”, pra depois mergulhar nas entranhas de pedra encosta abaixo. Mas o que me impressionou mesmo foi a gruta, pois a luz adentrava por uma fenda superior – uma mini clarabóia – que mesclado ao filtro vegetativo proporcionava um maravilhoso efeito visual, a semelhança dos melhores visus do Petar ou Chapada Diamantina! A descrição com a dica do Geraldo conferia, só faltava o poção que mencionara ter junto. Contornei a pedra, descendo mas acompanhando o paredão pela encosta e encontro o lugar onde a água da ressurgência das pedras se acumulava num belo poço, pra depois seguir seu rumo serra abaixo. Bem, tudo batia com a descrição do Geraldo, logo devo presumir que aquele ai era a tal “Cachu do Grotão”. E claro que me presenteio com um tchibum no mesmo pra celebrar o achado, envolto pelo canto metálico duma araponga próxima.

Satisfeito pela descoberta casual, retomo minha rota principal deixando uma discreta marcação de cipós perto da entrada da picada da grota. Em questão de poucos minutos desemboco no bosque de reflorestamento de eucaliptos da Faz. Forquilha, onde tomo a direção da minha saída tradicional, sob o inconfundível olhar da Pedra do Sapo, ao sul. Mas ao invés de sair por minha rota de fuga convencional opto por testar outra vereda que vai no sentido desejado, mas em questão de minutos me larga nos fundos da Faz. Serra Verde. Os latidos estridentes de cães impedem que passe despercebido mas felizmente chego ao portão de saída antes de ter de dar satisfações pela “invasão”.

Dali pra “Estrada da Adutora” é um piscar de olhos. Conforme o previsto, um negrume começa a se formar no céu dando fim ao período de permanência do Astro-Rei. Apesar disso, o calor ainda persiste e nos finalmentes ainda me brindo com um terceiro tchibum refrescante, desta vez no balneário dum afluente da represa Jundiaí, a margem da estrada. Devia  ser coisa de 16hr quando finalmente cheguei na pacata Manuel Ferreira, onde além de bebericar minha sagrada cerveja obtive mais informação sobre Seu Geraldo, que apenas complementou a que já sabia.

Na última vez que tive com ele queixava-se de fortes dores na perna, que o afastou de trabalhos mais exigentes fisicamente. Fez angioplastia pra remover toneladas de gordura que entupia suas veias e tornou a ter mais de mobilidade. Mas infelizmente dava pouca atenção a cuidados com a sua própria saúde. Continuava fumando, comendo qualquer coisa e vivendo a boêmia da noite, coisas que nunca largou. O pouco que ganhava não se furtava de torrá-lo em seus vícios e na mulherada. Foi vendedor, caçador, palmiteiro, açougueiro, marceneiro, servente de pedreiro, feirante e Deus-sabe-mais-quê. Era o retrato típico do brasileiro que veio do nordeste atrás duma vida melhor, mas por coisas do destino fincou pés aqui, trocando o sertão seco pernambucano pelo verdejante de Biritiba-Mirim. Seu último trampo foi o de vender jogo-do-bicho, mas dizem que deu calote no “chefe” pra gastar o que tinha vendido. “Já tô pronto pro barbudão vir me buscar!”, dizia ele com frequência, como que prevendo que já estava nos descontos. Partiu ainda novo, com apenas 59 anos, embora este pernambucano de nascença aparentasse ter muito mais.

Malandro, vagabundo, cafajeste, sem-vergonha, gandaieiro e tantos outros foram os adjetivos que ganhou de muita gente que o conheceu durante todos estes anos. Entretanto, pra galera trilheira será sempre o figuraça do Seu Geraldo, aquele pitoresco tiozinho que contava deliciosas estórias e indicava onde ficavam os picos e cachoeiras de Biritiba-Mirim. O “Lobisomem” deu seu último uivo sozinho, final de setembro, enfurnado em seu casebre no meio do mato e do jeito que gostava. Devia estar satisfeito, pois este misto de Forrest Gump com Crocodilo Dundee tupiniquim viveu dura e intensamente até o último momento. Até mais, Seu Geraldo! Um dia te encontro pra trocar idéia e tomar umas, quando for a hora do “barbudão” me chamar. 

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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