O Marins, o Soldado e o Menino

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Acredito que, de alguma forma, pertenço à Serra da Mantiqueira, é o meu lugar no mundo. E, na Mantiqueira, sempre me deslumbrei por suas montanhas, a meu ver as mais belas do Brasil.

Claro que tenho minhas preferidas e, entre elas, está o Pico dos Marins. Ele é o ponto culminante de um dos três principais maciços formadores da Mantiqueira, uma montanha monumental que amedronta quem a olha de baixo.

Cume do Marinzinho à frente do Marins, Marmelópolos, MG

Quando eu o conheci, o acesso era bem mais longo. Havia uma rampa que os carros da época nem sempre conseguiam subir. E aquela estrada assassina até o Morro do Careca ainda não havia sido construída. Levei cinco horas até seu cume, até mesmo porque não conhecia a trilha, que tem lá seus detalhes. Isto é o dobro do tempo normal de um bom caminhante hoje em dia.

Inicio da Trilha do Marins, Delfim Moreira, MG

Numa de minhas idas posteriores, fomos ultrapassados por alguns soldados, numa manhã de muito calor em setembro. Eles me impressionaram por suas fardas pesadas e por seu passo forçado, parecia que estavam em alguma missão. Continuamos nossa trilha mas não os encontramos nem ao subir nem ao chegar ao cume. Julguei que teriam optado por outro caminho – por exemplo, o Marinzinho, numa rota que prossegue ao lado do pico.

Nas Paredes do Marins, MG

Ao descermos a encosta da montanha depois do cume, ouvimos gemidos e encontramos um dos soldados. Morto de sede, estava caído e incoerente. Chamamos e logo apareceu seu companheiro, que explicou terem errado a rota ao subir em frente (a trilha do Marins muda de rumo no meio da montanha), exaurido suas forças à busca do caminho (que sobe à esquerda) e consumido a água de seus minúsculos cantis (que pareciam infantis).  O terceiro soldado descera à busca de socorro. De fato, nós o encontramos quando chegamos lá em baixo, com os contatos para o resgate já feitos.

Vista do Maciço dos Marins a partir do Morro do Careca, MG

Lembrei-me da história do menino que nunca voltara daquela montanha – e que naquela época assombrava muitos dos que lá iam. Lembrei-me também da casinha de onde ele e seus amigos escoteiros saíram, trinta anos atrás numa manhã de junho. Durante anos, sempre levava algum mantimento para Seu Afonso, que morava nesta casinha e que tão bem nos recebia. Era sempre um momento de relaxamento antes da longa subida. Mas deixei de ir lá depois que sua esposa me disse que ele morrera – e nem sei se a casinha ainda existe.
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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