O Morro do Leite Sol

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Geograficamente atende pelo nome de Serra da Bocaina embora alguns apelidem de Pedra do Índio devido a sua semelhança com um indígena deitado. Contudo, é mesmo por Pico do Leite Sol que esta simpática elevação rochosa é popularmente conhecida, isto por conta da antiga fábrica de laticínios situada a seus pés. Independente de nome, este serrote integra um conjunto de baixas colinas de composição granítica situado a oeste de Bragança Paulista, 70km de Sampa. Como cartão-postal, símbolo e patrimônio ecológico da cidade, atingir os 1250m de pura rocha do seu ponto culminante é a coisa mais sussa e simples do mundo. Este é o relato do nosso rolê nesta modesta serrinha na “Terra da Linguiça”, que atrai praticantes de várias modalidades outdoor.

Com temperaturas mais baixas, céu despido de nebulosidade e impossibilidade de banhos no fundo de vales, chega enfim a Sampa a temporada de montanha. Ou de morros, que foi nosso caso. Por conta do descondicionamento geral dos integrantes do grupo, a idéia de dar pontapé nalguma elevação demandava uma condição primordial: ser próximo, tranquilo e sem grande dificuldade ou desnível. Como já tinha algo em mente nem foi preciso sequer abrir meu computador, e a escolha foi certeira e direta, ou seja, o Pico do Leite Sol, que nada mais é um morrote que já conhecia desde o século passado mas que demandava revisitada. E assim foi.
Rasgávamos o asfalto da Rod. Fernão Dias (BR-381) naquele comecinho de manhã com promessa de bom tempo eu, a Aline, o Luis, a motora Carol e a espivetada Chiara, parceira canina de muitas aventuras. Aliás, era o primeiro rolê com a pulguenta deste ano, pois a danada teve outras atribuições que a impossibilitaram de participar dos rolês dominicais. Assim, após cerca de 65km e pouco antes de beirar os limites mineiros, adentramos na pacata Bragança Paulista exatamente ás 9:30hr. De origem bandeirante e atualmente considerada “Estância climática”, Bragança respira o típico ar do interior aliado ao da modernidade, o que lhe confere um certo charme.
Pois bem, o caminho natural após abandonar a Fernão Dias já praticamente passeia pelo lado dum dos grandes cartões postais da cidade, o bonito Lago do Taboão, que naquele momento refletia um céu azul límpido espetacular. Aqui é preciso atentar á sinalização (muito boa) sentido Itatiba, não tem como errar. Assim após rodar toda Av. Dom Pedro e o início da Av. dos Imigrantes, nos pirulitamos pela estrada que leva á Itatiba, ou seja, a Rod. Alkindar Monteiro Junqueira (SP-063). Num piscar de olhos a urbe dá lugar a uma paisagem mais rural, onde já é possível avistar um elegante serrote composto de rocha elevando-se a oeste. Aquele lá era o nosso destino da vez, o Pico do Leite Sol.
Aqui não se anda muito mas pouco depois das obras do futuro Bragança Garden Shopping, ou cerca do km 52 da rodovia, estacionamos o veículo num posto de gasolina de bandeira Ipiranga. Daqui já se avista a bela serrinha dominando quase toda paisagem ao sul. Pois bem, alonga aqui, estica ali, mochila nas costas e começa a pernada. O acesso ao pico está bem na frente do posto, numa porteira que sempre está trancada, mas que basta saltar ou se esgueirar pelo meio de suas tábuas bem espaçadas. Não tem muito segredo algum transpôr a cerca. Até aqui tudo tranquilo. Mas agora vai um alerta.
O maior erro que as pessoas cometem é daqui em diante prosseguir pela estrada de terra, sentido o pé da serra, passando pela casa que tem logo no início. Evite! Lembre-se que apesar dali ser patrimônio natural da cidade continua sendo propriedade particular e seu morador (no caso, um caseiro rabugento que toma conta do gado) deve ser respeitado.
Das duas uma, se for conversar com o dito cujo e não tiver permissão, faça como a gente. Evite seguir pela estrada de chão e passar pela casa. Ao invés disso, após a porteira ganhe o pasto a sua direita (rente a cerca) que no alto encontrará outra cerca perpendicular. Pronto, já tá fora da propriedade dele. Agora é só tocar pra cima, não tem erro algum.
Pois bem, dali  bastou simplesmente subir em direção ao morro pelo pasto, rente a cerca e no aberto, sem problema algum. Eventualmente surge um trilho de boi na direção desejada, mas no geral a pernada transcorre rente a relva mesmo, onde eventuais cupinzeiros pipocam aqui e ali destoando da paisagem. Uma cerca transversa não tarda a surgir como primeiro obstáculo, facilmente vencido apenas se esgueirando por entre o metal e evitando as farpas da mesma. A Chiara, feliz da vida, nem precisou de tanto esforço pois se pirulitou por baixo da mesma feito um rato em sua toca.
Logo adiante se passa pro lado direito da cerca, mas sempre acompanhando a mesma em direção a montanha. A subida pelo pasto é suave e tranquila, sem muita declividade, mas o que pegou mesmo foi o sol forte martelando a cabeça. Isso nos obrigou ao primeiro pit-stop da pernada, que no caso se deu sob a sombra duma enorme arvore no caminho. A Carol, sentindo o peso do descondicionamento, foi a única retardatária do grupo. Mas como não havia pressa, houve tempo pra esperas e longas paradas de descanso durante todo dia.
Na sequencia o terreno fica algo irregular mas nada assim do outro mundo.  Arbustos e pedras pipocam no caminho, das quais basta apenas desviar. Destaque pro enorme monólito da Pedra Redonda, que se caso resolvesse rolar morro abaixo cairia bem no meio do posto de gasolina. E assim fomos ganhando cada vez mais e mais altitude, ao mesmo tempo que aos poucos os horizontes a nossa volta iam se expandindo mais e mais, revelando desde a geometria de Braganca e dos morrinhos vizinhos.
Pois bem, naquele ritmo lento porém compassado não tardou a alcançar as primeiras lajes e rampas rochosas, onde nos brindamos com um prolongado descanso. As meninas ameaçaram até cochilar mas eu não dei moleza não, pois ainda tínhamos um tanto a vencer até o topo. O resto da ascensão se deu numa declividade maior que a anterior, mas na segurança das aderências rochosas o resto do trajeto. No caminho, chamou a atenção a mudança radical de vegetação, além da presença de gretas em meio aos enormes rochedos tombados ao largo da interminável rampa de granito.
Acredito que somente por volta do meio-dia alcançamos os 1125m do topo do serrote, que mostrou-se largo e espaçoso na direção sul. Vestígios de fogueira e grampos fincados na beirada dos íngremes paredões denunciam ali ser o ponto principal das escaladas locais. Ali, ficamos um tempão descansando e apreciando o visual, que privilegia principalmente o quadrante norte e oestes, uma vez que o restante do visu é obstruído pela presença de mata atlântica de altitude. Dali se avistava perfeitamente toda Extrema, a Serra do Guaripocaba e, bem atrás, a majestuosa Serra do Lopo. Além disso, a paisagem privilegiava espelhos dágua dispersos e toda sorte de morros menores daquele quadrante, desde Pinhalzinho até Itatiba, incluindo o restante da serra na qual estávamos, cujas corcovas menores desciam na direção oeste. Enquanto o povo descansava e mastigava seu lanche fui fuxicar umas veredas que nasciam dali,  pra apenas descobrir que levavam a clareiras escondidas no meio da mata ou que desciam a serra na direção oeste.
O relax tava muito bom pra galera, que se dependesse deles ficariam ali o dia todo. Mas como tava afim de conhecer o restante da serra – que se espicha na direção leste – tive que obriga-los a levantar o traseiro. Pois bem, como lá do topo não havia acesso ao resto da crista (ou pelo menos não encontrei) haveria a princípio que descer até a primeira rampa de pedra, de onde o acesso ao resto da montanha era óbvio. Mas como não tava fim de subir tudo novamente fiquei buscando acessos a meio-caminho pelo mato, até finalmente encontrar algo que ao menos quebrava o galho.
Uma discreta vereda em meio aos arbustos levou a gente até os íngremes paredões que beiravam um fundo vale naquele comecinho de crista. Ali bastou se enfiar na mata e descer até o vértice do vale e depois  escalaminhar facilmente a encosta sgte, tudo na navegação visual e sem gdes problemas de orientação.  Ali emergimos numas largas lajotas horizontais cercadas de mato, onde reparei em indícios de fogueira, sinal evidente da presença de alguma vereda mais certa. Enqto isso, urubus planavam silenciosamente sobre a gente quicá esperando carniça fácil, diante o grau de exaustão das meninas.
Dito e feito, antes que a galera novamente resolvesse se jogar no chão exausta os obriguei a me seguir, pra na sequencia rasgar um trecho de mata por um rabicho de trilha em meio a espinhentos cipós e taquarinhas diversas. Trecho curto este que nos levou num piscar de olhos ao centro do serrote, onde o transito suavizou pois o mesmo se limitou a uma gigantesca laje de pedra quase que horizontal.  Visivelmente percebemos que ali cabiam dezenas de barracas, devidamente protegidas e tal. Mas o que nos chamou mesmo a atenção foi um pitoresco rochedo no extremo leste da crista, chamado de Bunda do Elefante, que basicamente era a junção de dois enormes rochedos que realmente se assemelhava com o traseiro do pesado paquiderme. Ah, e a vista aqui também era bastante generosa pois privilegiava os quadrantes que o topo não cobria, ou seja, o sul e leste. No caso, as generosas montanhas de Atibaia, Piracaia e Jundiai.
Após outra demorada pausa pra relax, olhei o relógio e vi que já era hora pra começar o retorno. Tentei buscar uma trilha que descesse pelas lajes no centro norte da serra, assustando os elétricos calanguinhos que meditavam naquele horário, mas não achei pois só me levavam as beiradas de enormes precipícios. Sem saco de continuar procurando, a despeito dos totens de pedra e com receio da luz natural se esvair e nos deixar na mão, decidi que voltaríamos pelo mesmo caminho já preparando a galera psicologicamente pra novo vara-mato. E assim foi. Naquele horário avançado era mais garantido retornar pela rota conhecida que arriscar uma desconhecida e ficar no escuro a meio-caminho. Coisas que aprendi nesta vida de perrengues.
E assim foi, retornamos exatamente pelo mesmo caminho e na primeira hora rasgamos o mato final, chegamos nos lajedos centrais, desescalaminhamos o vértice do vale até ganhar as aderências de granito do comecinho. E os últimos raios do Astro-Rei começavam já a desaparecer por trás da serra, quando descemos o restante pelo pasto até dar finalmente nas proximidades do veículo, já no posto de gasolina. A Chiara, coitada, machucara as patinhas no topo e sobrou pra este que vos agora escreve carregar a pulguenta no lombo, tal qual um sherpa especializado em bassets. Fora isso tudo transcorreu às mil maravilhas e sem grandes intercedências. Dali passamos num mercadinho e nos despedimos de Braganca Paulista, tomando rumo Sampa afim de não pegar o habitual transito de comecinho de noite dominical.
Dessa forma finalizou nossa prosaica pernada pelo simpático Morro do Leite Sol, monhanhinha fácil e sussa, ideal pra quem tiver descondicionado igual a gente. E mesmo sendo apelidada de Serra da Bocaina, Montanha do Índio ou Morro do Leite Sol, esta serrinha que reluz em tons cristalinos após breves chuvas e que nos anos 80 chegou a ser ameaçada de destruição pela extração de granito, agora finalmente está a disposição dos aventureiros conscientes e responsáveis.  Bragança pode se orgulhar de tê-la como patrimônio natureba. Menos mal. Aí todos saem ganhando.
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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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