O Morro do Vento

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Situado no miolo de Ouro Fino Paulista, bairro rural na divisa de Ribeirão Pires e Suzano (SP), o “Morro do Vento” é uma simpática elevação de fácil acesso, baixo desnível e cercada de mata secundária. Conhecido tb pela galera motoqueira por “Morro da Paz”, fazia tempo q não pisava no alto dos seus quase mil metros q descortinam belos visus das represas de Mogi e Biritiba-Mirim. Aproveitando um domingo de tempo incerto, resolvi então fazer diferente daquela outra ocasião: ao invés de aceder o morro pela “Trilha da Olaria”, via Ribeirão Pires, tentar alcançar o morro pelo seu contraforte sul, isto é, por Rio Grande da Serra. Eis um circuitinho sussa e descompromissado de quase 23km que teve de tudo: trilha, asfalto, estrada de chão, “ferrotrekking” e até “duto-trekking”.

Aquela manhã de domingo realmente desanimaria até a alma bem mais disposta qdo eu e a Carol (e a espoleta Chiara, mocada na mochila como sempre) saltamos na estação de Rio Grande da Serra. Foi só sair do aconchegante vagão da composição da linha turquesa da CPTM pra sentir um ventinho frio e respingos finos nocauteando o semblante. Um véu opaco tomava conta da paisagem ao redor, fazendo muitos andarilhos (a pé e de duas rodas) q recém-chegavam simplesmente dar meia volta e adentrar novamente no trem. Não era nosso caso, pois estávamos resolutos e decididos em concluir nosso rolê. “Agora ta assim, mas no decorrer do período vai esquentar e, consequentemente, melhorar!”, falei pra Carol, indiferente pra fria garoa q caia naquele momento.
Sendo assim e trajando devidamente anoraks , nos pirulitamos pela via q intercepta os trilhos e toca na direção norte, passando sobre um dos tributários do Rio Grande até bordejar o sopé dum morrote avistado desde a estação, cuja cumieira agora ta encoberta por brumas. Uma vez nos paralelepípedos da Av. José Belo não tem mais segredo pois basta se manter nela até cruzar um pontilhão de concreto. Com esforço, se enxerga o panorama a nossa direita descortinando a extensa planície de várzea desta região, tomada por um fino véu opaco. Após a ponte, uma picada na mata a direita nos leva aos trilhos da RFSSA, q será nossa rota mais oportuna e interessante por ir na direção desejada
Uma vez nos trilhos basta tocar por eles na direção norte, caminhada agradável e compassada embalada com muita conversa q até nos faz esquecer do mau tempo a nossa volta. A pernada se dá nos trilhos, mas principalmente por uma estreita vereda q os acompanha de ambos lados, pra sorte da espivetada basset, q tem certa dificuldade em caminhar pelas britas entre os dormentes. Logo os resquícios cinzas urbanos e os banhados da planície cedem lugar ao verde onipresente de ambos lados. Uma sucessão de morrotes cobertos de espessa vegetação intercalando pequenos vales surgem a nossa esquerda, de propriedade da Faz. Matarazzo, q contem trilhas interessantes já relatados noutras duas recentes ocasiões.
A caminhada manteve-se ininterrupta na via férrea, felizmente com tempo dando sinais de melhora. “Ta vendo? Tem q investir..” , frisei pra Carol. Abandonamos a ferrovia após cerca 3km palmilhados, mais precisamente no cruzamento duma ponte, onde tomamos a via transversal que atende pelo nome de Rua Teresinha Arnone Casteluci. Ali fomos na direção leste, passando pelo aceiro de dutos da Petrobrás (e pelos dutos de captação de água de Rio Grande da Serra), agora no Jd Maria Joana. O lugar tem chácaras e sítios aqui e acolá, mas tb tem loteamentos irregulares no entroncamento de pequenos vales.
Dali é preciso desviar da morraria de modo a avançar no sentido nordeste, até dar na Estrada do Soma e, sucessivamente, as Estradas do Simeão e da Casa Vermelha, agora pro norte. Esta última via é muito bonita, cercada de verdejante mata, bem ornada de flores em sua margem e sem vestígio algum de civilidade. Até um simpático sagüizinho foi flagrado saltando pelo frondoso arvoredo do lugar. Pois bem, a tal via nos deixa na Estrada do Komoto Tadashi, onde bem q tentamos tentamos avançar pra leste, mas fomos barrados não apenas pela placa proibindo acesso (“Programa de manejo sustentável – propriedade particular ”) mas sim por dois cachorrões tão estridentes como mal-encarados. Pena, o lugar parecia interessante de fuxicar mas fica pra outra ocasião.
Sendo assim tivemos q retroceder e contornar um tal Jd Aprazivel pra ai sim pisar finalmente na “Estrada da Adutora” (SP-043). Aqui tive a surpresa da simpática via de chão ter seu nome recentemente mudado pra Estrada Vereadora Mercedes D´Orto, sinal de q os políticos ribeiropireneses andam mais ocupados com nomenclatura de vias q em levar saneamento a quem precisa. Pois bem, a bucólica estrada serpenteia sinuosamente as pequenas colinas no caminho, entrecortada por pequenas chácaras e sítios, gde parte reservada pra locação. Há tb ruínas de antigas olarias, q por sinal fizeram uso de boa parte da mata nativa do entorno em seus fornos. Resumidamente, a “Estrada da Adutora” deve seu nome por acompanhar os canos concretados da Adutora do Rio Claro (aquela mesma q passa por Manoel Ferreira, Biritiba-Mirim, Quatinga, etc), q não tardam em dar as caras.
Mas os dutos são acompanhados apenas por um tempo, qdo a estrada desvia pra esquerda desviando no sopé dum ombro serrano. Mas ai uma trilha bem batida é facilmente avistada subindo a encosta em questão, acompanhando o os dutos q igualmente avançam morro acima. E tome piramba acima com muito cuidado pois a vereda se apresenta tão erodida qto escorregadia, apresentando vestígios e rastros de motocicletas na mesma. Esta subida inicial seria apenas “mais uma” não fosse tb a terra fofa e solta nalguns trechos, e não raramente dava um passo e retrocedia dois. No alto, a plataforma concretada dos dutos permite belo visu deste inicio de subida.
Mas uma vez vencido este primeiro trecho pirambeiro a vereda prossegue estabiliza e prossegue em nível, sentido leste, tocando por um amplo aceiro forrado de capim ralo onde agora os dutos estão enterrados, perfurando o morro. Após um tempo pelo capim desviando de cupinzeiros a picada abandona o aceiro e embica pela encosta descampada restante do morro, a nossa direita, isto é, pro sul. Subindo então uma íngreme e larga piramba se ganha altitude num piscar de olhos, permitindo um belo visu tanto dos morrotes do entorno como da continuidade da “Estrada da Adutora”. O aclive nos separa, tendo a Chiara disparada na frente cheirando td a sua frente, e a Carol bem atrás sentindo o peso do descondicionamento. Mas a subida é tranquila e sem pressa.
Mas não demora pra subida suavizar e prosseguir de forma menos acentuada, imperceptível até, pra alegria da Carol, novamente sentido sudeste. Pontuada de arbustos medianos mas principalmente de voçorocas de samambaias, este trecho se destaca pela presença de belos exemplares de flores bem coloridas por td caminho. E após essa subida breve me parecer interminável as 13hr desembocamos numa enorme clareira q sinaliza o alto do tal Morro do Vento, bem no exato tempo em q o tempo se enevoa outra vez. Ainda com tempo parcialmente opaco, é possível ter um amplo vislumbre do quadrante norte, preenchido basicamente pela verdejante morraria ao redor. Com esforço, nesse panorama é possível avistar a nordeste os espelhos dágua das represas de Taiaçupeba, do Rio Jundiai e de Biritiba-Mirim, além da geometria urbana de Mogi das Cruzes e a Serra do Itapeti; a noroeste, entretanto, a morraria domina a paisagem onde vez ou outra destoa algum vestígio cinza de Suzano. O quadrante sul, por sua vez, é tomado por espesso reflorestamento q impede qq visu daquele setor.
Após um longo tempo de descanso e de mastigada de lanche (com direito a uma esfomeada Chiada surrupiando comida alheia), damos inicio a descida. Na verdade, apressamos a descida devido ao fato do mau tempo apertar e pela necessidade de esquentar o corpo novamente, uma vez q a fina garoa esfriara o mesmo consideravelmente. Dali então a vereda mergulha num chaparral de samambaias e inicia a suave descida em meio a um vasto eucaliptal de estatura mediana. No caminho, alguns focos de mata desmatada denunciam a origem do nome da trilha, q antigamente era uma sucessão de acessos às antigas olarias q aqui predominavam aos montes e hj estão desativadas.  Sempre pelo alto, um tempo começamos a bordejar o morro pela esquerda e a ouvir o som de água correndo no fundo do vale ao lado. Em tempo, é bom carregar água aqui pq o alto é escasso do precioso liquido. E assim damos continuidade à descida de serra, alternando trechos acentuados com outros mais suaves, ora pela encosta ora por cristas descendentes. Mas chega uma hora em q a picada estreita se alarga e nalguns trechos se transforma em verdadeiros atoleiros, dos quais logicamente desviamos.
Mais rápida q a subida e após cair numa vereda mais larga q desce na diagonal, desembocamos novamente na Estrada da Adutora cerca de meia hora após findado o descanso no topo. O retorno se da pela estrada embalado em muita conversa, ao mesmo tempo em q o tempo aparenta melhorar novamente, mas q mesmo assim nos impede dum vislumbre do “Morro do Vento”, agora com topo encoberto. Mas após um tanto abandonamos a estrada em prol duma picada q acompanha os dutos, ora enterrados ora expostos, q corre paralela a estrada. Essa é a tal “Trilha da Olaria”, q corre sentido oeste seja emparedado por paredões de capim ornados de muitas flores, seja por cima do concreto dos 3 aquedutos no caminho q servem de “pontes” e atalhos improvisados.
A picada termina novamente na estrada, já praticamente no limite urbano do bairro Ouro Fino, antigo distrito de Iupeba. Como tínhamos q alcançar a Rod. Índio Tibiriça (SP-031) de qq jeito, perguntei a Carol se desejava prosseguir pela via de chão ou continuar por cima dos dutos. E a segunda opção foi a escolhida, pra desespero duma Chiara q tem certo medo de altura. E assim começamos a andar cautelosamente por cima dos dutos, onde a desenvoltura da pulguenta mostrou-se incrivelmente superior a nossa. Puro e legitimo “duto-trekking”.
Uma vez no asfalto da SP-031 bastou retroceder cerca de 2km, sentido Ribeirão Pires, e dali então retomar o “ferrotrekking” de volta a Rio Grande da Serra, inicialmente acompanhando o córrego Taiaçupeba-Mirim. Dali foram quase 7kms intermináveis  principalmente pra nossa parceira canina, q já não mostrava a desenvoltura e pique do inicio. Se antes ia na dianteira, a dificuldade de caminhar pelas pedras soltas nos dormentes aliado ao cansaço fazia da pulguenta ser a retardatária da vez. A coisa so suavizou pra qdo surgiram novamente as picadas q oportunamente vez ou outra acompanham a linha férrea. Não bastasse, na metade do trajeto a garoa retornou com mais intensidade deixando a vereda tão escorregadia como enlameada.
E assim, devagar e sempre, chegamos em Rio Grande da Serra por volta das 19hr, já escurecendo. Imediatamente nos pirulitamos num boteco onde pudemos descansar e mandar ver um salgado (e uma cerveja, claro!) antes de voltar pra Sampa. E que fique bem claro q o “Morro do Vento” é programa fácil, de baixo desnível e sem gdes desafios realizado numa região basicamente rural e nada selvagem. Ainda assim, é pedida certa prum dia de tempo borocoxô. Outra coisa, quem quiser ir pro morro sem td a camelação aqui descrita pode fazê-lo simplesmente tomando condução em Ribeirão Pires e descer em Ouro Fino. Aí só terá o trabalho de andar pela “Estrada da Adutora” até o inicio da picada. Ou se preferir esticar o programa emendando td espécie de vias e acessos da região fique a vontade. É sempre bom conhecer novas alternativas de pernadas pelos cafudós deste subdistrito ribeiropirense ou de qualquer outro lugar.
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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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