O Papagaio

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Esta é a segunda das montanhas que vi pela primeira vez nos altos do planalto de Itatiaia. A outra foi o Garrafão, assunto da primeira coluna desta série sobre o sul de Minas. Essa agora será a última – vou parar por enquanto de escrever sobre esta região. Até que visite outra de suas montanhas.

Na primeira vez em que estive nos altos do Papagaio, o acesso era outro, pelo hoje proibido Retiro dos Pedros. Tinha pela primeira vez chegado em Aiuruoca, o vilarejo mineiro próximo à Serra, quando ocorria uma manifestação contrária à contaminação dos rios pelo mercúrio dos mineradores. Foi esta a ocasião em que conheci Badoglio, um senhor amante da natureza muito respeitado na cidade. 
 
Como eu nunca visitara o Papagaio nem ele o Agulhas Negras, combinamos que cada qual levaria o outro na sua montanha conhecida. Fizemos este programa junto com Maury Santos, um guia de montanha, amigo meu de longa data. Na época o Papagaio já era Parque, porém ainda não implantado.
 
Nossa ida foi gloriosa. Subimos a serra no velho jipe de Badoglio, junto com uma provisão de porco assado e conhaque Cointreau. Claro que já fomos nos alimentando na subida e nem sei como pudemos caminhar tão bem a seguir. Era inverno, o tempo estava ótimo, mas tínhamos saído tarde.
 
Na volta, o pôr do sol na neblina produziu uma fantástica corrubiana, quando a névoa fez aumentar o tamanho do sol de forma mágica. Por um instante, achei que ocorria uma explosão nuclear, à medida que inflava misteriosamente o contorno amarelado do sol em nossa direção. Mas, à medida que a corrubiana diminuía e o sol se punha, começamos a descobrir que seria difícil achar no escuro o corpo vermelho do jipe.
 
Meu filho pequeno me acompanhava, até que seu tênis estourou. Tive de levá-lo nas costas – mas não foi por longo tempo, pois logo a seguir discernimos o vulto escuro do veículo. O retorno foi divertido e, no dia seguinte, seguimos para o PN de Itatiaia, à busca do Agulhas. A ascensão foi novamente ótima e fotografamos Badoglio no cume, junto com o cruzeiro que então existia.
 
Nem recordo quanto tempo se passou depois disso. Eu havia me separado de minha esposa, assídua e entusiasmada companheira de caminhadas. Deixei de sentir aquela ânsia pela natureza que me acompanhara por tantos anos. Até que resolvi voltar ao Papagaio junto com minha nova esposa, era a primeira montanha depois de muito tempo. Já agora o acesso era pela encosta da Mata do Fogão, longo e cansativo. O dia estava feio e frio.
 
Chegamos por fim a um campo recoberto de arbustos de poejos. A partir dali, já estaríamos na crista da serra, onde alternaríamos trechos de mata e de rocha, numa sucessão maravilhosa, até contornar a corcova final da montanha. Mas eu estava simplesmente aborrecido, naquela névoa gelada. Pensei que não devia ter vindo, que deveria retornar, mas decidi esperar exatos ¼ de hora.
 
Pois foi no último minuto que o vento abriu afinal uma janela de azul no céu. Concluí que era um sinal de que deveria retomar minha relação com a natureza, abandonada há tantos meses. Foi naquele percurso que avistei as misteriosas pirâmides dos Três Irmãos. Eu depois as procurei por anos e, ao enfim achá-las, fiz delas assunto de uma das primeiras colunas desta série (e de outra, logo antes desta).
           
Retornei depois a Aiuruoca e pensei em visitar Badoglio, de cuja casa me lembrava. Subi a escada e lá estava ele, quase igual ao que fora. Comentamos sobre os tempos passados, perguntei sobre o Agulhas e, para minha surpresa, abriu de pronto uma gaveta onde estavam aquelas fotos do cume. Ele as guardara, junto com um artigo na primeira página do jornal local, por todos aqueles anos – bem junto de sua mão, de seu coração.
 
Para mim, havia sido uma aventura memorável, uma recordação agradável. Para ele, fora um momento único e inesquecível. Ele e eu ficamos emocionados, foi uma despedida embaraçosa. Sim, eu retornei depois a Aiuruoca para fazer outras montanhas, mas nunca mais o achei nem voltei ao Papagaio.
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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