O Pedrágio

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Conhecidos “Donos das Montanhas” fundaram há muito tempo a Igreja Local do Mínimo Impacto Ambiental que é formada principalmente (mas não somente) por ateus, veganos, vegetarianos e outros iluminados. Por princípio não tem Deus, mas tem Mestre (uma espécie de Papa descolado), Bispos e Obreiros.

Os Bispos oriundos do moribundo “Escoteiros do Espaço”  (Power Rangers) quando reunidos em confraria tomam (e fumam) um matte enquanto meditam. Detestam trilhas, cruzes, chapeletas e vias de escalada equipadas por devotos de outras liturgias. Aos Obreiros (fazendo jus ao nome) cabe disseminar a "Palavra" nos botecos das cidades e carregar pedras morro acima no que ficou conhecido como "pedrágio" que serve basicamente para compensar o impacto que eles próprios e também os hereges produzem nas trilhas das ditas "Montanhas de Sacrifício". Estas montanhas sagradas foram eleitas para que os fiéis agradeçam ao Mestre e aos Bispos (quando lembrados) pela colocação de cordas, correntes e escadas que facilitam o acesso e conferem segurança a todos os que procuram o Nirvana. 
 
Lembrando que estas obras são de grande importância para reduzir ao mínimo o impacto ambiental produzido pelo aumento do afluxo de candidatos à conversão que detestam sujar de barro seus tênis de grife. As correntes e degraus de escada são perfurados nas rochas com furadeira de mínimo impacto que (por conseqüência) produz pouco impacto e tem por objetivo conferir maior efetividade a "Palavra" disseminada pelos Obreiros que de outra forma encontrariam obstáculos instransponíveis para chegar aos seus locais de culto. Os poucos efeitos colaterais (erosões e defecações) nas trilhas são obras dos pagãos influenciados pela mídia golpista, homofóbica e monopolista que dissemina o ódio irracional na internet. 
 
O pedrágio substitui o dízimo na redenção dos pecados reais ou imaginários e encontra subsídios no Programa de Manutenção de Trilhas (espécie de Bíblia politicamente correta) elaborado com o maior rigor técnico possível por renomados engenheiros. Parques federais, estaduais ou municipais costumam encomendar a sábios chineses (e tibetanos também) os estudos para o RAP (Relatório Ambiental Prévio) que é usado depois no Plano de Manejo que detalha qual são as montanhas que se prestam para os “Sacrifícios”. As que não prestam são consideradas intangíveis por falta de escadas, correntes, trilhas calçadas e placas orientativas. 
 
Interrogados sobre o aquecimento global, a extinção dos ursos polares e o derretimento das geleiras invariavelmente respondem que estes problemas são da alçada de outra igreja, a Mundial assim como a possibilidade futura de colisão do planeta com cometas e asteróides é da Igreja Universal. Mas todas concordam que o FHC e o neoliberalismo são os verdadeiros culpados pela falta de verba que (nos últimos treze anos, inclusive) praticamente inviabilizou a compra de picapes 4×4 (superfaturadas) e a contratação de apaniguados para a gestão burocrática dos parques. Neste período palmiteiros e caçadores ilegais se multiplicaram devido a crônica falta de infraestrutura adequada (estradas, pontes e helipontos) e pessoal capacitado (com pernas e pés para caminhar) que torna impossível a fiscalização nas áreas intangíveis. 
 
Problemas similares se repetem nas “Montanhas de Sacrifício” onde seriam necessários no mínimo um monitor a cada quinhentos metros para impedir os hereges de causar erosão fora das trilhas onde os Obreiros não ousam pisar de cara limpa pelo pavor da excomunhão. Para minimizar estas deficiências o poder da Igreja incentiva o programa “Adote uma Montanha” e garante que num futuro próximo (com a multiplicação no número de fiéis) não haverá mais injustiças geológicas. 
 
O problema é que as montanhas órfãs morrem de inveja das obras e melhoramentos introduzidos (sem trocadilhos) nas adotadas. A Torre da Prata antes de ser oficialmente adotada tentou até o suicídio (desabando sobre si mesma) apenas para chamar a atenção como faria qualquer criança desassistida. 
 
O pedrágio é uma prova de fé, um sacrifício mínimo diante das muitas alegrias e dos momentos felizes que estas montanhas magníficas proporcionam aos voluntários que se entregam ao culto do Mínimo Impacto sob a elevada orientação intelectual e capacitada dos desinteressados “Donos das Montanhas”.
 
 
 
 
 
Esclarecendo algumas das dúvidas a mim encaminhadas em relação ao texto: 
1) Para entendê-lo corretamente é necessário antes despir-se de preconceitos e ficar atento ao significado das palavras.
2) A coluna à direita com citações famosas não é apenas decorativa e seu aprendizado é essencial para a compreensão do todo.
3) Não trato aqui do “pedrágio”, da instalação de correntes ou degraus, do trabalho voluntário e nem emito qualquer juízo de valor sobre eles.
4) O texto desnuda a hipocrisia, a arrogância, a manipulação e a incompetência usando do mesmo veneno.
5) Não cito nomes porque não é dirigido contra pessoas, mas contra estas atitudes humanas que demandam contínuo autocontrole.
6) Caso algum leitor tenha se sentido citado, mesmo que indiretamente, deve procurar ajuda especializada com urgência.
7) Não responderei aos comentários mal educados porque assimilei as lições de Mark Twain na coluna ao lado.
 
 
 
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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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