O PETER

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Foi meio por acaso que notei, numa viagem entre a Bahia e o Pará, que poderia passar pelo parque das cavernas goiano, que havia rapidamente conhecido uns dez anos antes. Desta vez, pude dispor de alguns dias para visitá-lo – veja a seguir o resultado.

Homenagem aos 80 anos de Pierre Martin

As cavernas do Parque Estadual de Terra Ronca foram pesquisadas um século depois das paulistas, no caso pelo francês Pierre Martin. Ele foi um dos fundadores da SBE – Sociedade Brasileira de Espeleologia. Deste trabalho pioneiro resultou a criação de uma reserva com 57 mil ha.

Nela existem mais de 250 cavernas catalogadas, embora se comente haver cerca de mil na região. O PETER ocupa uma estreita serra calcária, grandemente situada no município de São Domingos. Fica no norte goiano, a 650 km da capital pela BR 020. Assim como as vilas paulistas, esta resultou do garimpo do ouro a partir do século XVII.

Mapa Esquemático do PETER

Não é um Parque bem estruturado, carecendo de portaria, divulgação e sinalização. Como é distante de São Domingos, você pode hospedar-se no vilarejo de São João, a 30 km da sede. As estradas, naturalmente, são de terra – adequadas durante a estação seca e provavelmente precárias durante a úmida.

São apenas cinco as cavidades visitáveis, a principal delas sendo o complexo Terra Ronca I e II, duas formações gigantescas separadas por um desabamento. Este nome sonoro é atribuído ao rugido do Rio da Lapa que percorre o seu interior ou ao tropel dos cavaleiros que a atravessava por cima.

Boca da Caverna Terra Ronca, PETER, São Domingos, GO

Suas bocas são impressionantes, com 95 e 120m de altura, bem como suas amplitudes. Se a primeira caverna é apenas um enorme cilindro oco sem decoração, a segunda é rica em espeleotemas, em particular ao longo do ½ km de diâmetro do Salão dos Namorados. Possui ao todo 5 km.

Decoração da Caverna Angélica no PETER, Goiás

Você notará que as cavidades do PETER são mais longas e amplas do que as do PETAR, embora com decorações mais espaçadas. Um exemplo são os 14 km da Caverna Angélica, da qual apenas o início é aberto à visitação, até o encontro dos seus dois rios internos. Os Salões das Cortinas e dos Espelhos são espetaculares. É a mais próxima da cidade, dela distando 20 km.

O Salão dos Espelhos da Caverna Angélica, PETER, Goiás

São Bernardo e São Mateus estão a 50 km da vila de São Domingos, embora por caminhos diferentes. A primeira é fácil e curta, com apenas 4 km. Nela avancei até o Salão das Pérolas, que exibe de forma mágica como que um resumo de todas as decorações antes visitadas.

Cortina da Caverna São Bernardo, PETER, São Domingos, GO

Mas a segunda é gigantesca, com 24 km, além de perigosa, com sua entrada estreita e contorcionista e seu piso desabado e irregular, que apenas progressivamente vai se tornando mais plano. Contém inúmeros salões como Setecentos, Chuveirinho e Gigantes Bêbados. Convém lembrar que são todas cavernas molhadas, muitas vezes com água pela cintura. E todas elas apresentam duas bocas.

Decoração da Caverna São Bernardo, PETER, Goiás

Na realidade, as cavernas do PETER pertencem a complexos de duas ou mais formações, como por exemplo:

  • Angélica e Bezerra I

  • Terra Ronca I, II e Malhada

  • São Bernardo I, II, III e Palmeira

  • São Mateus I, II, III e Imbira

  • São Vicente, Passa Três e Couro D´Anta.

    Boca da Caverna São Mateus, PETER, Goiás

De todas as cavidades, a mais espetacular é a gigantesca São Vicente, com nada menos do que 14 km. Seu acesso é feito por rapel, prenúncio de seus muitos e perigosos abismos. O Rio São Vicente apresenta 12 cachoeiras no seu interior. Embora não esteja aberta, é visitável sob certas condições.

Pérolas na Caverna São Mateus, PETER, São Domingos, GO

Gostaria de terminar citando (com leve alteração) as palavras de Márcia Pavarini: Terra Ronca é um parque envolvente e misterioso. Ao desvendar as entranhas do seu interior, atravessar salões com estonteantes formações e deslumbrar a ousadia da natureza, de repente você se dá conta de que está adentrando um outro mundo, como se fosse uma viagem ao centro da Terra.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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