O que é um Vale?

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Acabo de comentar sobre o conceito de montanha, que não é assim tão simples e evidente. Escrevo agora sobre outro acidente geográfico: os vales. Se algum leitor for um competente geógrafo, talvez se decepcione pela ausência de belos termos como vale endorreico, fator antrópico ou geomorfologia. Como não sou nem geógrafo nem competente, procurei simplificar o texto para torná-lo legível.

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Vista do Vale Glaciar do Zezere em Portugal

Acredito que o conceito de vale seja mais intuitivo do que o de montanha: é uma região baixa e alongada cercada por vertentes mais altas de cada um dos lados. Nos vales costumam circular rios ou glaciares, que são seus formadores.

Representação Esquemática do Vale Glaciar

Vista do Vale Fluvial do Rio Tibagi, Brasil

Assim como há muitos formatos de montanhas, há vários tipos de vale. O mais comum é o vale fluvial, como mostrado na figura ao lado. Sua forma típica é em V, especialmente quando for jovem, com vertentes íngremes, ainda pouco modeladas pela erosão. O vale do Tibagi é um exemplo de vale fluvial.

A linha que une os pontos mais profundos do leito do rio é chamada de talvegue. É ele que define o mapa de drenagem do rio e de sua bacia.

Estas formações podem começar em cânions profundos e estreitos e terminar nos chamados vales aluviais, quando a erosão progressivamente aplainou as vertentes e criou um fundo amplo e plano.

Representação Esquemática de um Vale Fluvial

Ou seja, seu fim é inverso ao seu início, como mostrado na segunda figura. Os rios aluviais costumam apresentar meandros caprichosos, como na Bacia Amazônica.

Ria ou Saco do Mamanguá, Brasil

Note que nesta figura o vale termina numa ria, ao encontrar o mar. Este termo descreve a foz de um rio que foi inundado pelo mar. Conheço uma ria no Brasil: o Saco do Mamanguá em Parati, que é chamado (erroneamente) de um fiorde tropical. A rigor, ele mais parece um cânion marítimo.

Mas os vales costumam também apresentar formatos em U, quando têm um fundo côncavo cercado por paredes abruptas. Sua forma resulta da forte ação erosiva das geleiras. Estes são os vales glaciares, ilustrados pela terceira figura ao lado, onde aparecem as morainas, os circos, as arestas e os vales suspenso e glaciar.

Os geógrafos gostam de indicar como exemplo o Vale de Zêzere em Portugal. Mas o mais emblemático é o do Glaciar de Khumbu no Nepal, onde está o Everest.

O Vale Glaciar de Khumbu no Nepal (Fonte – Divulgação)

Existem formas infelizes de vales, descritos por nomes um tanto pessimistas. Um vale morto acontece quando o rio que o escavou é capturado por um outro ou quando seu leito é obstruído por uma parede.

Um vale cego ocorre em regiões calcárias, cuja rocha é solúvel em água e pode ser perfurada pelo rio, gerando um sumidouro por onde ele desaparece. Um bom exemplo é o Vale do Peruaçu em Minas.

Mas todos estes vales têm até certo ponto uma origem gentilmente progressiva, derivada da erosão ou da dissolução. Este não é o caso dos vales tectônicos, dos quais o mais importante é o Vale do Rifte ou da Fenda (Rift Valley).

O Rift Valley africano.

É o maior vale do mundo, com algo como 5 mil km, desde o sul da África até o Mar Vermelho e o Planalto da Anatólia. Ele foi formado pelo afastamento das placas tectônicas da África e da Arábia, causando uma gigantesca falha geológica.

Ele é um graben ou fossa tectônica, uma depressão com fundo plano, que resultou de um afundamento geológico. Seu inverso é o horst, um bloco elevado, separado do graben afundado pelas chamadas escarpas de falhas.

Esses nomes simpáticos vêm do alemão e significam respectivamente uma modesta vala ou fossa e um ninho alto (ou, como dizem em espanhol, um nido de condores).

Representação Esquemática do Graben e do Horst

A figura ao lado ilustra de maneira simplificada a formação destes dois blocos opostos. O Vale da Morte na Califórnia é um exemplo de graben e a Montanha da Mesa na África do Sul, de horst. Notem que ambos são superfícies planas, o que é comum nestas origens.

O Vale do Paraíba também resultou de um graben – mas toda a erosão posterior modelou um aspecto ameno, que encobriu sua formação catastrófica em eras passadas.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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