O Retorno do PassadO

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O montanhismo no Paraná é rico em história e a tradição remonta da época de Carmeliano e dos pioneiros, passa por Stamm, Gavião e os gloriosos conquistadores dos cumes ainda virgens e vai adiante na geração dos simpáticos incentivadores que ainda estão entre nós representados pelas emblemáticas figuras do Farofa e do Vitamina. É do Vitamina a iniciativa de divulgar as aventuras em nossa serra através de sua saudosa coluna na Gazeta do Povo que inspirou o Altamontanha a criar o “Sua Aventura”.

Mas por aí a história parou de ser contada e criou-se um hiato no tempo. Não que inexistam grandes conquistas neste período, pois só as façanhas do Bito Meyer, entre outros, poderiam encher vários livros. As histórias pararam de ser contadas porque foi uma época desagradável onde o espírito de camaradagem da montanha foi substituído por politicagem e intrigas. Nesta época o montanhismo por aqui ainda se chamava marumbinismo e a base do Marumbi tornou-se um ambiente extremamente “poluído” e desagradável, tanto que originou verdadeira diáspora espalhando montanhistas pelos mais longínquos rincões. Os que vivenciaram este período não gostam de relembrá-lo e com isto deixam as novas gerações desprotegidas frente a estes velhos fantasmas que vez ou outra retornam para assombrá-las. Foi uma época em que imperou o cinismo absoluto e tudo era permitido à trupe real enquanto aos demais restavam as proibições. Mas não havia paz nem dentro da “thurma” e as intrigas palacianas, brigas e desovas foram constantes até que por aqui o montanhismo mudou de eixo e perdeu-se toda sua velha influência, sumindo do radar sem deixar saudades.

É o retorno desta prática que trata o recente bate boca na lista de e-mails da FEPAM onde um figuraça carimbado deste período ataca de maneira cínica e despropositada um velho relato do Elcio Douglas em que descreve uma travessia pelo Ibitiraquire realizada em 2003 e somente repetida em 2004 pelas mesmas pessoas. O herói glorioso se revolta pelo uso do facão para atravessar duas ou três moitas de bambu, grita que não existe conquista de cima para baixo, espertamente esquecendo de que se tratou de uma travessia, e fica indignado porque alguém sem curso de iniciação amarrou uma dúzia de fitinhas coloridas naquelas santas caratuvas.

No e-mail diz que fez travessias e teve conquistas, mas as guarda para si. Mentira, pois quer aparecer até mesmo denegrindo outrem. Se não as relata é porque não as fez ou porque não as pode relatar uma vez que contradizem o próprio discurso. Onde já se viu usar facão e fitas em pleno século XXI !?! Imagino então que no século XXI deva-se usar apenas alta tecnologia, furadeiras pneumáticas como aquela que o valente usou para perfurar as escadarias no Pico Paraná. Antes dos degraus se chegava ao PP por uma trilha, depois deles percorremos uma valeta. Desafio qualquer um a primeiro encontrar nossas pegadas no Ibitirati para depois vir conversar sobre crime ambiental.

Mas não é este o ponto, este é o engodo pra distrair os trouxas. O ataque não foi desferido contra o Elcio Douglas como pode parecer neste cenário surrealista. Este ataque cínico e virulento foi contra a atual administração da FEPAM e faz parte de uma estratégia de retorno a politicagem do PassadO. É uma ação destinada a dividir ainda mais a já rarefeita comunidade de montanha que esta diretoria tanto lutou para integrar e novamente infectar a organização com suas manobras já conhecidas. O ataque a FEPAM se fez pela iniciativa de acolher os “independentes” e o Elcio Douglas entrou no fogo como personificação destas pessoas que no infame comentário são tratadas de “farofeiros” por não ter curso de iniciação, por não participar de mutirões onde os novatos fazem força enquanto os veteranos possam para as câmeras e ainda cortar bambu com facão.

Apenas errou na escolha do “cristo” e desafio a qualquer valente desta terra a apontar para o Elcio exigindo certificado do “curso de iniciação” ou cobrando-lhe participação numa emergência. Ao arrastar a figura do Elcio para esta baixaria só está equiparando todos os “Independentes” com o próprio, o que para a infelicidade do montanhismo também não é verdadeiro.

Isto tudo significa que teremos eleições dentro em breve e também candidatos. Assim os pré-candidatos vão se apresentando juntamente com suas plataformas e o recado deste já foi dado. Dividir para dominar. O candidato afirma que se eleito diretamente ou através de laranjas trabalhará apenas para os clubes e seus associados, mas não fugindo ao seu histórico (ou prontuário), também encaminha uma proposta para a criação de um conselho de “ética” visando futura e inevitável depuração dos quadros internos. Afinal a “revolução” continua e não se pode aceitar “retrocessos”, começará a dança das cadeiras e este laranjal voltará a produzir limonada. Retrocesso é qualquer clube ou federação aceitar na diretoria algum representante de interesses comerciais privados legislando e fazendo pressão em causa própria.
 
Não me tomem por idiota, nunca dividiremos a barraca e nem ao menos freqüentamos o mesmo manicômio.
 

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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