O sábio das montanhas

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Existem duas Chapadas Diamantinas, a mais conhecida abriga um Parque Nacional muito visitado. Não conheço no Brasil nenhum outro com tamanha diversidade de ambientes. Apesar disto, prefiro a Chapada do sul. Esta outra Chapada acontece à volta da deslumbrante vila de Rio de Contas, que tem uma história única.

A atividade nesta região ocorre hoje nos pomares abaixo da Serra das Almas. Assim também era antigamente, quando a cidade de baixo contraiu uma peste. O Governo resolveu relocar a população para uma nova vila construída na beira do alto da serra, chamando-a de Rio de Contas – uma Brasília baiana e colonial.

Porém a doença foi logo debelada e o povoado de baixo voltou a ser ocupado. Assim, Rio de Contas permaneceu incrivelmente vazia e silenciosa por mais de dois séculos, até que o ecoturismo chegou lá, em fins do séc. XX. Por esta razão, Rio de Contas é ainda hoje uma vila histórica magicamente preservada.

Lá a natureza é mais áspera e forte, o ambiente é mais rude e seco, e as serras são mais elevadas. Nas proximidades fica o Pico do Barbado (ou bugio), ponto culminante do Nordeste, que foi uma aventura de um dia inteiro para conhecer.

Mas o Barbado não é o assunto deste texto, e sim o Itobira, também uma formação alta, em forma de pirâmide, com quase 2.000m. As principais montanhas são três, sendo a terceira o mais conhecido Pico das Almas, que pertence à serra que forma o degrau entre os pomares de baixo e os campos de cima.

Éramos três na trilha rumo ao Itobira: nosso amigo Jesuíno Velho, minha esposa e eu. O dia estava quente porém nublado, mas ela disse temer uma insolação. Só se for insolasombra!, comentei e parti sozinho para a pirâmide do pico.

Lá em cima descobri um sujeito vestido de branco, com uma roupa fechada – segundo me explicou, para reter o suor. Estava acampado, jejuando há dez dias e pertencia à seita baiana de Os Imutáveis. Com grande entusiasmo, nosso amigo pretendia identificar dez cumes na Chapada para as práticas do que chamava de conscientologia. Segundo ele, esses cumes eram sagrados e propícios para reunir os crentes.

Óbvio que lhe dei (quase todo) meu lanche, que devorou com enorme alegria. Comentou que pretendia meditar por três meses no Itobira. Só espero que tenha sobrevivido a tanta consciência e tão pouca comida.

Mais acima do local da sua barraca, achamos o livro do cume, que já tinha chegado ao fim. Como Jesuíno iria voltar à montanha no dia seguinte, mandei por ele um cacho de bananas para a alimentação de nosso sábio, bem como um novo livro, para ele registrar suas impressões.

Por incrível que pareça, encontrei poucos anos depois sua foto numa casa no Vale do Paty. Lá estava ele, no centro de um grupo de adeptos, todos eles vestidos de branco, como cangaceiros da fé. Tudo isso faz tempo e é longe, mas preciso voltar lá para conhecer suas opiniões no livro do cume – tomando cuidado para não escorregar em alguma casca de banana.

 

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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