Obê-Opê, A Travessia do inconfidência

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Foi qdo meu gde amigo da OBB, o Bastos, sussurrou uma possível travessia pela Serra de Ouro Branco, no Espinhaço, q surgiu a semente desta caminhada, mas o estopim mesmo foi constatar – após estudar mapas e pesquisar na net – q esta pernada era bem comum durante o &ldquo,Ciclo do Ouro&ldquo,, pois se localiza num trecho q serviu de palco natural às cidades ao redor, durante a Inconfidência Mineira. Coincidência mais q oportuna, tomamos o feriado de Independência pra percorrer este trecho histórico, saindo de Ouro Branco ate atingir Ouro Preto, cortando as montanhas mineiras em 4 dias moderados, quiçá revivendo um dos mais ricos momentos da historia do Brasil. E com muito carrapato.


Carrapatos e Perrengue serra Acima

O dia amanhece com típica cerração matinal envolvendo a morraria, mas esta se dissipa bem antes de chegarmos em Ouro Branco, as 7:30. Assim, c/ dia simplesmente frio e nublado,&nbsp, eu, a Cleusa e a Kátia Zander, pisamos nesta pacata cidadezinha mineira e logo estávamos na pracinha principal, tomando um “pingado” numa padoca. Um palco decorado proximo da Igreja Matriz significava q todos se preparavam pros animados festejos pátrios. Pra uma cidade q nasceu na esteira do Ciclo do Ouro e q hj vive apenas do passado isso já é muito.

De onde estávamos podíamos apreciar a imponência da Serra de Ouro Branco, servindo de monumento natural de contemplação à região. Mochila nas costas, da igreja tomamos uma rua q descia à nordeste, e logo já estávamos nos limites da cidade, sempre tendo como referencia a enorme serra a nossa frente, mais precisamente uns trilhos brancos q a cortavam na diagonal. Após colher algumas infos com locais (e sermos confundidos com pára-quedistas!?), a trilha começa entre um curral e uma garagem de ônibus, e de cara atravessa um pastado pra se enfiar numa mata ao pé da serra. Era nosso primeiro contato com os carrapatos.

A trilha margeia um riacho (q pulamos por um brejo) e se divide em vários sulcos q se perdem&nbsp, na mata. Era obvio q havíamos saído do trilho principal, mas como podíamos avistar o trilho no paredão da serra e a mata não era tão fechada resolvemos vara-la de modo a reencontrar o trilho principal mais adiante. Após subirmos um colo por trilhos de vaca dispersos, contornamos algumas arvores e arbustos, reencontramos o trilho principal subindo, sentido nordeste. Aqui notamos muitos carrapatos em nossas roupas, porem havia outros minúsculos (aos montes) q se confundiam com pintas em nossa cintura(!?), as meninas entram em desespero, parando a toda hora pra remoção dos mesmos.

A nebulosidade foi-se faz tempo e agora o sol esquenta, encharcando nossas costas pra valer. A medida q ganhamos altura, a vegetação diminui de tamanho e se reduz a samambaias, capim e alguns arbustos raquíticos de cerrado, principalmente candombás. O trilho – ora arenoso ora por degraus erodidos – vai ficando íngreme e em alguns trechos precisamos do auxilio das mãos pra vencer trechos quase verticais, numa autentica “escalaminhada”. Porem, o visual q se descortina a sudoeste serve de alento e revigora qq corpo exausto, sendo possível avistar toda Ouro Branco, as cidades de Conselheiro Lafaiete e Congonhas. Após varias paradas pra retomada de fôlego, sempre acompanhando as torres de alta tensão, alcançamos o topo da serra as 11hrs, onde alem de descansar, fizemos uma boquinha e removemos mais carrapatos do corpo. De acordo com o gps da Kátia, estamos a 1315m de altitude e andamos apenas 5km desde a cidade.

Retomando a pernada pelos campos altos sentido nordeste, vemos q o terreno é bem aberto, descampado de capim, bastando apenas acompanhar os inúmeros trilhos de vaca q seguem pela encosta dos suaves morrotes. Logo serpenteamos os afloramentos típicos do Espinhaço, aquelas rochas pontiagudas e lineares emergindo do leste q ate dão o nome à cordilheira. Sem muito esforço e desimpedidamente, caminhamos por largas pastagens, atravessamos dois riachinhos, contornamos algumas florestas e belos campos rupestres, ate cair numa estrada de terra, as 13:20, q decidimos acompanhar sentido nordeste, rumo as enormes montanhas ao fundo. A presença de marcos constantes nos diz q estamos num trecho da Estrada Real, q acompanha o córrego da Lavrinha pelo vale homônimo.

Seguindo sinuosamente pela estradinha vale adentro, ora no aberto ora por pequenas florestinhas e sem muito desnível, fazemos mais uma parada pra lanche à beira do Rio Lavrinha, q corre mansamente a nossa esquerda, as 14:15. Foram 13,5km ate ali. Ainda pela estrada, e agora com o vale se afunilando cada vez mais, passamos por duas bifurcações: a primeira tomamos à direita (a esquerda leva ao Morro do Gabriel), e a segunda, à esquerda, sentido nordeste (a direita provavelmente leva ao arraial de Itatiaia). A esta altura já não andamos mais com largas vistas e sim estamos emparedados por gdes montanhas forradas de vegetação, ate q chegamos numa terceira bifurcação: a da esquerda desce a um vale, contornando a montanha a nossa frente, mas nos tomamos a direita, q a contorna por cima, supostamente no sentido q temos planejado, nordeste.

Após uma longa piramba e contornada a montanha, a paisagem se abre novamente permitindo-nos estudar q rumo agora tomar, pois a estradinha faz curva e termina numa estação da Copasa. Mas o vale q se descortina diante nosso permitia varias possibilidades: montanhas forradas de vegetação encaixotam o Rio da Ponte, q serpenteia la embaixo, e mais adiante, o rochoso Bico de Pedra, q seria nosso suposto pernoite, porem inviável de acesso de onde nos encontrávamos pois teríamos dois fundos vales pela frente e cristas de ligação estavam distantes e aparentemente cobertas de vegetação. Por serem quase 15:30hrs decidimos então chegar o mais próximo do vale aos pés do Bico de Pedra, não pelas montanhas ao norte e sim pelas encostas rochosas a leste, aparentemente sem muita vegetação. Ah, e foi aqui tb onde um esquálido cachorro (q apelidamos de “Dog”) resolveu nos acompanhar pelos dias seguintes. Se bem q poderia chamar “Carniça” pq tinha um bafo q vou te contar..

Saímos da estrada e descemos a íngreme encosta de pasto um bom tempo, ate entrar numa trilha pela mata fechada q felizmente ia na mesma direção proposta, ate q chegamos no fundo do vale (e do rio) onde haviam restos de algum velho acampamento de garimpeiros. O Rio da Ponte, por sinal, esta cheio de praias fluviais, provavelmente areia assoreada dos inúmeros garimpos da região. Tomando uma picada pra nordeste, saímos da mata ate chegar numa “clareira” q acompanhava o rio, bem à nossa esquerda. A medida q caminhávamos pela “clareira”, percebemos q estávamos num mega-charco q irremediavelmente teríamos q cruzar ate a encosta rochosa (e seca) mais próxima.

Primeiro foram os pés, depois as canelas, logo afundamos ate a cintura, pra desespero das meninas. Tateávamos bem antes de pisar, com receio de afundarmos de vez, ainda mais depois q a Cleusa molhou a maquina fotográfica e a Kátia quase atolou num trecho, e nestas horas é q veio à mente de todos aquela típica pergunta: “O q eu to fazendo aqui?”. Felizmente, o perrengue “quase-terminou” qdo alcançamos terra firme e seca, “quase” pq agora tínhamos q subir uma encosta vertical de terra cedendo nos valendo de escassas raízes podres servindo de “agarras”. Pra isto, eu subi primeiro, carregando sofridamente as pesadas mochilas das meninas (o q será q elas levam a mais?), q subiram na seqüência. Resultado: alem de molhados, estávamos pretos e sujos pela mata queimada.

Novamente no trilho na encosta rochosa, passamos por muitos arbustos espinhentos ate chegar num descampado q devia ser um curral. Alem de já ser tarde, era mais q obvio q não chegaríamos ao Bico de Pedra nem aos pés dele, por isso já íamos estudando algum local pra pernoitar. Entramos outra vez na mata fechada, sempre sentido nordeste, e decidimos pernoitar num espaço razoável q encontramos, bem do lado da trilha, as 17:30. Foram 19km percorridos. A escuridão logo tomou conta daquele vale fundo antes do sol cair atrás das montanhas. Montamos as barracas, tiramos mais carrapatos, colocamos as coisas pra secar e jantamos, exaustos daquele dia de cão. A noite não fora fria conforme o previsto, pelo contrario, fora bem agradável e agraciada pelo ceu pontilhado de estrelas. Não demorou pra cairmos no sono, mesmo com o ruidoso Rio da Ponte rugindo quase bem ao nosso lado.

Entre Garimpeiros, A Serra da Chapada e do trovão

Levantamos assim q a luminosidade começou a tomar conta do vale, as 6hrs. Não havia nem orvalho nas barracas pra secar, e depois de um café sem pressa, desmontamos as barracas e começamos a pernada naquele inicio agradável de sexta, as 8hrs. A trilha prossegue pra leste e vira pro sul, mas antes passamos numas passarelinhas de cimento (q vinham da Usina do Barrajão, desativada) q serviam de ótimo mirante das corredeiras rio abaixo. Novamente na trilha, em pouco tempo alcançamos uma casa de garimpeiros, onde abastecemos os cantis. Embora o Ciclo do Ouro tenha terminado, na região ainda há aqueles q se aventuram à vida dura do garimpo e longe da família, pessoas como Seu Chico e Seu Irineu, q cavando enormes buracos perto dali ganhavam a vida&nbsp, buscando ouro em pó, mas principalmente topázio imperial, onde uma pequena pedrinha podia valer ate U$3mil!! Seu Chico foi muito hospitaleiro conosco, alem de água nos ofereceu um café fresquinho alem de confidenciar q se divertiu vendo-nos o dia anterior cruzar o “pântano”, julgando-nos ser caçadores de capivara (!?) e q tem medo de assombração e onça.

A prosa tava ótima mas tínhamos q prosseguir. Assim, seguindo instruções, descemos ate o rio através da mata, cruzamos uma pinguela e do outro lado havia uma precária estradinha de terra q subia a serra (sentido leste) em meio a mata fechada, uma subida forte q nos consumiu um bom tempo. A esta altura o “Dog” nos acompanhava novamente e não arredaria pé da gente tão facilmente.

Chegamos no alto da Serra do Bico de Pedra as 9:45, onde cruzamos novamente com a Estrada Real, q descia pro sul. Porem, nos a cruzamos e tomamos um trilho de cristal claro-fino q continua suavemente pro topo da Serra da Chapada, por um platozão ondulado com vegetação de cerrado. 10hrs tem nova pausa numa bela praia fluvial as margens do Córrego da Cachoeira, com direito ate a “tchibum em trajes sumários” da Cleusa. A trilha termina num asfalto q cruza a serra sentido nordeste, acompanhando as torres de alta tensão. Cruzamos o asfalto e prosseguimos do outro lado sem muita dificuldade ate chegar nas encostas rochosas da Serra da Chapada. Pulamos uma cerca, acompanhando a crista pro sul, q revela mais cumes e paredões rochosos. Os horizontes a leste tb se alargam, com o arraial de Chapada aos pés da Serra do trovão, onde deveríamos chegar ate o final do dia.

Deixamos a crista e seguimos pra leste, em direção ao arraial, ao longe, serpenteando muitos afloramentos rochosos e campos rupestres ate chegar num córrego q descia a serra. Pausa pra descanso as 12:30hrs com 30km percorridos. Aqui eu e a Cleusa resolvemos fazer um rápido ataque ao topo, enqto a Kátia se bronzeava nas pedras do rio. No ataque, subimos um descampado de capim pra depois subir pelas lajotas dos afloramentos rochoso, alguns de inclinação quase vertical. No alto (1452m) tivemos uma vista privilegiada da larga crista rochosa e exposta, se estreitando&nbsp, sinuosamente pro norte e pro leste, onde despenca abruptamente aos pés da Represa do Taboão.
Voltamos as 13:30, fizemos um lanche rápido pra retomar a pernada logo depois.

Descemos suavemente o resto de serra ate esbarrar num trilho erodido, q nos levou ao topo de outro morro. Tivemos q desce-lo, pulando de pedra em pedra sua encosta íngreme pra chegar na outra cadeia de morrotes q nos levaria ao sopé da Serra do Trovão, sem necessariamente passar pelo arraial. No fundo do vale (rochoso) corria o furioso Ribeirão Falcão, q formava um belo cânion, com formações rochosas parecidíssimas ao Vale da Lua, na Chap. dos Veadeiros. Passamos pro outro lado do rio, mas a Cleusa demorou um tempão pra convencer o “Dog” a fazer o mesmo. Assim q conseguiu, subimos a suave morraria seguinte através do capinzal por um bom tempo, cruzamos uma estrada de terra q saia do Arraial, e após pular uma cerca começamos propriamente dito a subida da Serra do Trovão.

Aos ziguezagues, fomos ganhando altura gradativamente por trilho claro ora em meio em campos abertos, ora em meio a muito arbusto. Ao bordejar um cinturão de mata ouvimos água e não pensamos duas vezes em abastecer os cantis. Continuando a subida, agora contornando vários afloramentos rochosos, alcançamos o quase-topo da serra as 16:30 e estacionamos definitivamente um degrau antes do platozão final, principalmente pelo topo ser totalmente descampado e demasiado exposto. Já onde estávamos haviam enormes pedras e alguns arbustos q serviam de eventual proteção. Assim, montamos acampamento e logo descansamos os corpos combalidos pelo dia extenuante e dos 34km percorridos ate então.

Na seqüência apreciamos o espetáculo do pôr-do-sol na cia de um pessoal de Lavras Novas q cavalgava por ali e se impressionou com nossa disposição em pernoitar lá. O céu lentamente foi se tingindo de tons alaranjados ate o Astro-Rei se perder na silhueta recortada das montanhas no horizonte, deixando td na mais absoluta penumbra, com exceção da luz tremula dos pequenos arraiais próximos e de algumas queimadas dispersas nos campos. Após jantar um delicioso nhoque q as meninas preparam (e ate o “Dog” se fartou! Alias, ele comia qq coisa de tão magro q era!), nos recolhemos naquela noite agradável onde ventou razoavelmente, e o ceu limpo se forrou totalmente de estrelas.

Continua…..
Texto de Jorge Soto com fotos de Cleusa Oliveira e Katia Zander
http://www.brasilvertical.com.br/antigo/l_trek.html
http://jorgebeer.multiply.com/photos

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Sobre o autor

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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