Os Limites e as Águas do Pantanal

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O Pantanal pode ser entendido como uma savana árida e alagável, com uma altitude baixa de planície. Situada no oeste brasileiro, abarca também regiões paraguaias e bolivianas. Esta região ondulada pertence à bacia do Rio Paraguai, com seus afluentes brasileiros da margem esquerda. Veremos adiante que é a lenta drenagem desses rios que causa o seu alagamento.

Rico em depressões rasas, é circundado pelo lado brasileiro por serras mais altas. A oeste, prolonga-se até os contrafortes dos Andes e, a sul, pelos pampas paraguaios. Existem poucas elevações, em geral isoladas, as serras e as chapadas situando-se nos seus limites, não no seu interior.

Mapa de Localização do Pantanal

Diz-se que o Pantanal é um país aquático, com 200 a 240 mil km² (dependendo das cheias), dos quais 60% no Brasil. Destes, cerca de 2/3 pertence ao Mato Grosso do Sul e o restante, ao Norte. E é uma área enorme: equivale à de São Paulo ou do Equador, ao dobro da Inglaterra e ao triplo da Áustria.

Queria falar um pouco mais sobre o relevo, para mostrar como ele confina o Pantanal. Percorrendo suas bordas de oeste para leste, você encontrará a norte a Serra das Araras (aprox. 650m) e a Chapada dos Guimarães, com seu ponto culminante no Pico de São Jerônimo (836m).

Essa serra se verga no sentido sul, juntando-se à de Maracaju (750m), uma longa escarpa de 450 km que define todo o lado leste da depressão pantaneira. Ela tem perfis em arenito muito movimentados quando vistos à distância, mas suas encostas são bem feias, como todas as que vi no Pantanal.

Esquema dos Limites do Pantanal, MS e MT

Contornado o bordo leste, aparece a sul o agitado perfil da Serra da Bodoquena (720m), responsável por empurrar o Rio Paraguai para o oeste, estreitando a sua drenagem. Nela foi criado um Parque Nacional, ainda sem estrutura nem visitação. Esta é uma formação longa, com talvez 200 km, ou metade da de Maracaju.

Agora que chegamos à extremidade sul do Pantanal, vamos encontrar a oeste as depressões bolivianas e paraguaias, chamadas de Chaco. Não estive lá, mas as avistei em outra viagem – e percebi que delimitam a planície pantaneira ao criar degraus a oeste. Subindo para Corumbá, existe o Maciço do Urucum (1.065m) com cerca de 60 km, rico em jazidas de ferro e manganês. Novamente, suas encostas são áridas e feias. Como na Bodoquena, é formado por chapadões e morros isolados.

Mapa dos Limites do Pantanal, MS e MT

De Corumbá, virando para o norte, vamos encontrar a última das serras que irá contornar o Pantanal. Trata-se da Serra do Amolar, 80 km de uma região íngreme e aquática, em que o perfil das montanhas areníticas e calcárias emerge a 980m a partir da infinita planície inundada do Rio Paraguai. É neste local remoto e diferente que se fecha o Pantanal.

Chegar lá sempre será uma aventura, dado o seu tamanho. O principal acesso ao Pantanal Norte é por Cuiabá. No sul, pela rodovia entre Campo Grande e Corumbá. Estas são as principais rodovias, sempre debruçadas sobre as bordas do Pantanal. Mas essa é, por assim dizer, a história oficial. O Pantanal não é uma reserva ou um parque, 90% de sua área pertencendo a fazendas particulares. Existe mais de meia centena de estradas ligando esses locais, num delírio para praticantes de off road, em especial depois das cheias.

Esquema das Rodovias do Pantanal, MS e MT

Porém só existem no Pantanal duas estradas internas. No Norte, é a Transpantaneira, que nasceu como um ambicioso e malogrado projeto dos anos de 1970 de atravessar de norte a sul o Pantanal. Traçada de forma empírica, procurou seguir os caminhos boiadeiros e observar as marcas d´água. Mas não conseguiu cruzar o Rio Cuiabá, terminando em Porto Jofre com 145 km, ou apenas 1/3 do total pretendido.

Tem um traçado reto e largo, com mais de 120 pontes, cada qual funcionando como um mirante. Já se disse que parece às vezes um gigantesco zoológico, em linha reta e a céu aberto. Dela comentou seu idealizador, o agrônomo Gabriel Müller, que se transformou no maior abrigo dos animais. De fato, acabou funcionando como uma estrada ecológica, onde os aterros revelaram uma surpreendente condição de reter as águas das cheias, como refúgio para a fauna aquática.

No sul, a rodovia existente se chama Estrada Parque. Com 120 km em largo leito de piçarra, é uma variante da estrada que vai a Corumbá. Pode ser percorrida normalmente durante a seca, de abril a setembro. Começa no Morro do Azeite, cruza por ponte o Rio Miranda e por balsa o Paraguai. Termina em Ladário, já ao lado de Corumbá e da Bolívia, após passar pela Serra do Urucum.

Ela encontra no seu percurso inúmeras vazantes, passando por cerca de uma centena de pontes de madeira. Procure fazê-la no início da manhã ou no meio da tarde, para facilitar o avistamento de animais. Reserve pelo menos quatro horas para percorrê-la – sua recompensa serão os muitos animais encontrados. A vegetação é muito interessante, desde os aguapés das vazantes, os cactos e gravatás dos trechos arenosos, os ipês e jacarandás floridos em amarelo, rosa e branco.

O Mar de Xaraés no Século XVIII, MT

Esse grande mar interior do Pantanal já foi comparado ao oceano, quando os primeiros espanhóis o conheceram na cheia e o chamaram de Mar de Xaraés. Porém as evidências geológicas apontam o soerguimento dos Andes como a força que deformou e afundou a placa sobre a qual repousa o Pantanal, debruçando-a nos sentidos oeste e sul. Este movimento explica porque os rios do sul e sudeste brasileiro correm para o interior. Foi o Rio Paraguai que cortou seu caminho por dentro dos sedimentos, desta forma desentupindo o Pantanal.

Mas é enganoso este nome, pois existem poucos pântanos na região. Ela é alagada, não pantanosa. Sua inundação não decorre também de chuvas torrenciais, pois no Pantanal chove por exemplo tanto quanto num bom ano no interior de São Paulo. Ela acontece devido às baixas declividades: 2 cm por km de norte a sul (ou meros 10-15 metros entre as extremidades desta enorme área) e cerca de 10 cm por km de leste a oeste (com 30 metros entre os dois lados). Assim, diz-se que a água leva nada menos do que quatro meses para atravessá-la.

As Águas do Pantanal (Foto Divulgação)

As inundações são mais profundas e duráveis nos baixos cursos dos rios – nas bordas da planície, tendem a ser mais leves. As precipitações são menores na região baixa e maiores no planalto, onde chove o dobro. As chuvas do norte chegam antes das do sul, o que reforça o ciclo das águas que você verá a seguir.

Relevo Esquemático do Pantanal

No início da estação chuvosa (nov-dez), as águas se concentram na borda leste do Pantanal, pois é de lá que fluem os rios. À medida que o verão prossegue (jan-fev), a área alagada engrossa, cobrindo talvez a metade direita da região. Mas, quando as chuvas começam a rarear (mar-abr), a borda leste começa a secar e a inundação passa a ocupar o centro e o oeste. Na seca (mai-ago) a região úmida continua se estreitando e caminhando a oeste e, no fim do processo (set-out), fica restrita à fina faixa da extremidade sul. Este é o peculiar ciclo das águas, um movimento envolvente que percorre gradualmente este país chamado Pantanal.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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