Os Três Irmãos

0

A ideia de subir os Três Irmãos me surgiu quando os vi pela primeira vez, dos altos da Serra do Papagaio de Aiuruoca. Foi uma visão esplêndida, pois eles formam três pirâmides frontais ao Papagaio, que lá de cima aparecem perfeitamente alinhadas, como se fossem um monumento sagrado.

Quando procurei saber o nome da pirâmide maior, disseram-me apenas que era o pico central dos Três Irmãos. Como o acesso não me parecia óbvio, procurei saber de alguém que os tivesse visitado. Para minha surpresa, por mais que procurasse, não descobri ninguém.

Face Oeste da Serra do Papagaio, Aiuruoca, MG

A razão foi que a formação das três pedras não era conhecida por este nome e, pior, nas proximidades havia de fato três cumes assim chamados, mas eram pouco expressivos. E existia até uma outra montanha isolada com este mesmo nome. Uma bela confusão.
Mas, um dia dois anos depois, conversando com Bruno Dias de Caxambu, soube que ele conhecia a montanha. Ela se chamava Moquém e ficava no município mineiro de Carvalhos (moquém é um modo que os índios assavam a carne). Ele havia inclusive aberto uma rota de escalada VII.b, nos 150 metros de uma faixa esbranquiçada na sua face sul.

Vista da Serra do Moquém, Carvalhos, MG

Como ele só havia chegado ao cume pela parede, e não por trilha, como era minha intenção, acabamos subindo por um caminho novo, que ele não havia tentado, atravessando um campo íngreme. E voltando por uma outra rota nova. Você vai saber porque.
Ao nos aproximarmos da parede empinada da montanha pela agradável estradinha de terra, vimos à sua direita as faces ora rochosas e ora recobertas de vegetação do Mato Grosso e, à esquerda, o belo perfil abaulado do Francês, os nomes são os oficiais do IBGE.
Essas eram as três pirâmides que eu havia visto do Papagaio. Entretanto, na região as montanhas menores recebem os nomes de Calambau e Bandeira. Acabavam neste momento dois anos de busca – eu havia achado os Três Irmãos!
Era um dia quente e minha esposa Alessandra reclamava da trilha. Nós a deixamos sob a sombra de uma árvore. Subimos a parede do Moquém, com um pequeno trecho de escalada. Lá em cima, não enxergamos mais a sua blusa amarela. Logo depois, vi um vulto se aproximando: ela havia descoberto uma fenda lateral e corajosamente subido por ela!

Parede do Moquém, Carvalhos, MG

Não sabia que ela escalava, o Bruno disse. Nunca escalou na vida!, respondi. Mas na volta, descemos pela fenda, num caminho mais interessante. Assim, você pode escolher entre a face sul de escalada do Bruno, a escalaminhada frontal do Alberto ou a rampa lateral (para não dizer a fenda) da Alessandra.

Parede do Moquém, Carvalhos – MG

Todas valem a pena, a pedra é sugestiva e a região é muito bonita.
Compartilhar

Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

Comments are closed.