Peabiru

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Desde do tempo das descobertas luso-castelistas na América, corriam noticias sobre a existência de um império das minas de prata e outras riquezas. Com informações de sendeiros, que conduziam à essa mítica serra da prata, bem como de caminhos que permitiam ligar o atlântico com o pacifico. Trilha que atravessava pôr dentro do Paraná e alcançava o império da prata, nos Andes. Também surge a historia de um português, que seguindo estes mesmos rumores, consegue atingir essa região tão desejada e trazendo provas concretas da existência de metais preciosos.

A historia desse personagem soava fantástica e fantasiosa, bem como o de se aceitar a existência de intricada rede de caminhos. Tentar reconstituir e comprovar esses acontecimentos, é um trabalho que só recentemente foi sendo elucidado.

Na falta de documentos comprobatórios, decidimos iniciar nossos estudos através do resgate de todas as evidências possíveis, da busca pôr quaisquer possíveis vestígios espalhados ao longo dos caminhos, uma busca pacienciosa das pistas ou traços que realizamos através do trabalho investigativo, detivesco e que nos obrigou conhecer a geografia territorial.

Antecipando o resultado de nossa pesquisa, encontramos a existência de um extenso caminho tinha vários pontos de partida, situados na costa atlântica, desde Santa Catarina, Paraná e São Paulo e que se reuniam no segundo planalto do Paraná para adentrar no terceiro, seguir rumo ao poente, até altura de Pitanga e Campo Mourão, onde infletia aos saltos Guaíra ou Foz do Iguaçu, dependendo do objetivo pretendido, se era para Assuncion ou à região de Potosí. Esta é a trilha denominada Peabiru.

Para principiar no desvendar do Peabirú, vamos em busca de seu significado etimológicos apoiado em vários estudiosos. Vejamos: PEABIRU, também grafado nas formas de peabeyu, piapyru, peavijú, plabiú

Caminho das montanhas resplandecentes (Samuel G.Costa/Galdino)
Caminho dos Pinheiros (Carvalho Franco)
Caminho Ralo (Mansur Guérios)
Caminho batido (Ramon Cardozo)
Caminho da montanha do sol (Samuel G.Costa/Galdino)
Caminho cujo percurso se inicia (R.Maack)
Biru= Peru e PE= caminho = caminho para o Peru
Em guarani Peabeyu: Caminho antigo de ida-e-volta (Guzman)

No Paraguai e Peru: Peaviju, Peaviru, Tape Aviru
Caminho terraplenado; caminho estofado; caminho fofo (Samuel G.Costa)
Pea Piruberu: caminho ao Peru (Rosana Bond)
Pea Yu: caminho de ida-e-volta

Como vimos, a tradução reforça a existência de um caminho, com seu significado assegurando-nos sua presença física.

A analise de todos os significados confirmam estar relacionado a caminho. Sendeiro ou trilha, são frutos da ação dos indivíduos afeitos nas atividades de exploração, desbravamento, com abertura de picadas.

Para explicar a questão da cobertura, devemos considerar que a ação de desmate para abrir uma passagem na floresta, implica na destruição da comunidade vegetal ali estabelecida. E o seu constante utilizar, tornam difícil ou lento a regeneração natural, chamado de processo de sucessão.

Qualquer área, desmatada natural ou antropicamente, sofrerá este processo continuo e regionalmente distribuído e seu progresso inclui as condições climáticas, umidade e insolação. Face a este processo sucessório, é fácil entender que é perfeitamente natural o aparecimento de gramíneas, dependendo do ecossistema ou bioma da área afetada. Portanto, são coerentes as traduções vocabulares, e quanto ao ter sido intencionalmente plantado com grama única, foge a qualquer sustentação cientifica.

Tecnicamente podemos dizer que no processo sucessório, pode acontecer de ser iniciado uma colonização por hemicrópfitos pioneiros de famílias bastante primitivas, tipo gramíneas. Fase primeira com terófitos (sementes) e caméfitos (gemas e brotos), plantas de pequeno porte e exigência rudimentar. As vezes, dependendo dos impactos, pode surgir a capoerinha que já é um estado de sucessão secundário, e gramíneas do gênero paspalum. Já na terceira fase, o surgir das espécies lenhosas e assim por diante. Portanto é natural a picada constituir-se em um caminho fofo, estofado, batido, ou ralo, confirmando o significado do vocábulo "peabirú".

Após o desvendar etimológico, fizemos o levantamento de todas as referências históricas encontráveis nos vetustos relatos dos viajantes, faiscadores, exploradores, cartas, memorialistas, historiadores e cronistas, e que reproduzimos alguns: O historiador Alfredo Romário Martins, em sua Historia do Paraná, 3ª edição, escreveu sobre o Peabiru: "os índios chamavam a um caminho pré-colombiano que se estendia por mais de 200 léguas da costa de São Vicente ao rio Paraná, atravessando o Tibagi, Ivai e Piquiri. Ao poente do Paraná prosseguia atingindo Peru a costa do Pacifico".

Romário complementa com os possíveis ramais: o de São Vicente, Piratininga, Sorocaba, Botucatu até Tibagí, Ivaí e Piquirí. Outro tronco, era pelo Tiete e depois atravessava o Paranapanema, próximo a foz do Pirapó, subia pela sua margem até o Ivaí, atravessando-o pouco acima do rio da Guia, margeando a esquerda até Campo do Mourão. Por ultimo, o tronco sul entre Ivaí e Piquirí e ia para o Iguatemi.

O padre Antonio Ruiz de Montoya, em seu livro" Conquista Espiritual (1639) -2ª  edição 1892, escreveu,verbis: "Yo no Ias he visto, pero 200 leguas de esta costa Ia tierra adentro, vimos mi compañeros y yo un camino que tiene ocho palmos de ancho, y en este espacio una muy menuda yerba, y á los dos lados de este camino crece hasta casi media vara, y aunque agostada Ia paya se quemen aquellos campos, siempre nace Ia yerba á este modo. Corre este camino por toda aquella tierra, y me han certificado algunos portugueses, que corre muy seguido desde el Brasil, y que comúnmente le lIaman el camino de Santo Tomé, y nosostros hemos tenido Ia misma relacion de lós indios de nuestra espiritual conquista".

Outro trabalho volumoso sobre a Historia da Companhia de Jesus no Brasil, de Serafim Leite à pg.322, onde além de fazer referência ao Lozano, redigiu importante dado:
Ficando em São Vicente, Leonardo Nunes desceu daí a algum tempo umas trinta léguas pela costa, mas por terra, com grandes trabalhos e fomes…Pelo interior sulcou também vários caminhos: e entre eles, pelo menos parcialmente, o chamado Piabiru, que ia até o Paraguai, ramificando-se para o sul até o Iguaçú, em cujas margens moravam os ibirajaras…Por este mesmo caminho iam os irmãos Pero Correia e João de Souza, quando os mataram os Carijós".

Nos Manuscritos Coleção de Angelis, in Jesuítas e Bandeirantes no Guairá ed.1951: "provavelmente, João Ramalhoa e os seus companheiros de Santo André da Borda do Campo conheciam, e praticavam o Piabiru, ou seja, o sistema de caminhos."

O padre Pedro Lozano (1697-1752) A Historia de La Conquista, 1874 tomo 1: "Por esta Provincia corre el camino nombrado por los Guaranies Peabiru, y por lós espanholes de Santo Tomé, que és el que traje el gloriosimo Apóstol por mas de 200 léguas, desde Ia Capitania de San Vicente, en el Brasil, y tiene ocho palmos de ancho ….. "

Na obra de Branislava Susnik intitulada Dispersion Tupi-Guarani Pré- histórica", editado em Assuncion em 1975 traz: " Respecto a los Guaranies, todas Ias noticias de los primeiros contactos com los blancos destacan su homogeneidad, limitándose a las simples indicaciones regionales o denominaciones de las parcialidades. Los conquistadores podiam seguir" los caminos" guaranies entre diferentes "guará-regiones", los que confirma asimismos la existência de intensas comunicaciones interregionales y, la vez, la evocaión de la antiguas vias dispersivas; conviene recordar " el camino Piabiru desde la costa atlantica al alto R.Paraná por Tibagi, Ivai y Piquiry, camino seguido también por Alvar Nunez Cabeza de Vaca".

Intrigante que em alguns relatos fazem alusão a aldeias de indios peabirus conforme relato de 1557 : Em Aguirre, verbis, "… y Chaves hubo de hallar necessário atacaríos, porque los persiguio por la costa Dei Paraná-Pané, Atibajiva y otros lugares, en cuyas circunstancias estuvo cerca de la costa del mar y se sobresaltaron hasta los portugueses. De regresso, fue esperado por un gran coligacion de los tupies y tobayaras en un lugar lIamado Piabiyu".

Em Guzman, verbis:" Después determinó el Gobernador despachar à Nuflo de Chaves á  la provincia del Guairá a reducir aquellos naturales y remediar los continuos asaltos de los protugueses del Brasil, que los venian á llevar para esclavizarlos, Caminó Nuflo de Chaves com una compañia de soldados, que llegó al Paraná, procurando conservar la paz com aquellos naturales. Pasó adelante, y entró por outro rio que viene de Ia costa del Brasil, llamado Paranapané, que es muy poblado de grandes y gruesos puieblos de indios, de quien fue bien recibido: y dejando este rio, navegó por outro … llamado Latibajiba,que … y pasado por los pueblos que están a sua margenes llego a los fronterizos que estaban cercados com fuertes palizadas a precaucion de sua enemigos los Tupies y Tobayaráes del Brasil y de los portugueses de aquela costa ….volvio por outro rio, y saltando en tierra en los pinales de aquel territorio, visto, los indios que por ali, habia … Hecho esto dio vuelta por outro camino, y llegó a una comarca de indios llamados Peabeyues".

Em Azara, verbis: "Salio pues Chaves en setiembre de 1555 com una compañia de españoles y algunos indios ausiliares, y redujo sin dificuldad a los guaranís de la costa Del Paraná, que le franquearon sus canoas para intgraoducirse por el caudaloso Paranapané. Redujo a los numerosos guaranis de sua riberas hasta lIegar a intemarse por el caudeloso Tihahiba que entra, por la derecha ó por el Mediodia en diacho Paranapané. Desde alli determinó retirar-se por donde no habia estado y en su transito fue acometido por los guaranis lIamados peabiyus".

Da leitura do trio acima referidos, concluem-se de que tratam dos mesmo episódio e fonte, portanto consideraremos como um único registro.

Vários autores consagrados e diferentes profissões, registram a existência do peabirú. A exemplo de Roberto Simonsen, Carvalho Franco, Alfredo Ellis Junior e Sergio Buarque de Holanda.

Após as referências históricas trazidas a lume, vamos aos testemunhos dos protagonistas que caminharam sobre os diversos peabirús, convergindo para a grande direção saindo do nordeste ou sudeste da costa sul brasileira, em direção do noroeste até os altiplanos andinos.

Mais ou menos, no ano de 1524, um dos sobreviventes da esquadra espanhola de Solis que naufragou no sul de Florianópolis, português de nome Aleixo Garcia foi o protagonista da primeira e mais insólita caminhada da América do Sul, saindo da ilha de Santa Catarina alcançou a região de Potosi, confiando nos relatos trazidos pelos seus anfitriões indígenas da aldeia em que escolheu para viver e constituir família.

Alcançou o império inca, acompanhado de mais 2000 guaranís ao final da jornada, infringiu-Ihes sérias derrotas militares, retomando com considerável botim em prata e ouro. Quis o destino que fosse morto no Paraguai, sobrevivendo seu filho menor e outro companheiro de naufrágio, que retomou ao ponto de partida confirmando todas as informações que lhes haviam sido fornecidas sobre a existência de um império cheio de metais preciosos.

Em 1531 ou 1532, Martim Afonso, na sua incursão marítima para o sul, ancorou em Cananéia onde diante dos fortes rumores da existência de um império recheado de ouro e prata, consentiu ao capitão Pero Lopes comandasse um grupo de 80 homens armados, guiados por Francisco Chaves (sobrevivente do grupo do Aleixo Garcia) e a promessa do retorno dentro de poucos meses, com vultuoso e cobiçado carregamento de ouro e prata. O destino desses homens foi selado nas proximidades da Foz do Iguaçu, conforme informação de Cabeza de Vaca.

Deveria ser bastante utilizado o peabirú, como caminho mais fácil para se alcançar Assunção, pois em 1539, portugueses temerosos de possível ataque espanhol, solicitaram ao rei D.João III, o fechamento do referido caminho. Pedido formulado por Diogo Nunes e os padres vicentinos Felipe Adorno e Johann Hielst.

Tome de Souza, quando tomou conhecimento do grande movimento financeiro comercial dos espanhóis que utilizavam do caminho para alcançar o porto de Tumuaru (depois São Vicente) vindo de Assunção, ordenou seu fechamento em 1553.

Em 1541, o Adelantado Cabeza de Vaca, sai de Florianópolis, rumo Assunção, onde chega depois de 8 meses, seguindo a mesma derrota do Aleixo Garcia, que partiu do rio Itapocu e que na altura de Pitanga, em vez do rumo de Guairá, inflectiu para a Foz do Iguaçú.

Deixou registro dessa epopéia, constituindo-se no primeiro relato escrito dos vários peabirús que desembocavam no grande eixo direcional, leste-oeste.

Em 1552, Ulrich Schmidel, arcabuzeiro alemão que, após viver mais de 18 anos em Assunção, atendendo um chamado da Alemanha para retornar ao seu país, vai pela via terrestre até São Vicente, onde embarcou para Europa. Publicou em sua terra natal, importante descrição dessa sua caminhada cuja primeira versão está guardado nos arquivos de Stutgart desde 1554.

Houveram outras copias como a de 1567 do arquivo de Frankfurt, seguida a de Hamburg e Nüremberg , 1599 de Münich e 1893 a de Straubing.

Curioso observar de que pouco antes da partida de Schmidel rumo ao Brasil, havia recém chegado à Assunção, Diogo Dias vindo de São Vicente e depois foi um dos signatários pelo fechamento da trilha. Apesar da proibição do uso dessa vereda indiática, houveram váriosdescumprimentos, com partidas do litoral paulista ou de Santa Catarina, e no sentido inverso, partindo do Paraguai.

Citamos algumas iniciativas bem sucedidas como as de Ruy Dias de Melgarejo, do governador Luiz Céspedes y Xeria e posteriormente sua esposa Dona Vitória de Sá, do filho de Gaspar de Brito Filho (ida e volta), Juan de Salazar, Raposo Tavares , Diogo Dias, Johan Ferdinando , dos irmãos Pedro Correia e João de Souza, Ruy Diaz de Melgarejo, do padre Leonardo Nunes, entre outros.

Possivelmente, no período da unificação das coroas de Portugal e Espanha (1580-1640), tenha sido tolerado sua utilização.

Outro sinônimo para o peabirú era o de chamar de caminho de São Tomé ou, por sincretismo ou corruptela, transformado em sumé ou tumé entre os selvícolas. Estudiosos das questão religiosas, atribuem este nome a intencionalidade dos jesuitas para seus trabalhos de catequese, dos índios catecumenos.

Uma vez que reconhecemos a existência desse caminho transcontinental e testemunhos dos que pôr ele transitaram, permitem-nos entender os rumores que povoavam na memória dos selváticos da costa brasileira no relato de um império recheado de prata e ouro e que alimentaram o sonho dos primeiros conquistadores, como registram alguns documentos que expomos.

Cartas do govemador Domingos Matinez de Yrala ao rei da Espanha (1545): " un esclavo que habia sido de um Garcia Cristiano que llevo al ysla de Santa Catalina cierta cantidad de metal… los envio por el camino que Garcia vino" (Machain, Ricardo de Lafuente – EI gobernador Domingo Martinez de Yrala – Cartas de Yrala – Buenos Aires, 1939).

Alusão de Diego Garcia de Monguer, veterano da armada de Solis, em seu memorial a "uno de los mio …. que avia quince anos de una carabela que se nos perdió fué por tierra deste rio de Paraguai, e truxo dos o tres arrobas de plata", (Insfiuto Historico e Geográfico Brasileiro, Revista do – Tomo XV (1852)- Memória de Diego Garcia).

Carta de Luis Ramirez com referências concretas a partir da ilha, de companheiros de Melchior Ramirez e Enrique Montes “los cuales fueran u lé enviaron doce esclavos y lás muestras del metal" .. (Medina, Jose Toribio – EI veneciano Sebastião Caboto al servicio de Espana – Imprenta y Encadernacion Universitaria – Santiago do Chile, 1898 – Tomo II pag.442 e Madero – idem- pg. 373)

Com a existência do relato publicado por Ulrich Schmidel que merece ser reproduzido, engajou muitos historiadores e pesquisadores na tentativa de mapear o roteiro e assim traçar os peabirus, em especial determinar seu eixo principal.

Recorremos na tradução de Edmundo Wernicke, que se utilizou do documento de Stuttgart, vejamos: "emprendí el viaje en el ano mil quinientos cincuenta y dos. EI dia veinte y seis de diciembre, en el dia de San Esteban, he partido de Rio de Ia Plata desde Ia ciudad de Nuestra Señora de Asunción. Así he con veinte indios y dos canoas y he lIegado a un lugar que se lIama Hieruquizaba y hay desde la ciudad hasta esta localidad veinte y seis leguas por tierra. En este lugar Hieruquizaba vinieron hacia mí otros cuatro cornpanüeros, dos españoles y dos portugueses, pero éstos no tenían liciencia alguna de nuestro capitán. Así marchamos juntos desde Hieruquizaba y vinimos a un gran lugar que se lIama Guaray y desde el susodicho lugar Hieruquizaba hasta este lugar, Guaray hay quince leguas de camino; desde ahí marchamos en cuatro jornadas, estas son diez y seis leguas, y vinimos a un lugar que se lIama Yaguaretí; desde ahí marchamos por nueve jornadas, estas son cincuenta y cuatro leguas de camino, y vinimos a un lugar que se lIama Guarete. Ahi quedamos por dos días y tuvimos que buscar bastimento y canoas para e viajáramos AGUAS ARRIBA por la Paraná por cien leguas y vinimos aun lugar que se lIama Guingui;

Propositalmente destacamos em maíusculo, os vocábulos AGUAS ARRIBA e que ao final voltaremos a abordar, face as discrepâncias surgidas com as traduções, especialmente a de Reinhard Maack.
Continuemos com o relato do Schmidel, na tradução de Wernicke: "ahí quedamos cuatro días. Esto pertenece a la Cesárea Majestad y es tierra de los Caríos. Ahora comienza la tierra dei rey de Portugal, de los Tupís. Ahora tuvimos que dejar las canoas y el rio Paraná y tuvimos que marchar por tierra hasta los Tupís; hemos marchado por seis semanas que por desierto, serranías y valles y que nosotros también en frecuentes ocasiones no pudimos dormir tranquilos por los animales salvajes, esos son los tigres; y hay desde el susodicho lugar de Guingui hasta estos Tupís ciento e veinte y seis leguas de camino y esta nación, los Tupís, estos comen sus enemigos, los unos a los otros.

Schmidel passa a descrever cenas de canibalismo que propositalmente saltamos; para continuar : “Estos Tupís no tienen outra solaz que guerrear, comer y beber y estar borrachos día y noche y bailar y es un pueblo orqulloso, soberbio y altanero; y hacen vino del trigo turco; asi quedan borrachos de este vino como acá afuera alguien que quedara borracho del mejor vino. EstosTupís hablan un idioma igual al de los Cariós; hay una pequena diferencia entre ambos en cuanto a la lengua. Desde ahí marchámos a un lugar que se lIama Cariseba. Estos son también Tupís y estos Tupís guerrean contra los cristianos, también contra los otros Tupís, que son amigos de los cristianos. Así vine yo com mis compañeros en el dia de Palmas, a un lugar a cuatro leguas de camino, pero yo comprendí que nosotros debíamos cuidamos de los susodichos Carisebas”;

Fazemos novo corte, por se referir a fome que enfrentaram, que dispensamos: “Asi nos sostuvimos en este bosque durante cuatro dias y cuatro noches, que tiramos dia y noche los unos contra los otros y en Ia cuarta noche salimos a media noche del bosque y partimos a escondidas, pues no teniamos ucho que comer”;

Fazemos novo recorte, para continuar: “Y desde ahí marchamos seis jornadas y vinimos a una nación que se lIama Viaza, que nunca salimos de la selva salvaje, que en toda mi vida no he visto jamás semejante camino, pues he viajado muchas leguas y he andado en idas y vueltas. Como no teníamos que comer en este camino, así nosotros los cristianos y los indios tuvimos que sustentamos sólo de miel y otras raíces y cardos que hallamos en la selva; pues no teníamos la demora suficiente para que hubiéramos acechado o buscado carne de salvajina, pues recelábamos que los enemigos , los Tupís, siguieran y se apuraran. Y cuando vinimos a los susodichos Viaza, acampamos durante cuatro días e hicimos bastimento para que tuviéramos que comer, porque no debiamos llegar a la localidad, porque nosotros éramos pocos, para buscar nuevo camino a causa de los indios. En esta nación Viaza halláis un rio que se lIama Urquaie” ( Urguaie, no documento de Münich).

Schmnidel estende-se no descrever cobras, impressionado com a sua abundância e que novamente suprimimos para continuar: “Asi quedamos un mes en camino y vinimos a una gran localidad, que se llama Yerubátiba, y desde los susodichos Viaza hasta la localidad de Yerubatiba hay cien leguas de camino. Ahi quedamos durante tres dias y estuvimos muy cansados en el camino, pues ya no teníamos qué, así nuestro alimento en mayor parte no era outra cosa que miel”;

Novo salto no texto e avançar: “Ahora marchamos hacia una localidade que pertenece a los cristianos. EI Jefe que estaba en esta villa se lIamaba Juan Ramallo. A estye pueblo quiero reputar como una casa de latrocínio. Fué nuestra buenaventura que el Jefe no estaba en casa y estaba com los otros cristianos que habitan en San Vicente, pues ellos, los cristianos, hacen en tiempos un convenio entre ellos. Los otros que viven en San Vicente y en otros pueblos cercanos son más de cerca de ochocientos hombres, que todos son cristianos y sometidos al rey de Portugal. Y este Juan Ramallo no quiere estar sometido al rey de Portugal o al lugarteniente del rey en esse concepto, pues él dice expresa que él há estado cuarenta anos en esta tierra en Las Indias y Ia há habitado y ganado . Porque no há de gobernar él la tierra como cualquier outro? Por eso se hacen la guerra entre ellos, pues si este Juan Ramallo quiere reunidos cincuenta mil indios, puede juntarlos en un dia, tanto poder tiene él en Ia tierra, mientras ni el rey ni sus lugartenientes pueden reunir dos mil indios.

Ahora debo decir también que sus hijos, los del sobredicho Juan Reamallo, han recibido bien a nosotros los cristianos, pero ello no obstante, tuvimos mayor receio entre ellos que entre los indios. Ahora como esto há salido bien, damos gracias a Dios el Todopoderoso. Ahora seguimos adelante a una villa que se lIama San Vicente y desde Ia sobredicha localidad hasta esta ciudad de San Vicente hay veinte leguas de camino. Así hemos el día trece de junio en el ano de mil quinientos cincuenta y tres en el dia de San Antonio y ahí hemos hallado un barco de Portugal que havia cargado azúcar y paio de Brasil, también algodón y este barco há pertenecido al Juan von Hielst, el factor del Erasmus Schetz en Lisboa. EI Juan von Hielst tiene también su factor en San Vicente que se llama Pedro Rossel. Estos señores, los Schetz, tienen en unión com Juan von Hielst muchos lugares y aldeas que está en esta tierra y les pertenecen. Los señores hacen azúcar en la tierra durante todo el ano. Así me recibió muy amistosamente el sobredicho Pedro Rossel y me hizo gran honor y amistad para que yo fuera transportado y partiera lo más pronto"

Encerrado a reprodução parcial do Schmidel, que respeitamos apenas no tocante ao percurso propriamente dito, vamos retomar a questão do tal vocábulo "água arriba", que antes referimos, e relacionado exclusivamente com à navegação do rio Paraná, e que são divergentes nos documentos arquivados na Alemanha, como demonstraremos.

No documento de 1599, existente no arquivo estadual de Münich (Codex monagensis germ.3000.f 62r) utilizado por R. Maack:, está escrito, verbis: "Da pliebenn wie 3 tag lanng, dasz wir probannt und Cannouen sucten, dann wir 100 meil die Pamau ( Paraná) ABWERTZ musten farren, und khamen zu einem fleckm haist Gienge". Em português: Lá ficamos 3 dias procurando provisões e canoas, depois DESCEMOS 100 milhas o rio Parnau e chegamos a um lugar chamado Gienge.

No documento de 1554, do arquivo de Stuttgart e que é o mais antigo, cronológicamente é o primeiro que diz:" Da pliebe wier 3 tag lanng und musste probandt und Cannoi suchgen, damit dass wier 100 mell die Pamau AUFWERTZ furre und khame zu einem Flecken der haist Giengie". Traduzindo: "Lá ficamos 3 dias, procurando provisões e canoas e depois SUBIMOS 100 milhas o rio Parnau e chegamos a um lugar chamado Gienge".

Estas duas palavras em alemão, na verdade o conflito entre as palavras AS e AUF (wertz = direção, sentido) desencadeou verdadeira batalha histórico-geográfica. Devemos considerar que representam nada menos que 100 milhas ou 660 quilômetros!, "para cima" ou "para baixo", na prática de grande significado geográfico.

Vários estudiosos e especialistas que tentaram desvendar o importante relato do Schmidel, vieram aumentar a polemica. Vejamos alguns exemplos: Max Tepp acha que desceu o rio Paraguai até a confluência do Paraná. Dali poderia optar rumo ao rio Uruguai e ir para leste pelo atual território catarinense, ou então rumar ao Iguaçu e depois para as nascentes do Tibagí.

Para Wernicke, que pouco antes reproduzimos sua tradução do Schmidel, considera o documento de Stuttgard como o legítimo e alí está claramente escrito que "subiu" e atingiu o rio Paraná na foz do Piquiri, e dali foi ate a embocadura do Paranapanema, onde acredita estaria situado Gienge.

No trabalho de Richard Buschnick, presume que desceu e após os rios Paraná e Uruguai, percorreu o Rio Grande do Sul (?). Roberto Southey, acha que desceu o rio Paraguai, em seguida, subiu todo o rio Paraná, até a foz do Tietê. Acredita que Gienge estaria na foz do Tietê-Anhembi. Ermelino de Leão, historiador do Paraná, vai na mesma esteira de Southay, Já W. KJoster e FD.Sommer, optam pelo rio Paraguai e o vale do Jejui acima. Bartyolomeu Mitre exposa o documento de Münich: para baixo!

Com os relatos de Cabeza de Vaca, e em especial o de Schrnidel, estimulou a busca de encontrar o roteiro do Peabiru. Nosso historiador Romário Martins, concorda com o trabalho de Gentil Assis de Moura e do qual copiamos: “Partindo de Assunção, desceu o Paraguai, subiu o Paraná até a barra do Iguaçú, daí seguiu pela margem direita até a altura do rio Cotigipe. Em seguida, atravessou os rios Piquirí, Cantú e outros afluentes desses rios. Tranpôs a serra da Esperança; passou pelas cabeceiras do Corumbataí e foi cruzar o Ivaí nas proximidades de Terezina. Depois, em rumo sudoeste, foi passar nas cabeceiras do Tibagí, onde deixou o caminho para Santa Catarina, pelo qual subiu Cabeza de Vaca. Aí tomando à esquerda, pendeu para os matos do vale do Assunguí, passou pela aldeia dos Bilreiros e de Carieseba, onde logo adiante encontrou a encruzilhada do caminho que descia para Cananéia. Prosseguindo,porém, sempre à esquerda, deixou o vale do Assunguí e foi sair nos campos de Faxina, Capão Bonito e Itapetininga, pelos quais seguiu até as proximidades de São Miguel Arcanjo, deixando outra encruzilhada que serviu para ligar Cananéia à região de Piratininga. Desse ponto, passando pelos campos de Sarapuí e de Sorocaba, foi sair em Biesaia, mais tarde Maniçoba ou Jupiura, e hoje Itú, donde procurou o rio Tietê, por cujas margens seguiu até a proximidades do rio Jurubatuba. Descansou 3 dias na aldeia desse nome, até que finalmente chegou a Santo André”.

Vários pesquisadores e historiadores, tentaram reconstituir a marcha do Schmidel, além dos dois anteriormente aqui reproduzidos, ajuntamos o de Julio Estela Moreira, do Paraná, em sua alentada obra em três volumes, intitulado "Caminhos da Comarca de Curitiba e Paranaguá: “Admite-se que os celebres caminhos do Peabirú tivessem suas rotas nas florestas marginais do Paranapanema, tangenciando os Campos Gerais, na sua porção norte. Alguns ramos tomavam destino ao sul, possivelmente em direção a foz do grande rio Iguaçú. Os dados históricos que dispusemos não nos permitem uma definição exata dos roteiros, atravessando campos, florestas e cursos d’água. O clássico caminho do Peabirú tinha como rota, desde 1609 (Bandeira de Nicolau Barreto) a partir de Santo André da Borda do Campo (depois de São Paulo de Piratininga), o curso do Tietê até Itú, Sorocaba, Campos de Sarapuai, Itapetininga, Capão Bonito, Campo da Faxina e doa Apiaí, Vale do Assunguí (Ribeira), Alto Tibagí, Ivaí (proximidade de Terezina), Serra da Esperança, Vale do Piquiri até a foz".
 
Na análise sobre os diversos "peabirús", independentemente se partimos do litoral paulista, paranaense ou catarinense, sabemos que após região de Castro, todos convergiam para os territórios abrangendo Pitanga, Campo do Mourão, Campina da Lagoa, Santa Maria do Oeste, Palmital, Laranjal, Altamira do Paraná e tantos outros, que adiante relacionaremos.

Prospecções de ordem arqueológicas foram levadas a efeito pelo professor doutor Igor Chmyz da Universidade Federal do Paraná, iniciadas em Campina da Lagoa em 1970, atendendo um chamado de um morador da região chamado Pedro Altoe, bem no período do início da introdução da soja que topara com alguns objetos de origem indígena.

Prof. Igor encontrou interessantes provas da ocupação indígenas, de diferentes períodos, inclusive, casas subterrâneas e até vestígios de antigo sendeiro, com profundidade e largura regular, que seguiam por vários quilômetros. Seria o Peabiru? Fica a dúvida.

Temos que nos reportar de que no período colonial, os portugueses puderam perlustrar o território luso-castelistas, a custa dos trilhas indiáticas construídas por diversas tribos, a exemplo do caminho dos Tamoios, dos Carijós, dos Tupinambás e assim por diante. Caminhos que avançavam por todos os sentidos e distâncias.

No caso especial do Peabirú, pelas suas características e extensão, de caráter transcontinental, coincidindo coma trajetória do sol ou da imensa galáxia, seria o grande caminho do avatar dos índios brasileiros ou outro lado dos Andes, guiando-os para alcançar a desejada "Terra sem Mal"?

Ao final de nossa peroração e possível interpelação sobre a relação do Peabirú com o tropeirismo, adiantamos que todos os caminhos que foram buscados para a importante saga na condução da animália do Brasil meridional até Sorocaba, utilizaram-se dos mesmos roteiros do complexo de caminhos que alimentavam o Peabirú. Desde o vale do Ribeira, da entrada dos Campos Gerais , da rota do rio Itapocú ou pela baia da Babitonga (São Francisco) através dos Ambrósios, incluindo as transposições e ligações através do passo do Nonoaí, e ainda os caminhos da travessia da Serra do Mar na porção paranaense, que vinham do litoral e, assim por diante.

Para concluir e mostrar as dificuldades que precisamos vencer no desvendar Perabirú, ampliadas com a total destruição da cobertura virente do terceiro planalto destruindo suas marcas, relacionaremos os municípios que tem envolvimento com o secular caminho: Jardim Olinda, Itaguagé, Paranapoema, Paranacity, Cruzeiro do Sul, Uniflor, Atalaia, Mandaguaçú, Maringá, Floresta, Itambé, Engenheiro Beltrão, Peabirú, Campo do Mourão, Farol, Janiópolis, Goiorê, Luziana, Mamborê, Nova Cantú, Campina da Lagoa, Ubiratã, Tibagí, reserva, Candido de Abreu, Boa Ventura de São Roque, Pitanga, Santa Maria do Oeste, Palmital, Laranjal, Diamante do Sul, Guaraniaçú, Campo Bonito, Braganey, Iguatú, Corbélia, Anahy, Cafelândia, Nova Aurora, Iracema do Oeste, Jesuíta, Formosa do Oeste, Assis Chateaubriand, Palotina, Terra Roxa, Guaira, Tupãssi, Toledo, São Pedro do Iguaçú, Vera Cruz do Oeste, Ramilândia, Medianeira, Serranópolis do Iguaçú, São Miguel do Iguaçú, Foz do Iguaçú, Tijucas do Sul, Balsa Nova, Palmeira e Castro.
 
HENRIQUE PAULO SCHIMIDLIN, o Vitamina, é pós-graduado em História e por muitos anos foi Coordenador do Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.

BIBLIOGRAFIA
Abreu, J.Capistrano de – Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil. Ed. UnB.1963;
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Capanema, Barão de – Questões e estudos em relação aos principios da nossa historia, in revista do IHGB.1890
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Sobre o autor

Vitamina - Colunista

VITAMINA – Henrique Paulo Schmidlin Como outros jovens da geração alemã de Curitiba dos anos de 1940, Henrique Paulo foi conhecer o Marumbi, escalou, e voltou uma, duas, muitas vezes. Tornou-se um dos mais completos escaladores das montanhas paranaenses. Alinhou-se entre os melhores escaladores de rocha de sua época e participou da abertura de vias que se tornaram clássicas, como a Passagem Oeste do Abrolhos e a Fenda Y, a primeira grande parede da face norte da Esfinge, cuja dificuldade técnica é respeitada ainda hoje, mesmo com emprego de modernos equipamentos. É dono de imenso currículo de primeiras chegadas em montanhas de nossas serras. De espírito inventivo, desenvolveu ferramentas, mochilas, sacos de dormir. Confeccionou suas próprias roupas para varar mata fechada, em lona grossa e forte, cheia de bolsos estratégicos para bússola, cadernetas, etc. Criou e incentivou várias modalidades esportivas serranas, destacando-se as provas Corrida Marumbi Morretes, Marumbi Orienteering, Corridas de Caiaques e Botes no Nhundiaquara, entre outras. Pratica vôo livre, paraglider. É uma fonte de referências. Aventureiro inveterado, viaja sempre com um caderninho na mão, onde anota e faz croquis detalhados. Documenta suas viagens e depois as encaderna meticulosamente. Dentro da tradição marumbinista foi batizado por Vitamina, por estar sempre roendo cenoura e outros energéticos naturais. É dono de grande resistência física e grande companheiro de aventuras serranas. Henrique Paulo Schmidlin nasceu em 7 de outubro de 1930, é advogado e por mais de uma década foi Curador do Patrimônio Natural do Paraná. Pela soma de sua biografia e personalidade, fundiu-se ao cargo, tornando-se ele próprio patrimônio do Estado, que lhe concedeu o título de Cidadão Benemérito do Paraná.

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