Pena que o Indiana Jones não escala!

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Depois de um tempo longe da rocha decidi voltar e nada melhor do que escolher um lugar fora do comum para isso. Nos dias de tempestade nos acampamentos base do Himalaia passei vários dias ouvindo meu amigo do Israel me contar sobre esse tal lugar na Jordânia chamado Wadi Rum. No começo deste ano surgiu uma brecha no meu tempo e decidi ir a Israel e ir por terra para conhecer…

Combinamos tudo por telefone brevemente, mas Eyal me advertiu para ter cuidado e respeitar o exército e polícia ao chegar, pois Israel ainda está em conflito e o país inteiro está em conflito com certos habitantes em Gaza.

Ao chegar ao estacionamento do aeroporto lá estava o meio de transporte que nos levaria até a Jordânia: uma pick up Brat da Subaru acabaaaaada. A única coisa que funciona nela é o próprio motor. Eyal é muito orgulhoso do seu “carro” e diz que os beduínos têm muita inveja dele!

Atravessamos o deserto Negev e cruzamos a fronteira perto do Mar Morto. Tivemos uma série de problemas legais para entrar com o decadente meio de transporte, pois nem as luzes funcionavam. Duas horas, chaves de fenda, 80 dólares e algumas marteladas mais tarde finalmente conseguimos.

Fomos para Aqaba, na costa do Mar Vermelho, onde nos deliciamos com húmus e carne na qual nos arrependeríamos mais tarde. No fim da tarde adentramos um longo vale no meio de um deserto e pilares de arenito que se erguiam ao fundo. Assim como pessoas se envolvem em acidentes de trânsito por usar um celular ou olhar para uma mulher bonita, Eyal quase atravessou uma curva por ficar olhando para as paredes de arenito.

Finalmente adentrávamos o deserto de Wadi Rum. Infinitas linhas em ambos os lados do vale nos faziam ficar babando. É como dar vários brinquedos novos para uma criança ao mesmo tempo, pois ela não sabe com qual brincar.

Segundo os que já escalaram em Wadi Rum é preciso um tempo de 4 ou 5 dias para entrar no “Wadi Rum mode” para acostumar com aquelas longas escaladas de dezenas de cordadas, algumas em “areia vertical”, algumas em fendas longas e muita proteção psicológica.

Wadi rum é famoso pelo livro “The Seven Pillars of Wisdom” escrito por T. E. Lawrence ou popularmente como Lawrence da Arábia. O oficial inglês ficou famoso por ajudar os beduínos durante a revolta árabe (1916-18), na qual eles se libertaram do império Turco Otomano e criando um grande estado Árabe. Aliás, na minha última semana em Wadi Rum, escalei uma via chamada Pillar of Wisdom de 18 cordadas.

Como fazia tempo que eu escalava rocha, decidimos entrar numa parece fácil. Fomos para Abu Maileh Tower de apenas 5 cordadas e que é uma torre paralela à grande face leste do grande Jebel Rum, de 1500 metros de altitude e mais de 700 metros de parede!

Escalei em arenito em poucos lugares do mundo e lá eu percebi o quanto este tipo de rocha pode mudar de cordada a cordada. Depois de quebrar dezenas de agarras, aprendi a olhar para elas e começar a deduzir quanto peso suporta. Algumas só suportam 20 kg e é melhor não insistir…

Ficamos lá quase três semanas e escalamos dezenas de vias longas, algumas com até 20 cordadas.

Entramos em fendas que se convertiam em chaminés, depois em fendas de dedos e depois novamente em chaminés. Numa via chamada “Rain in the Desert” ao não ter como soltar das agarras para proteger tive que entalar o capacete e ficar pendurado do queixo para poder proteger.

É claro que nesses momentos você para e pensa: Por que é que eu quis voltar escalar rochas? Mas 5 minutos depois lá está você pulando de alegria por estar ali…

Durante uma tempestade de areia na primeira semana decidimos descansar e fomos visitar algumas ruínas nabateístas numa cidade histórica chamada Petra. Obviamente ao entrar no cânion que conduz à cidade mal prestamos atenção nas ruínas e só conseguíamos ver as linhas das fendas que subiam a totalidade do cânion de 100 metros. Ao final deste fica a famosa entrada do Treasury temple, que ficou famoso no filme “A Última Cruzada”. Pena que o Indiana Jones não escala, pois com aquela água sagrada ele poderia escalar muitas fendas.

A cidade é impressionante! Foi construída há mais de 2000 anos e é composta por edifícios que foram cavados dentro da Pedra. É até um pouco difícil de acreditar ao ver o tamanho dos prédios. Obviamente os possíveis boulders e rachaduras na área me fizeram ter certezas de que os nabateístas eram pessoas muito felizes!

Voltando a Wadi Rum ainda fomos para uma torre desconhecida que nem estava no guia ou na lista de topos ou na lista de picos. Demoramos dois dias em escalar a nova “Chupa-camel 260m 6a(fr)”. A vista de quase todos os lugares é impressionante. Muitas vezes no meio das vias éramos surpreendidos pela reza árabe pelos alto falantes da mesquita na vila de Ramm. As grandes paredes de ambos os lados do vale faziam o som ecoar várias vezes dando certo misticismo à coisa. Às vezes até nos ajudava a relaxar nas infinitas perrengues que só Wadi Rum pode oferecer. O salah (reza islâmica) ecoava daquele jeito foi uma das coisas mais impressionantes que eu já ouvi.

Ao escalar o Jebel Rum até o cume, pudemos avistar fileiras infinitas de paredes para todos os lados. Entre eles alguns cânions curiosos não muito longe dali. Mais tarde descobrimos que eles eram parte de Barrah Cânion.

Numa 4 x 4 de um local, fomos ao cânion através de dunas de areia e profundos vales. Avistamos muitas possíveis rotas e paredes que desafiam a imaginação. Durante uma parada para urinar descobri que paramos para urinar justamente num campo minado, há alguns metros da estrada!

Para os escaladores fortes em escalada livre há muitas, mas muitas possibilidades de abrir novas rotas em picos que nem sequer tem vias abertas ainda… Wadi Rum me deu certeza de que vou voltar algum dia para escalar coisas inéditas.

Ainda tínhamos que conhecer o Egito para escalar em granito rosa, mas isso será outra viagem à parte!

Texto: Maximo Kausch

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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