Petrópolis a Teresópolis 2002 – Parte 2

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Sem perda de tempo continuamos a subir pela trilha muito batida que corta a floresta em direção ao Açu. Alcançamos uma clareira onde a trilha se divide. O Pioli ficou com as mochilas na clareira observando uma grande ave empoleirada nas árvores enquanto eu, o Primata e a Juliana levamos os cantis pela variante à esquerda até cruzarmos um córrego ao lado de uma grande pedra.

A Pedra do Presidente forma uma gruta que serve de abrigo e cujo teto está todo carbonizado pelas fogueiras, ao seu lado o córrego forma inúmeras piscinas de água cristalina e algumas quedas, em frente, a trilha segue para a cachoeira do Véu de Noiva do Açu passando por baixo de uma imensa árvore apoiada no chão por um tripé de raízes.

Subimos na pedra por trás e encontramos alguns meninos entretidos numa espécie de jogo que não dei atenção diante da paisagem ali exposta. O vale do Bonfim vai alargando-se no horizonte até encontrar Petrópolis espalhando-se aos pés das montanhas. Ao descer da pedra ainda vimos alguns quatis que vem até ali a cata da comida dos acampamentos. Quando voltamos à clareira um segundo pássaro da mesma espécie havia se juntado ao primeiro, pareciam pavões e não se importavam com nossa presença, andavam calmamente pelos galhos acima de nós.

Continuamos a subir pela trilha que agora deixa a floresta e mostra alguns sinais de erosão subdividindo-se as vezes. A subida é muito íngreme passando por trechos de capoeira e outros de capim, o sol quente ainda nos castigava e só paramos na Pedra do Queijo para descansar e admirar a paisagem do vale que fica cada vez mais belo. Cercados por enormes paredões rochosos vemos a trilha seguir para a direita acompanhando uma aresta. No outro lado do vale fica bem visível o Véu da Noiva e lá embaixo ainda se enxerga a Pedra do Presidente.

Nuvens espessas já se enroscam nos cumes acima de nós e a trilha vai ficando cada vez mais encrespada, alternando descampados e fechados capoeirões. Um lugar com uma fonte chamado de Ájax marca o fim deste trecho e lá encontramos um grupo de mauricinhos muito bem arrumadinhos, conversando enquanto passava um baseado de mão em mão.

Existem vários platôs gramados para barracas protegidos por altas moitas de vegetação mas ninguém acampado. Daqui em diante a trilha começa a escalar uma encosta muito inclinada e já tomada por caratuvas e capim navalha, aqui chamado de capim de anta. O sol se pondo deixa apenas um clarão frio no ar e o vento começa a soprar gelado. Depois de alcançar um ombro coberto por um lajeado exposto ao vento, desviamos à esquerda e continuamos a subir por terreno semelhante já no escuro.

De um cume próximo vem sinais de SOS com a lanterna e alguns gritos pedindo ajuda, mas por não conhecer a região não tínhamos condições de prestar nenhum auxílio, então nem respondemos com receio de piorar a confusão. O vento forte e o frio intenso já começam a incomodar quando atingimos um banhadão no meio de enormes moitas de capim. Contornamos à direita e a distancia ainda via-se os Castelos do Açu contra um fundo plúmbeo, subimos mais e encontramos uma cruz sobre algumas pedras.

Passava um pouco das 18:00 horas e levamos apenas quatro horas para subir a Pedra do Açu com seus 2.245 metros carregados com 20kg de tralha. Montamos nossas barracas entre grandes moitas de capim navalha atrás do cruzeiro razoavelmente protegidos das rajadas de vento e vestimos nossas roupas de abrigo. Comecei a preparar um arroz carreteiro com virado de feijão e rodelas de salame italiano frito enquanto a Juliana arrumava a barraca e o Pioli com o Primata iam buscar água nas proximidades dos castelos.

A temperatura de 5,5ºC somada ao vento forte fazia uma péssima sensação térmica. Reforcei a janta com miojo e todos se regalaram. Subimos nas pedras do cruzeiro para apreciar as luzes da cidade do Rio que esparramava-se pelo horizonte. O mar escuro cercava ilhas de luz, Niterói brilhava a esquerda e o Rio a direita. Grandes labaredas trepidavam na Reduque logo abaixo, em Duque de Caxias.

Não tardou a chegar alguns Cariocas que estavam acantonados embaixo da pedra do Açu, formaram uma rodinha e enquanto passavam um baseado discutiam assuntos diversos numa língua bastante aparentada com o português. O vento, o frio e principalmente o papo furado logo nos cansou e procuramos um lugar mais sossegado para comentar as agruras da subida. O cansaço e o frio devagar foram minando nossa resistência e um a um, acabamos nos enfurnando nas barracas. Dentro das barracas protegidas pelas moitas de capim estava bem quente e passamos uma noite muito agradável com o vento assoviando sobre nossas cabeças.

Amanheceu o segundo dia e o vento continua forte e frio como na noite anterior, mas agora estamos envoltos por um denso e úmido nevoeiro. Não se enxerga nada alem de dois metros. Resignados fizemos um café com biscoitos e depois de lavar toda a louça começamos a ensacar o equipamento todo úmido. Passamos pelo cruzeiro e descemos para a Pedra do Açu. Usando a própria pedra como teto, piso e parede de fundo o pessoal construiu paredes de pedra empilhadas servindo como divisórias e criando vários cômodos forrados de capim onde bastam um isolante e um saco para se dormir confortavelmente.

E por instantes a névoa se dissipava mostrando grandes nacos de paisagem e um bonito céu azul acima de nós. Atrás há uma grande pedra com um guarda corpo feito com barras de ferro e cabo de aço que conduzem ao alto de um mirante. O nevoeiro não nos permitiu ver a baía, mas durante alguns segundos nos mostrou toda a Serra dos Órgãos. O Sino, o Garrafão, o Dedo e o Escalavrado, muito mais, mas só por um instante e tudo se fechou novamente.

Descemos e enquanto nos reabastecíamos de água na fonte em frente, chegava uma moça liderando o grupo que na noite anterior pedia ajuda. Perder a trilha faz parte do pacote turístico local e acreditávamos que também isso nos aconteceria em algumas passagens. Empresas de turismo "ecológico"e guardas empenhados no favorecimento das mesmas tem grande interesse no crescimento da quantidade de perdidos na trilha.

Nos castelos fomos informados que uma hora antes saíra um grupo de São Paulo com GPS e mapa . Lamentamos o desencontro, mas seguimos firme por dentro da neblina. Adiante do Açu, no Morro do Marco o piso é formado por grandes lajes de pedra intercalada por trechos de capim ralo e varrido pelo vento que lembram bastante o Camapuã. A marcação do itinerário é feita por totens de pedra e flechas desenhadas no chão com as mesmas pedras. O problema é que a névoa cobre tudo e há totens e flechas apontando para todas as direções. Tomamos a mais forte seguindo à direita e em pouco tempo encontramos o grupo de paulistas com GPS e mapa tão perdidos como nós.

O Primata insistia que devíamos subir um morro à esquerda, mas a lógica apontava em frente e passamos horas explorando alguns banhados e as margens de um pequeno córrego naquela paisagem dantesca. A névoa dissipou-se com o calor do sol e já tínhamos visão limpa por quilômetros em algumas direções, mas não encontrávamos a trilha para vencer aquelas montanhas. Impaciente o Primata resolveu escalar um paredão íngreme e o subiu até a metade quando o chamamos de volta.

Retornei parte do trajeto e repeti todos os procedimentos até encontrar indícios seguros da direção a seguir. Desci algumas rampas e encontrei uma trilha desviando de uma bonita cachoeira e subindo a parede oposta na direção do Dedo de Deus. Voltei e chamei a todos, mas os paulistas preferiram voltar. A Juliana andava com as minhas luvas para proteger suas unhas pintadas de cor de rosa e tive sorte ao achar uma outra mão de luva no fundo da grota. O vento frio não parou um instante sequer. Cruzamos o riacho alguns metros abaixo das pedras e começamos a subida seguindo as marcas que apontavam para um colo de montanha na direção do Garrafão.

A encosta é inteiramente coberta com grandes moitas de capim navalha e caraguatás. Incêndios passados queimaram as folhas secas do capim de anta e a touceira sempre protegeu-se no miolo para ressurgir mais tarde um andar acima. As touceiras desta encosta tem um metro de altura antes de liberar sua cortante cabeleira e estão afastadas entre si outro tanto. Entre duas touceiras espreme-se um caraguatá todo ouriçado. Não vencemos nem o primeiro terço da encosta e a trilha já havia desaparecido. Eu e a Juliana que andamos de shorts tínhamos as pernas retalhadas pelas hastes do capim. As mãos sangravam e ardiam, não havia um pedaço de carne que não estivesse perfurado por um espinho dos caraguatás.

Caminhar pelo intervalo das touceiras era impossível então subimos e andamos pelas copadas. Constantemente errávamos as passadas e caíamos sobre um caraguatá ou ninho de aranha, as vezes em ambos. Não se podia segurar nas hastes do capim cortante e assim os tombos eram muito feios. Com muito custo chegamos na altura do colo que unia as duas montanhas e foram surgindo algumas pedras expostas e depois o lajeado foi aumentando de tamanho e diminuindo a distancia entre eles, conseqüentemente os trechos de capim foram se reduzindo mas mesmo assim dava vontade de morrer cada vez que se olhava em frente.

No alto do colo tivemos a mais magnífica vista do Dedo de Deus e do Escalavrado. Estávamos muito acima deles e com a visão totalmente desimpedida, ao fundo continuava a serra e entre as nuvens despontavam do horizonte os três grandes picos de Friburgo. O vento gelado não cessava por um instante sequer e o capinzal tinha vida própria nos chicoteando sem parar. Contornamos aquela imensa montanha e na parede oposta, distante ainda um quilometro, via-se o risco negro da trilha.

As sombras estavam já se alongando e o maciço da Pedra do Sino começou a comandar o espetáculo. O sol desapareceu atrás de algumas montanhas à esquerda e apenas uma faixa de luz iluminava os cumes do Sino até o Garrafão. As pedras mudavam rapidamente de cor e as sombras desenhavam novos volumes.

Continua…

Recomeçamos a encontrar os totens de pedra e mais a frente cruzamos um filete de água potável que escorre pela pedra nua

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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