Petrópolis a Teresópolis 2002 – Parte 3

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Recomeçamos a encontrar os totens de pedra e mais a frente cruzamos um filete de água potável que escorre pela pedra nua. Paramos antes de cruzar um pontilhão metálico para beber e lavar as feridas. Ouvimos alguns gritos e vimos o grupo de São Paulo sinalizando do alto da crista, esperamos ali pela chegada deles e depois partimos juntos. O pontilhão de ferro com piso de madeira vence uma profunda fenda onde despenca um córrego. No lado oposto começa uma extensa escadaria com degraus de ferro chumbados na pedra coberta de barro negro.

Subimos e contornamos mais este obstáculo, chamado de a Cabeça do Dinossauro com a última claridade do dia e descemos a face oposta até o Vale das Antas onde existe um gramado cercado por caratuvas imensas. A clareira é plana e possui ótimos espaços para armar as barracas. Afastado alguns metros passa um riacho de águas límpidas correndo sobre um fundo de areias brancas. Todo o perímetro é protegido do vento por moitas de caratuvas com mais de três metros de altura que formam os mocós usados como banheiros. Tratamos logo de montar o acampamento.

O Pioli encontrou um recanto separado e os paulistas armaram uma grande barraca da Trilhas & Rumos e entocaram-se todos lá dentro. Quando a Juliana entrou para arrumar o interior da nossa, encontrou um inquilino indesejado. Uma grande tarântula passeava pelo teto e foi preciso muita ginástica para conseguir a reintegração de posse sem ferir a invasora. Montamos a cozinha bem ao lado das barracas e novamente fizemos uma festa gastronômica.

Os vizinhos não botaram a cara para fora e até cozinhavam dentro do avancê da barraca. Um deles trabalha numa empresa que promove esportes de aventura e eventos relacionados. Durante o jantar notamos um movimento furtivo entre as caratuvas e fizemos uma ceva para atrair os visitantes. Não demorou e surgiu o primeiro ratinho, calmamente sentou-se nas patas traseiras e passou a deliciar-se com o biscoito que apanhou na mão da Juliana. Muito rápidos parecia que pulavam com as patas traseiras usando os rabos para manterem o equilíbrio como se fossem pequenos cangurus.

O vento frio, nosso companheiro inseparável finalmente nos abandonou e nuvens ameaçadoras concentraram-se sobre a clareira, choveu torrencialmente durante toda a madrugada. Acordamos tarde e lá pelas oito horas ainda chovia quando nossos vizinhos partiram. Calmamente esperamos a chuva cessar para fazer o café e desmontar o acampamento. O Primata fez um mingau de leite em pó e se empanturrou com ele. Como não conseguiu comer tudo começou a oferecer aquela nojeira e para não desperdiçar comida resolvi ajuda-lo, adicionei um pouco de conhaque medicinal e mandei ver.

Infeliz idéia a minha, aquele leite me fez tão mal que passei metade do dia arrotando conhaque. Lá pelas dez recomeçamos a andar ainda dentro do nevoeiro. Atravessamos o córrego por outro pontilhão e começamos a subir pelo mato fechado e encharcado. Cruzamos alguns atoleiros e muito pouco enxergávamos no túnel de mato, apenas andávamos tiritando de frio pela neblina até que a vegetação foi diminuindo e novamente apareceram as grandes lajes de pedra.

Depois da Pedra da Baleia vimos que estávamos subindo por uma aresta bastante exposta e a intervalos o nevoeiro se abria nos mostrando profundas grotas e grandes paredões de pedra nua. O vento frio nos reencontrou, mas não conseguia varrer a forte neblina, apenas abria pequenos buracos por onde conseguíamos ver alguma coisa ao redor. Andamos pela cumeada rochosa até o precipício que nos separa do Sino, ali molhados e tiritando de frio, sentamos na beira do abismo para o lanche do meio dia.

A névoa se debatia enlouquecida nas pedras e no alto já se viam manchas azuladas do céu. Apostamos alto na limpada do tempo e ganhamos a sorte grande. O vento varreu o nevoeiro para longe e atravessamos a grota dos Sete Ecos gritando e vendo os paredões verticais da Pedra do Sino contra um céu azul limpíssimo. Começamos a escalar a Pedra do Sino às quatorze horas cruzando o pequeno vale e seguindo por uma estreita fresta a esquerda até o lance do Cavalinho, uma pedra vertical que você pega o topo, vai a esquerda dela e pula como se fosse montar num cavalo.

A direita o paredão vertical do cume e a esquerda o precipício sem fim, acima o céu azul e abaixo um rebuliço de vapor. Lentamente fomos contornando o paredão e numa passagem difícil há uma escada metálica fixada à rocha, depois uma longa rampa segue em direção do azul profundo. A paisagem se alarga sobre vários lajeados e um pilar de concreto com seção quadrada e um metro de altura marca os 2.263 metros da montanha mais alta do Rio de Janeiro.

No cume vimos o Dedo de Deus muito perto e bem abaixo. Víamos também todo o Rio de Janeiro e Niterói, a ponte, o Corcovado e o Pão de Açúcar, tudo de uma só vez. Enquanto curtíamos em êxtase esta paisagem chegou uma figura exótica ao local. Alto e loiro, estranhamente vestido, descalçou as botas e começou a circular só de meias, comendo laranjas. Este sim poderia ser francês ou alemão, mas era dinamarquês e não levou nem cinco minutos para o Primata se auto convidar para o lanche na maior intimidade.

Começamos a descer para Teresópolis, perto do cume via-se alguns gramados pouco abaixo, no meio do mato e antes de atingi-los encontramos um grande abrigo construído de madeira em forma de chalé com caixa d´água, fossa e outros confortos. O Primata diz que foi construído no ano anterior com o uso de helicópteros. Em frente a trilha segue bem plana e com alguns trechos alagados, depois começa a descer em grandes zig-zags que nunca acabam. Muito larga em meio a paisagem exuberante que lembra um pouco a Conceição vai descendo lentamente.

Ficamos indignados quando o Primata a ela se referiu negativamente, pois ficava cada vez mais bonita. Monótona em sua beleza, não saia do lugar perdendo-se em tantos zig-zags. Contam que foi aberta para conduzir os aristocratas em suas liteiras até o alto da serra como foi moda durante o final do período imperial. Mal havíamos começado a percorrê-la e já estávamos dando plena razão ao reclamante e tomávamos todos os atalhos que encontrávamos, mas cientes do problema a eficiente administração do parque tratou de gastar centenas de metros de arame farpado para preservar o percurso original.

A trilha arrastou-se até a sede do parque, muitos zig-zags abaixo aonde chegamos a noitinha. Descansamos um pouco no começo da trilha aérea e depois voltamos a andar pela estrada até a entrada do parque aonde chegamos às 18:00 horas. Na guarita descobrimos que o último ônibus parte da rodoviária as 19:00 horas para Petrópolis e também que não precisamos pagar nada ao parque que fecha a bilheteria as 17:00 horas deixando livre da taxa todos os que saem depois deste horário.

Examinadas todas as alternativas resolvemos correr até o ponto de ônibus mais próximo. Embarcamos e depois de descer no centro voltamos a correr feito malucos pelas calçadas até a rodoviária.  Depois de percorrer 45 Km a pé pelo alto da serra esta última corrida foi de matar. Embarcamos menos de cinco minutos após comprar as passagens e novamente atravessamos a serra. A quarta vez em quatro dias e apesar de estarmos a três dias suando e sem banho nossos companheiros de viajem não cheiravam muito melhor que nós e talvez por isto não reclamaram.

Em Petrópolis, de banho tomado, queríamos comer um espeto corrido para recuperar o atrasado e com a ajuda da anfitriã começamos a procurar uma churrascaria. A Fátima esgotou todas as tentativas e não conseguimos achar aberto um gaúcho sequer naquela noite de terça-feira e afinal nos contentamos com a velha pizza. Mas como também não havia pizzaria aberta tivemos de encomendá-las em um disk pizza e levá-las para comer em casa. Uma quarta pizza desceria muito bem, mas lembrando de toda a ginástica necessária para conseguir as três anteriores resolvemos deixar a gula para o dia seguinte durante o planejado tour pela cidade.

Acordamos tarde naquela manhã preguiçosa e após nos livrar do Primata partimos para o Museu Imperial, almoçamos fartamente num restaurante nas proximidades e dali para a Catedral, depois a casa de Santos Dumont e alguns comércios de cristais. Tudo a pé e no ritmo das passadas rápidas da Fátima, andamos por becos e avenidas, cruzamos muitas pontes e apreciamos velhos palácios. Nossa anfitriã aparenta estar um pouco deprimida por sua recente perda, mas desdobra-se em atenções para melhor nos atender.

Planeja uma insensata caminhada solitária até Aparecida, sonha comprar um Jeep e levar uma vida errante, sem mencionar o fato de nos recolher em sua casa. Os amigos do Primata são conhecidos por não ter todos os parafusos no lugar. Na noite anterior ainda discutíamos o que fazer em seguida. Pensamos em escalar o Dedo de Deus se o tempo ajudasse e o tempo estava ótimo. Cogitou-se escalar o Pico da Bandeira na Serra do Caparão, mas a distância a percorrer nos desanimou. Visitar as Agulhas Negras a meio caminho de casa parecia o mais lógico, mas tivemos notícias de que devido ao incêndio do ano passado estavam exigindo guias e não nos havíamos cadastrado em tempo hábil.

Continua nas pedras do Pão de Açúcar….

Na verdade estávamos cansados demais para fazer qualquer coisa mais pesada e queríamos apenas prolongar aquela moleza.
 

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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