Picada do Cristóvão – Parte 1

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Após cruzar um rio e saborear a cortesia dos arbustos dali, como araçá e framboesa, a trilha entra no frescor da mata fechada beirando encostas forradas de mata densa e exuberante! Texto de Jorge Soto com fotos de Paulo Marinho

Os vales da Serra do Mar paranaense eram cortados por 5 caminhos coloniais q ligavam o planalto ao litoral, dos quais a “Picada do Cristóvão” era o menos importante por ser o mais selvagem de todos. Atualmente os demais caminhos foram restaurados (Itupava) ou engolidos pelo asfalto (Graciosa), mas a “do Cristóvão” continua lá, selvagem tal qual nos tempos pré-coloniais: partindo de Praia Grande, atravessa a base dos maciços do Ibiteruçu, desce a serra ate cruzar c/ a “Trilha da Conceição” e continua pelo Bairro Alto até findar no Pto Cacatu, em Antonina. No caminho, ruínas de varias épocas – a “Cachu dos Cabos”, “Janelas da Conceição e Cotia”, o “Disco-Porto”, a “Piscina do Elefante” e o “Aquaduto” – se fundem à exuberante natureza tornando esta pernada de 2 dias um autêntico passeio pela historia.

Certas oportunidades devem ser agarradas a qq custo qdo aparecem na sua frente! Há tempos q desejava palmilhar a “Estrada de Praia Grande ao Pto Cacatu”, também chamado como “Picada do Cristóvão”, mas não conhecia alguém q de fato me desse infos precisas. Qdo o Julio Cesar Fiori, autor do livro “Caminhos Coloniais da Serra do Mar“, me convidou pra percorrê-la por inteiro neste fds, não pensei duas vezes em aceitar. Bastou acertar logística, chamar quem mostrasse interesse e cair na estrada.

Dessa forma, eu, o Guto e a Márcia saltamos no posto Tio Doca as 5hr daquela fria madruga de sábado, ainda sob um céu tremendamente estrelado, p/ ser resgatados 1 hora após pelo Julio & sua trupe: Solange, sua simpática esposa, e os fotógrafos-montanhistas Zig Koch & Paulo Marinho. Espremidos num Palio Adventure bordô, chegamos na Faz do Dílson (915m de altitude, pelo gps do Paulo) enqto os primeiros raios do sol dissipavam a bruma matinal, descortinando um dia bastante promissor, p/ logo nos despedir da Solange, q voltaria p/ Curitiba c/ o veiculo.

Começamos a pernada por volta das 7hrs, ao sermos recebidos pelos estridentes latidos dos cães na Faz. Rio das Pedras (ou do Bruno), q nos seguiram ate o final da estradinha, onde derivamos p/ encosta gramada do morro à direita. No alto, após uma porteirinha, bastou seguir rumo a crista oposta, marcada por pinheiros perfilados, e lá acompanhá-los ate o final p/ oeste, mas não s/ complementar nosso café c/ amoras silvestres q forravam os arbustos do caminho. Após saltar uma cerca, bastou varar pouco mato (molhado) de modo a contornar, pela esquerda, um extenso banhado (charco) ate alcançar uma precária estradinha, q nos levaria ao Sitio do João de Abreu, local onde oficialmente sai o “Cristóvão”.

No entanto, já cientes q o proprietário proíbe qq tentativa de passagem se valendo de intimidação armada ou soltando seus dóceis rotweillers, saimos da estradinha (p/ direita), descendo pela encosta salpicada de pinheiros e varar algum mato direcionando um poste no vale logo abaixo, q nos serve de referencia. Desta forma, ao mesmo tempo q contornávamos literalmente a base do Taipabuçu pela esquerda, contornávamos o tal sitio pela direita. A mata se adensa a medida q perdemos altitude ate q, após desviar de barrancos íngremes, chegamos no fundo do vale, onde o som de água correndo nos recebe ao mesmo tempo q caímos quase no começo do almejado trilho colonial, as 8:30!

A partir daqui basta tocar a trilha p/ direita, subindo a serra inicialmente no aberto, bordejando a floresta sob uma picada q ora se mostra estreita, ornada de mto capim puxa-tripa e alguns lírios, ora larga apresentando tb vestígios do calçamento original de pdras irregulares q outrora a cobrira em td sua extensão. Após cruzar um rio e saborear a cortesia dos arbustos dali, como araçá e framboesa, a trilha entra no frescor da mata fechada beirando encostas forradas de mata densa e exuberante! Fora o som da algazarra de bugios e o canto metálico das arapongas, efeitos de luzes das eventuais frestas de vegetação nas teias de aranha do caminho levavam o Paulo & Zig (cujos tripés serviam tb de bastões de caminhada) ao delírio, tornando nossa suave ascensão um tanto demorada.

Após um selado, bordejamos a encosta direita do Guaricana, ignorando a trilha q leva ao seu topo, q sai discretamente pela esquerda. Logo a picada torna-se úmida, repleta de charco, e o mato alto ameaça invadi-la a qq instante, mas logo adiante ela reaparece, firme e forte, c/ destaque p/ ossadas de catetos (porcos-do-mato) na beira da mesma. As 10hrs saímos da mata, já no alto da serra em meio a arbustos entre o Guaricana e o Ferreiro, ate alcançar o pé de torres de alta tensão, q pareciam chiar eletrostaticamente diante nossa intromissão. E é lá (1185m alt.), meia hora após, q temos nosso 1º pit-stop de descanso p/ lanche, sentindo a brisa fresca em nossos rostos suados.

Agora a picada acompanha as torres por um tempo, e após um susto c/ uma enorme jararaca – q passou despercebida p/ td mundo, no meio da trilha, e ainda fez xacota da gente nos mostrando sua lingüinha! – nossa atenção redobrou! Deixamos as torres no Poste 74 p/ entrar novamente na mata fechada, contornando as encostas do Ferreiro, onde ainda havia as fundações de uma antiga ponte, totalmente mimetizada c/ a vegetação! As 11:30 (1109m alt.) esbarramos c/ as discretas fitas ao lado do riozinho indicando a trilha q leva ao cume do Ferraria, p/ direita.

A pernada arrefece e nivela durante um bom tempo, tornando o passeio bem agradável, ate q numa curva uma janela na mata permite vislumbrar, as 12:30, a base do maciço q logo iríamos contornar, a crista do Ferraria com o Ibitirati, o PP e o Saci logo atrás, tendo um tapete de nuvens ocultado seus cumes, porem c/ seus respeitáveis paredões verticais realçados pelo sol de inicio de tarde!

A partir daqui se desce a serra através da densa mata, calçamento irregular escorregadio, trilhas de bichos cruzando o caminho, jardins floridos, bananeiras e alguns restos de acampamentos de caçadores. Mas não tarda p/ mato invadir a trilha, obrigando a mim, o Julio e o Guto nos revezar na dianteira e reabrir a trilha no facão! As chuvas deste verão devem ter contribuído pelo rápido crescimento do mato e do abandono aparente do lugar! Mas logo a presença cada vez maior de maria-sem-vergonhas é sinal q estamos próximos da “Trilha da Conceição”, antiga estrada de manutenção da Copel datada dos anos 70, q interceptamos as 14hrs!

Daqui o “Cristóvão” continua reto mata adentro, perpendicular à “Conceição”; tomando a direita desta se chega no Rio Cotia e Bairro Alto, mas nos vamos p/ esquerda, sentido “Janela da Conceição”, distante apenas 3km dali. Apesar do trecho curto, a trilha está bastante fechada, o q obriga a nos arrastar sob túneis de taquarinhas, varar arbustos espinhentos, encarar macacões de urtigas, capim navalha e gordura, tornando o avanço lento e dolorido.

Na verdade estávamos caminhando numa antiga estrada, porem totalmente tomada pelo mato! Mas não demoram a aparecer vestígios do passado, como um enorme isolante de porcelana abandonado no chão. De repente saímos no aberto, já c/ algum visu da bela Cachu dos Cabos com os fios de alta tensão passando por cima da gente, mas logo entramos novamente na mata ate chegar na 1ª e estreita “ponte”, modo de nominar 4 vigas de ferro dispostas paralelamente q nos permitem atravessar um precipício sobre um rio.

Do outro lado a ralação de mato continua; ignoramos uma picada à esquerda q nos leva à cachu (q veríamos na volta), onde deixamos as mochilas p/ avançar o restante s/ tanta dificuldade. Mais ágeis, chegamos na 2ª “ponte”, esta sob um abismo maior c/ um rio rugindo furiosamente logo embaixo! Impossível não se sentir o legitimo Indiana Jones em busca de alguma cidade perdida diante de tantos obstáculos vencidos ate aqui! Ainda abrindo picada no braço em meio ao cipoal, agora beirando a encosta junto do paredão, foram aparecendo estruturas, lajes de concreto e por fim lá estava ela, as 15:45, a nossa “cidade perdida” na forma da “Janela da Conceição” (ou “Túnel do Guaricana”), outrora exaustivamente utilizado na construção da usina Capivari-Cachoeira.

Continua…….

Uma enorme porta de aço cravada na montanha c/ uma placa q anunciava laconicamente “Proibida a entrada de pessoas estranhas”, quiçá nos avisasse dos perigos daquele outrora túnel de escoamento.

Texto de Jorge Soto – http://www.brasilvertical.com.br/l_trek.html

Fotos de Paulo Marinho

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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